quinta-feira, junho 17, 2010

ENTREVISTA COM JACK KIRBY - PARTE I



NAS BANCAS

TURMA DA MÔNICA EXTRA #5
DENISE
Editora Panini - R$ 3,20

A espevitada Denise, personagem secundária mais "descolada" da Turma da Mônica, finalmente sentirá o gosto do estrelato.

Com suas gírias modernas, trejeitos fashion e ritmo alucinante, ela é a protagonista de Turma da Mônica Extra 5 - Denise, edição que reúne algumas das melhores histórias da divertida garota que nos últimos anos vem se sobressaindo nas HQs da criançada do Bairro do Limoeiro e já tem sua própria galeria de fãs.

(notícia originalmente publicada no www.universohq.com.br)


TEX 487 - A GRANDE SEDE
Mythos Editora
Preço de capa R$ 5,90

Argumento de Gianfranco Manfredi, desenhos de Fabio Civitelli e capas de Claudio Villa.

Estamos em plena renovação e, por isso, cada história depara-se perante o leitor apaixonado com um sentimento misto de ansiedade e receio. Ansiedade pelo fato de querermos descobrir o que vem aí de novo, mas também algum receio por podermos ver as nossas expectativas eventualmente defraudadas com algum trabalho de menor qualidade. Felizmente, cremos estar em plena fase dourada do ranger, com a vinda de novos e grandes talentos do desenho, mas também e sobretudo novas abordagens, novos caminhos no desenvolvimento de aventuras, tornando a série eventualmente na mais rica e pujante da atualidade no panorama editorial da casa Bonelli.

Arte de Fabio Civitelli

Depois da retirada de Nizzi, que tem vindo a ser gradual, uma vez que a próxima aventura da série normal foi escrita ainda por ele para o desenho de Andrea Venturi e do maior relevo assumido por Mauro Boselli, os leitores testemunharam e apreciaram trabalhos de autores como Tito Faraci, Pasquale Ruju, Gino D’Antonio, regressando agora o pai de Mágico Vento, Gianfranco Manfredi, com o seu segundo trabalho para Tex.

Tex, Carson e a paisagem

Em Phoenix, no Arizona, diques, canais e rios são desviados do seu curso normal, deixando secos alguns campos em favor da grande cidade. Tex e Carson encontram-se por aquelas paragens e por isso vão defender os nativos e os agricultores locais das garras do poderoso Bill Lansdale, um especulador que de um bem público como a água tenta obter um negócio lucrativo.

Numa primeira apreciação ao trabalho de Manfredi, digamos que o autor bebe muito da influência de G. L. Bonelli, deixando pelo meio uma abordagem nizziana, dos seus velhos e bons tempos, convenhamos. A influência de G. L. Bonelli reside na escolha de um tema político que serve de crítica no seu argumento, porque tal como Bonelli aproveitou muitas aventuras texianas para deixar bem expressa a sua crítica e o seu modo de ver determinados aspectos do oeste americano (e do seu mundo), também Manfredi constrói aqui um argumento muito crítico, centrado na temática do grande proprietário que suga a seu bel prazer os recursos dos mais fracos, patenteando a sua superioridade em busca de qualquer lucro, seja material ou mesmo com o objectivo de uma carreira política. Alguém que corrompe, que ultrapassa a justiça e que manieta os seus homens como peões num jogo de estratégia.

No centro de tudo surge a questão da água, aliás um ponto importante e cada vez mais actual, surgindo Manfredi, tal como Bonelli, como um verdadeiro espectador atento do seu mundo, da suas realidades e das suas envolvências.

Trata-se de uma história reveladora de um contexto preciso, mas perfeitamente transposta para os nossos dias e que se vive sobretudo nas zonas mais áridas. A importância da água não se reduz ao velho oeste americano, ela está mesmo no centro da história dos homens e, por isso, Manfredi deixa aqui uma visão bem documentada, muitas vezes irónica, que acaba por se reflectir no próprio Tex, cuja conduta acaba por se revelar menos impulsiva que em Bonelli, para se assumir sarcástica e corrosiva que chega a divertir. Por outro lado, chamámos também Nizzi à liça, porque Manfredi traz-nos um argumento algo maniqueísta, onde cada lado está perfeitamente delineado, sem meio-termo, não privilegiando a espessura psicológica de Boselli, por exemplo.

