Em janeiro de 1934, e com diferença de poucos dias, lançou três tiras para fazer concorrência às já citadas. As novas tiras de aventuras eram "Jungle Jim", "Secret Agent X-9" e "Flash Gordon". Todas elas, fato único na história das HQ, desenhadas pelo mesmo artista! Até esse momento Alexander Gillespie Raymond era desconhecido no mundo das HQ. Seu primeiro emprego havia sido na Wall Street (a rua dos negócios em Nova Iorque), quando tinha 18 anos.
Começou a desenhar muito cedo, encorajado pelo pai, mas segundo o próprio Raymond, "Não acreditava que eu seria um grande desenhista, por isso optei por trabalhar na Bolsa de Nova Iorque. Mas fiquei desempregado com a crise de 1929. Depois tentei trabalhar com hipotecas, mas não era um bom negócio naquela época... por outro lado, descobri que eu era um péssimo vendedor: aceitava sem insistir o primeiro 'não' dos clientes."
Acabou se convencendo de que seu caminho era outro. Lembrou-se de que seu vizinho era Russ Westover (um desenhista já consagrado por sua série "Tillie the Toiler"); decidiu levar a ele algumas amostras de seu trabalho. Russ viu nelas méritos suficientes para aconselhá-lo a abandonar o ramo das hipotecas e trabalhar com aquilo que realmente sabia fazer.
Trabalhou como assistente de Russ Westover e depois com o célebre Chic Young e com o irmão deste, Lyman na série Tim Tyler's Luck, fazendo as tiras diárias e páginas dominicais. Em 1934, Joe Connolly, presidente do King Features Syndicate, assustado diante da crescente popularidade de Buck Rogers, uma tira de ficção-científica distribuída por uma empresa rival, decidiu contra-atacar, lançando não só uma, mas três novas séries com a intenção de conquistar o mercado: uma de ficção-científica (Flash Gordon), outra policial (Agente Secreto X-9, que seria a resposta do KFS a Dick Tracy, de Chester Gold) e uma terceira, ambientada na selva (Jim das Selvas), que faria o possível para competir com a célebre Tarzan, de Hal Foster.
Raymond, então com 22 anos, foi o escolhido para ilustrar as histórias e se submeteu a um ritmo infernal de produção diária das tiras e páginas dominicais. O volume de trabalho foi demais e Raymond, no decorrer de um ano e meio, se viu obrigado a abandonar o Agente Secreto X-9 para se dedicar exclusivamente à sua cria mais famosa, Flash Gordon., passando X-9 para as mãos do competente Austin Briggs, que mostrou ser digno da continuidade do trabalho com um desenho elegante e competente; abandonou também Jim das Selvas, que ficou a cargo de Paul Norris, quem tempos depois seria reconhecido por se trabalho em Brick Bradford.
“Demoro uns quatro dias e quatro notes para produzir uma página dominical. O desenho a lápis é o que me consome mais tempo; a segunda parte é arte-finalizar, para o qual uso pincel. Nos estúdios do Sindicato aplico as cores, sobre um papel transparente”, confessou Kirby.
Conta-se que em certa ocasião, uma tempestade de verão provocou um súbito corte de luz. Como o apagão se prolongou e o prazos de entrega estavam no fim, Raymond trabalhou com luz de vela durante toda a noite, mas cumpriu o prazo da entrega, sem abrir mão do seu perfeccionismo. Amante confesso de seu trabalho, não saia de férias e nem tinha dias de folga; mas essa árdua rotina foi abruptamente interrompida pelo advento da guerra.
Em 1944, Raymond se tornou Capitão da Marinha, ainda que sua arma tenha sido o lápis e não o fuzil, já que serviu no Departamento de Publicidade, tendo que abandonar seus queridos personagens de papel e tinta, ficando Flash Gordon a cargo de Dan Barry.
Em 1946, com o fim da guerra, Raymond volta ao King Features Syndicate e inicia uma nova tira, Rip Kirby. Kirby, como Raymond, é um ex-oficial da Marinha que se torna detetive particular. Suas aventuras, tendo como pano de fundo a alta burguesia nova-iorquina, nostálgica por um mundo aristocrático que não existe mais, mostram uma evolução incrível na construção psicológica das personagens. Não é mais o ponto de vista simplório das histórias de Flash Gordon.