O trabalho de Civitelli é como sempre inspirado. O seu traço limpo, muito seguro, extremamente preciso e detalhado faz as delícias dos leitores texianos. Realce o facto de nos parecer que nesta aventura o autor utilizou muitos grandes planos, sobretudo de Tex e Carson, revelando uma aptidão para desenhar os dois pards que importa sublinhar. Na verdade, Tex e Carson surgem com expressões espantosas, denotando um grande à vontade de Civitelli, um prazer mesmo, em desenhar ambas as personagens.

Por toda a aventura existem cenas de antologia, como a do banheiro, mas aquela que mais marca é certamente a da emboscada no pueblo, onde Civitelli se ultrapassa. E mais: parece que os anos não passam por Civitelli, não se notando qualquer decréscimo na qualidade do seu trabalho.

Não é uma grande aventura, mas mesmo assim um bom trabalho, que vem sublinhar a excelência da atual fase em Tex.


Uma amostra do trabalho impecável de Civitelli



matéria publicada originalmente no blog:
http://texwillerblog.com/wordpress/






JACK KIRBY
Parte da formação inicial de Jack Kirby aconteceu no estúdio Eisner & Iger. Em sua trajetória, formou junto com Joe Simon uma das parcerias artísticas mais importantes da Idade de Ouro dos Quadrinhos. Mais tarde, Kirby se transformou em um dos pilares da Marvel. Esta entrevista aconteceu em um quarto de hotel durante a convenção de quadrinhos de San Diego, em julho de 1982.


EISNER - Jack, você e eu começamos a trabalhar juntos no Eisner & Iger... em 1937 ou 38, não? Vamos falar dos momentos antecedentes e depois partimos apara a sua maneira de trabalhar e sua filosofia, de acordo?

JACK KIRBY MASTERWORKS
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?matmmmzdyio


KIRBY - Perfeito. Comecei a pensar seriamente em entrar para o mundo dos quadrinhos quando estive trabalhando no Eisner & Iger, porque ali as pessoas eram sérias. Acreditavam que era uma profissão valiosa. Minha formação até este momento era limitada. Eu era o que se chamava um "menino da rua".


JACK KIRBY QUARTELY #10
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?tjz2olggw2m


E - Sim, poderia te chamar assim. Naquela época não havia muitos desenhistas de quadrinhos com experiência. Eu contratava qualquer um que soubesse desenhar. Trabalhou em algum outro lugar antes de trabalhar conosco?


JACK KIRBY QUARTELY #12
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?eyzzk1dgmwj


K - Bem, trabalhei para Max Fleischer. Eu tinha 17 anos e trabalhava como "intervalista". Meu espaço de trabalho era uma fila de mesas de 200 metros. Era como uma fábrica. Eu comecei a ver o estúdio como uma fábrica textil. Associava a fábrica textil com o meu pai e eu não queria trabalhar com ele. Gostava de ser eu mesmo. Acredito que a segunda geração Vê as coisas diferentes da primeira. As pessoas da geração de meu pai trabalhavam em galpões com longas fileiras de máquinas e produziam peças de roupas. Esse era o trabalho do meu pai.



E - Agora entendo porque você queria fugir e ser você mesmo.

K - Não queria acabar assim e queria sair do gueto. Nasci na parte baixa de Manhattan, na rua Essex, e me criei na rua Suffolk...

E - Conheço bem a região porque nasci no bairro de Williams Bridge, não muito longe dalí.





K - Sim, isto ficava na zona Este, o território de John Garfield...


E - Bem, era o John Garfield do mundo dos quadrinhos (risos).

K - ...o território de Edward G. Robinson. Eu me refugiava nos filmes. Não era o melhor lugar para se viver. Havia gente demais e não tínhamos nenhum lugar onde pudéssemos jogar futebol. Desde pequeno você se tornava um toureiro, desviando dos carros nas ruas. E as férias não eram nada do outro mundo; normalmente eu as passava em uma escada de incêndio.



DINGBATS OF DANGER STREET
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?5d5jmzzdmow


E - Acho que nossas infâncias foram muito parecidas. Mas a "cidade profunda" nos deixou marcas diferentes. Creio que em você deixou revolta. Uma vez me disse que foi um "menino nervoso, violento e cruel". Acho que vejo essa etapa da minha vida com um pouco mais de distância... inclusive com tolerância.



K - Pode ser que eu fosse mais suscetível. Eu não gostava do gueto, me dava medo e sei de pessoas lá que sentiam o mesmo. Não sei se o que o gueto te deixa é uma cicatriz ou uma experiência, mas de qualquer forma é para a vida toda.

E - Eu acho que é uma experiência.

K - Olhando minha posição atual, estou de acordo.



E - Acredito que afeta sua forma de ver as coisas, porque ficam na memória como uma marca de referência.


THE JACK KIRBY COLLECTOR #16
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?ylzadjnizzn


K - Para mim foi um impulso que me fez sair dali. Fez com que eu tivesse um medo tão imaturo que eu me imaginava num mundo de fantasia que era mais real que o que me rodeava.

THE JACK KIRBY COLLECTOR #25
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?gzgg2gozyhc


E - Ainda assim, não acha que é muito simples considerar que unicamente essa época afetou seu trabalho? Você era consciente de que talvez a raiva e o tipo de força perceptível em sua obra são reflexos desses meios?



THE JACK KIRBY COLLECTOR #26
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?dm2wq1mmnmz


K - Sim, a raiva pode salvar a sua vida, porque te dá impulso para que possa mudá-la de alguma maneira. Acho que os gangsters tem esse mesmo impulso, só que em outra direção. Eu não podia desonrar os meus pais, porque eu os amava, e não faria nada que os magoassem. Então, quando Fleischer mudou os estúdios para a Flórida, meu pai não quis me deixar ir (risos).




E - Minha mãe não queria que eu me envolvesse como mundo do teatro, nem que eu ficasse por aí fazendo bolos, porque dizia que era uma coisa terrível. (risos)




K - Eu queria ir para a Califórnia, para Hollywood. Meu sonho era me tornar ator, mas minha mãe não queria que eu fosse. A depressão estava em seu pior momento e todo dinheiro que eu pudesse levar para casa era importante. Minha mãe tinha medo que eu perdesse o contato e para ela o dinheiro era importante. Qualquer valor que eu levasse para casa já ajudava a comprar comida.


THE JACK KIRBY COLLECTOR #29
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?r1yzjmokz5d


E - Naquela época, todos os membros da família tinham que ajudar em algo. Portanto, todos nós tivemos que sair e trabalhar. Eu vendia jornais, e com os poucos trocados que eu levava para casa podíamos preparar uma mesa decente. (risos)


THE JACK KIRBY COLLECTOR #30
(em inglês)

http://www.mediafire.com/download.php?jeiyzmz4zmy


K - Quando íamos recolher os jornais do caminhão no edifício, sempre acabava pisoteado. (risos)


E - Eu tinha uma pequena banca na Wall Street e vendia jornais...


K - Eu também vendia jornais.


E - Eu ganhava três dólares e meio por semana na banca, e isso era muito dinheiro em 1934.


K - Você tem mais paciência para essas coisas; você sempre foi mais maduro que eu.

E - Bem, voltemos ao seu começo no Eisner & Iger. Do que você se lembra?