Em Rip Kirby Raymond deixa claro que o crime é, muitas vezes, produto de um sistema econômico injusto e excludente. E, como na novela noir, muitas vezes a podridão está instalada nas classes sociais mais abastadas. Na elaboração das tiras de Rip Kirby, Raymond desenvolveu um método de trabalho que envolve fotografia, modelos vivos, uma pesquisa exaustiva de ambientes, vestuário e costumes. Raymond - que já fora ilustrador de revistas como Collièrs Weekly, Blue Book, Esquire e Look - está desenhando como nunca. Ele mesmo chega a declarar: "Estou sinceramente convencido de que a arte dos quadrinhos é uma forma de arte autônoma. Reflete sua época e a vida em geral com maior realismo, e, graças à sua natureza essencialmente criativa, é artisticamente mais válida do que a mera ilustração. O ilustrador trabalha com máquina fotográfica e modelos; o artista dos quadrinhos começa com uma folha de papel em branco e inventa sozinho uma história inteira - é escritor, diretor de cinema, editor e desenhista ao mesmo tempo".
O crítico americano Kenneth Rexroth declarou que todas as histórias de aventuras podem ser reduzidas a dois protótipos: A Ilíada e a Odisséia. Desse ponto de vista o Flash Gordon seria o Aquiles das HQ enquanto Rip Kirby viria ser Ulisses. Rip Kirby ficou melhor ainda quando à equipe de Raymond se juntou Fredd Dickinson, ex-repórter policial. Os roteiros adquiriram um realismo e ritmo que não tinham até então. Raymond se consagrou por completo com a produção da tira, a qual, curiosamente, nunca teve página dominical (que era um verdadeiro pesadelo para os desenhistas da época).
Recusou a tentadora oferta de 35.000 dólares anuais feita pelo sindicato, por achar que o trabalho extra afetaria a qualidade do produto, além de tirar o tempo que lhe sobraria para dedicar-se a outra de suas paixões: os carros de corrida... mal sabia ele que esse seu hobby lhe seria fatal.
No dia 7 de setembro de 1956, uma notícia sacudiu o público: “Desenhista Morre em Acidente Automobilístico” informava o New York Times em letras garrafais, para em seguida referir-se de maneira mais objetiva e laudatória a personalidade e carreira profissional de Raymond. Também foi dito que o desenhista não era o único passageiro do veículo acidentado. Estava acompanhado de seu amigo (também desenhista) Stan Drake, que escapou com ferimentos graves.
A primeira vista, parecia tratar-se de um acidente como tantos outros. Entretanto, houve quem especulasse a possibilidade de um suicídio. Na verdade, Raymond atravessava uma fase crítica em sua vida, com o seu casamento à beira de um colapso e uma série de conflitos pessoais, incluindo a negação de sua esposa em lhe conceder o divórcio.
Por outro lado, era bem conhecida a paixão do desenhista por carros de corrida, que gostava de dirigir em altas velocidades.Inclusive havia sofrido vários outros acidentes, tendo que se internar diversas vezes para se recuperar dos ferimentos. Segundo o testemunho de Drake, após recobrar a consciência, olhou para o médico que atendia seu colega e o ouviu dizer, “Essa é a quarta vez que atendo esse cara! Buscou a sua própria morte!” Naquele momento Drake tinha outras preocupações, já que havia sofrido ferimentos internos, havia fraturado o ombro e ambas as orelhas haviam se desprendido.
Foi só depois, ao tomar conhecimento dos conflitos pessoais de Raymond, que começou a se questionar sobre as circunstancias da tragédia. Passados cinco anos, visitou o local do acidente. Percebeu que a árvore contra a qual o Corvette se chocou havia crescido, mas vários fragmentos da lataria do carro ainda eram claramente visíveis encravados no tronco da árvore. Lamentou a morte daquele grande artista e se estremeceu diante da idéia de que ele também poderia ter tido o mesmo fim.
Após a morte de Raymond, Rip Kirby continuou sendo feita pelo desenhista John Prentice até o ano de 1999, quando veio a falecer. E, coisa estranha, o trabalho de Prentice era tão idêntico ao de Raymond que os conhecedores não sabem dizer onde termina o trabalho de um e onde começa o do outro. Costuma-se dizer que criadores e artistas atingem o ápice da criatividade aos cinqüenta anos, quando talento e experiência se equilibram. Se isso é verdade, Raymond, o criador das fabulosas páginas de Flash Gordon, ainda estava começando.
No Brasil, Rip Kirby foi rebatizado como Nick Holmes, numa tentativa de associá-lo a Sherlock Holmes.