FANTASTIC FOUR
LA AVENTURA PERDIDA
(em espanhol)
http://www.mediafire.com/download.php?5utgminlwqc


K - Me lembro que eu os admirava muito, a você e Jerry Iger, porque admiro qualquer um que seja um profissional competente. Admiro as pessoas que sabem o que faz. Sempre fazia tudo o que me diziam, porque tinha a sensação de estar aprendendo algo, e queria ser tão bom como vocês para não ter que voltar ao gueto. Se naquela época você me dissesse para ir para a Rússia, eu teria ido.


BIBLIOTECA MARVEL #16
CAPITÁN AMERICA
(em espanhol)
http://www.mediafire.com/download.php?zl5tzztytod


E - Nos dávamos muito bem: Lou Fine, você e eu. Tinha a sensação de que o estúdio dependia de nós. Sempre trabalhávamos estupendamente os três juntos.


K - Sempre senti que você era uma pessoa com a qual se podia aprender muito. Fosse como fosse nossa relação, para mim foi um processo de aprendizagem.


E - Para um melhor entendimento e para que conste na ata, quero deixar claro que não paguei Jack para dizer isto. (risos)



THE JACK KIRBY COLLECTOR #41
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?lfaymd3z2mu


K - Não, eu não estou sendo sentimental. Uma vez fui ferido em combate e me deparei com as tropas da SS. Eram profissionais competentes e estive conversando com eles. Depois pensei que se sobrevivesse, teria que ser como eles. Naquele momento eu não era. Eram profissionais em combate e percebi que nunca poderia vencê-los a menos que fosse como eles.


E - Fascinante.


K - O mais interessante é que eu queria ser como um Will Eisner ou Jerry Iger.

E - Você pensava isso mesmo?


BIBLIOTECA MARVEL
LOS VENGADORES #2
(em espanhol)
http://www.mediafire.com/download.php?knlmdttwtzy


K - Sim. Sabia que meus conhecimentos eram limitados e que podia alcançar qualquer objetivo que me colocasse em contato com pessoas como Jerry e você, porque conhecia a disciplina e o seu trabalho, e isso era o que queria. Queria conhecer meu trabalho.


BIBLIOTECA MARVEL
SHIELD #1
(em espanhol)
http://www.mediafire.com/download.php?o3ejkzfj5i5


E - Você se lembra de como era o estúdio quando você esteve lá? Eu me lembro, mas cada um de nós tem lembranças diferentes.


K - Sim, me lembro.


E - Era uma sala grande e havia uma fila de pranchetas de desenho ao lado da parede. Você trabalhava perto da parede, a direita da entrada.


K - Não me lembro se tinha um escritório ou uma mesa...


THE JACK KIRBY COLLECTOR #45
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?owtm2gtzyzn


E - Uma prancheta de desenho. Eu me sentava de um lado e os outros estavam sentados no meio da sala. Lembro-me que você ficava a minha direita. Desenhava a lápis em um papel com balões já escritos, não era?


K - Me lembro de todos que estavam ali. Nos dávamos muito bem e trocávamos roteiros e outras coisas. Nunca fomos lá por farra. sabíamos que tínhamos trabalhos a fazer e acho que esse sentimento estava estendido entre os jovens novaiorquinos.


E - Naquela época você tentou se aproximar de Lou Fine?


K - Nunca tentei me aproximar de ninguém. Nem mesmo durante a longa temporada que fui sócio de Joe Simon, não éramos... não sei... como Tom Swift.


E - Ou Sieger e Shuster...


K - Ou Siegel e Shuster, efetivamente. Acho que éramos profissionais, não apenas sócios de trabalho, mas sim profissionais que dividíamos as coisas que se tornavam um produto vendável. Fabricávamos produtos de muito valor. E vendiam muito bem.


E - Sim, vendiam muito!


K - Nossa relação era profissional. Mas também éramos amigos, mas éramos de ambientes diferentes. Joe era de uma família de classe média, e até então eu não havia conhecido ninguém dessa classe social. Admirava o seu pai porque parecia um político, e no meu bairro os políticos tinham muita influência. Compravam o voto das pessoas por cinco dólares. Me lembro de um que foi até meu pai e lhe ofereceu cinco dólares para votar nos Democratas (risos). Nessa semana eu tive uma aula de educação cívica e haviam dito que isso era errado, assim eu coloquei o sujeito para correr (risos). Achava que estava corrompendo o meu pai. Três das influências mais importantes no meu desenho daquela época foram Terry e os Piratas, de Caniff, Flash Gordon de Raymond e Principe Valente de Foster.



THE JACK KIRBY COLLECTOR #50
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?dryoz3ztdit


E - Me lembro de ter visto isso várias vezes na casa onde vivíamos.


K - Éramos novatos tentando descobrir onde estávamos.

E - Naquela época tinha alguma experiência em animação, mas já era um desenhista muito bom. Me lembro que coloquei você para trabalhar em O Conde de Montecristo.


K - A verdade é que trabalhei arduamente para Jerry e você. Trabalhei muito não só pra mim mesmo mas também porque tinha a necessidade de produzir uma boa revista para você.




E - Me lembro que você era muito sério.Falemos sobre estilo e técnica. Quando desenhava naquela época, estudava por conta própria, por exemplo, com livros de anatomia? Você chegou a frequentar alguma escola de desenho?


K - Fui um dia a um lugar que se chamava Aliança Educativa. Me chamaram a atenção por desenhar muito rápido (risos).




E - Sinto te interromper, mas quando você chegou ao nosso estúdio, você desenhava muito bem. Tinha um estilo muito pessoal. Se fecho os olhos ainda posso ver seus trabalhos daquela época. Era muito racional.


K - Acredite, para mim era um processo angustioso.




E - É mesmo? Mas você trabalhava muito rápido. Estudava em algum livro de anatomia?


K - Não, não. Eu o fazia usando a lógica. Acho que sou um cara que conhece bem as pessoas e gosto. Gosto de conhecer o caráter das pessoas. Eu conhecia os gangsters e os policiais.
Muito bem. Entendia as pessoas, mas estou falando de sua habilidade com os mecanismos de desenho. Me lembro que me sentia um principiante... como você diz, todos nós preocupávamos em aprender o ofício. Você teve algum tipo de educação acadêmica? Você se lembra dos materiais com os quais trabalhava?



K - Sim, usava especialmente os filmes. Acho que me criei com Henry Warner (risos). Eu assistia cada filme umas sete vezes e minha mãe tinha que me tirar do cinema. Acho que aquelas imagens deixavam uma tal impressão em mim que eu precisava reproduzí-las e tentei fazer isto fielmente.

E - Lembro-me que você trabalhava com pena e mais tarde começou a usar pincel. Lembro-me de suas pinceladas definidas na época em que trabalhava no Eisner & Iger, mas me lembro de você usando pena durante um tempo. Você copiou a técnica de alguém do estúdio?




K - Naquela época eu não queria me transformar em um Leonardo da Vinci. Não queria ser um grande artista, mas eu gostava muito dos quadrinhos e queria ser melhor que qualquer outro.


E - Então você estudou o material de outros, como por exemplo o de Caniff...


K - Me fixava em Hal Foster e me encantava com a fluidez de Alex Raymond. Seus corpos tinham uma naturalidade que me encantava. Gostava também do sombreado de Caniff. Não engolia toda a técnica. Até certo ponto eu me apropriava do que me interessava, e eles foram a minha escola. Hoje em dia continuo pensando que cada homem é a escola do outro. Há coisas que aprendi com você e ainda continuo usando.



OMAC #6
(em inglês)

E - Todos temos coisas dos outros. Sua presença no estúdio influênciou tanto a mim como os outros. Você possui um dinamismo palpável em sua obra.


K - Pois te garanto que tudo é resultado do medo.

E - Isso que você disse é muito importante. Não sou psicólogo, mas isto se trata de um elemento compreensível da motivação.




K - Era medo do fracasso, de ficar para trás e ser medíocre. De modo algum eu queria ficar em segundo plano.

E - Bem, continuemos. Você deixou o Eisner & Iger depois de um ano e pouco, não? Não me lembro quais foram os motivos de sua partida, mas sei que foi amistosa. Você foi para o Fox...


K - Comecei a trabalhar para Victor Fox, só que eu não o respeitava como profissional e sim como chefe. As vezes eu o achava um cara incrível (risos).



WHERE CREATURES ROAM #1
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?o45ynydlih1



E - Fox não te lembra Edward G. Robinson?


K - Era Edward G. Robinson! Me lembro que ele andava de um lugar para o outro, olhando os desenhos como se fosse um falcão e dizia: "Sou o Rei dos Quadrinhos" (risos). Todo mundo olhava para ele. A verdade é que ele sempre nos dava uma alegria porque fazia com que o trabalho fosse divertido. Era um personagem no mais puro sentido da palavra.



WHERE CREATURES ROAM #3
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?e4mkk3311zz


E - Você nunca teve a impressão de que era um personagem tirado de uma história em quadrinhos?


K - Não, nunca.


E - Estava sempre envolvido em negócios. Chegou ao mercado editorial através da Wall Street, trabalhou como contador para Donenfeld, acho, e logo montou sua empresa. Aprendi muito de negócios ao trabalhar com ele.


WHERE CREATURES ROAM #4
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?nzmnmztiy5j


K - A verdade é que foi no Esner & Iger onde tive meu primeiro contato com o mundo dos negócios, que até aquele momento era um território desconhecido para mim. Lembro que Jerry e você eram pessoas eficientes e metódicos que sabiam o que faziam, e era uma coisa que eu admirava. Este foi o meu primeiro contato com os negócios de verdade.


E - Mas no que se refere ao seu talento criativo, artístico e técnico, a maior parte vem de observar outras pessoas e não teve nenhuma formação estruturada ou formal, não é mesmo?


K - Os modelos que eu tinha eram as pessoas que eu conhecia.



WHERE CREATURES ROAM #5
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?mnko2z1twdx


E - Alguma vez você considerou os quadrinhos como um gênero artístico, como pode ser a literatura, ou para você era apenas uma maneira de ganhar a vida?


K - Era um ofício, uma maneira de ganhar a vida. Mesmo amando os meus pais, chegou um momento em que eu não fazia mais as coisas como eles queriam. Sabemos que somos o que somos. Simplesmente fazemos as coisas como queremos fazer. Cada um tem que fazer aquilo que quer. É uma das razões pela qual acredito nas pessoas, porque acho que cada um é especial - você não tem que se submeter às idéias de ninguém, mas sim combinar as suas com as deles. Devemos observar os erros e acertos dos outros e aprender com eles.


E - Então você aprendeu muito imitando, não é mesmo?



WHERE CREATURES ROAM #6
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?5igfm5jxtgk


K - Sim, aprendi muito assim, e acho que todos nós fazemos a mesma coisa. Sinto dizer isto de uma forma tão sincera, mas de certo modo somos como os macacos.


E - Uma idéia muito interessante.


K - Observamos o que os outros fazem, todos queremos ser o líder do grupo. Pra mim esse é o nosso principal impulso. Se dirigimos um estúdio, queremos que ele seja o melhor. Se desenhamos, temos que fazê-lo melhor que o outro. As palavras não tem efeito sobre nós, somente sobre as pessoas que estão em um estado de sonolência ou de medo.


E - Então o que faz efeito? O que nos impulsiona realmente?



WHERE CREATURES ROAM #7
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?yimjjwwrhor


K - O comportamento. Fazer coisas ou tentar fazê-las. Tomar decisões porque tem o esquema do roteiro nas mãos e não vai se desviar dele.


E - Nisso você tem razão. Toma decisões enquanto faz os desenhos.


K - Enquanto está rascunhando, se não gosta do resultado, muda de decisão e se transforma em um profissional por sí mesmo. Ninguém pode tomar decisões por você: você é quem tem que tomá-las. Partimos de um modelo que existe dentro de nós. As vezes as pessoas falam de dedicação, mas não acredito nela. Acredito no impulso, um impulso completamente animal que te faz conseguir aquilo que almeja, e não acho que seja uma coisa ruim.

E - Você vê como uma maneira de realização pessoal. Então, quando estava com Victor Fox, ou inclusive no Eisner & Iger, seu impulso era ser o chefe da manada, e mais em concreto, não tinha que salvar o planeta e não tinha que transmitrir nenhuma mensagem, pelo menos por enquanto.



WHERE CREATURES ROAM #8
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?mx02miqgtjm


K - Hoje em dia estou no mundo dos espetáculos. Sou um ator e tento ser o melhor, dentro de minhas possibilidades.


E - Então você é assim. Não precisa de um veículo para dizer algo ao mundo ou para mim.


K - Não tenho nada para o mundo porque tudo que eu possa dizer será inútil. Se tivesse uma mensagem, diria: "Façam o que quiserem, não causem prejuízos para ninguém pelo caminho e sejam os mais positivos possível."



WHERE CREATURES ROAM #2
(em inglês)
http://www.mediafire.com/download.php?tlzn2ejwmnn


E - Então, o impulso principal é melhorar sua técnica de forma parecida a de como fazem os atletas. Te parece uma boa comparação?


K - Sim, os atletas fazem o mesmo, as pessoas do espetáculo também. Os desenhistas criam estilo. Sou capaz de distinguir um desenho de Will Eisner a duzentos metros. Considero você uma pessoa muito valiosa porque é único.
E - Você também é único!

K - Pode ser que eu seja único no mesmo sentido e se for assim, estarei orgulhoso.



Capa de um exemplar da "Young Romance", de Kirby e Simon

E - Bem, a verdade é que não sou consciente de sê-lo. Modestia à parte, já que não a podemos permitir, só os ricos podem (risos).


K - Exato! Acho que é por isso que todo mundo gostava de Kennedy, porque era rico e queria ser como todo mundo, conseguiu e por isso encantava a todos.


E - Nunca tinha pensando desta maneira. O que quero dizer é que não podemos evitar, se somos conscientes de nossa posição na comunidade dos quadrinhos. Só tem que escutar uma conversa; por exemplo, conheca alguns admiradores e ouça como eles te elogiam descaradamente. É fácil concordar com algumas coisas que eles falam (risos).



K - Garanto que estou completamente de acordo com eles. (gargalhadas)


E - Bem, Jack, você continua tendo senso de humor.

K - Sei de sobra que continuo trabalhando muito e continuo tentando agradar a todos.

E - Onde quero chegar é que nós dois somos conscientes de que podemos deixar alguma coisa pra muita gente. Tomara! Pode ser que a gente influencie alguém. Os estudantes sempre utilizam a palavra "influência" de uma forma muito vaga. Para mim significa abrir novas possibilidades para o meio.


K - Discordo. Não acho ter influenciado ninguém.


E - Mas você é um modelo a ser seguido por alguém. Não sei para que, mas somos... para alguém. devemos ser.


K - Somos um bom modelo a ser seguido. Dito de outra forma: podemos andar pelas ruas sem que ninguém saiba quem somos. Quando vivia na zona Este de Nova York, eu passeava pelas ruas durante anos no mais completo anonimato. E eu não queria isso.


E - Está me dizendo que a diferença entre o Jack Kirby que vivia na zona Este de Nova York e o de hoje em dia é que o atual é conhecido e o outro não? Eu não entendo.



K - O que estou dizendo é que hoje em dia conheço as pessoas o suficiente para receber uma resposta, mas naquela época, quando era menor, todo mundo passava por mim.


E - Então o que faz é atuar. Acho que todos atuamos. Os empresários atuam porque são manipuladores e seu trabalho consiste em manipular. Querem conseguir o posto de executivos que lhes interessa a todo custo, e não se livrando de quem o possui de forma sútil.


E - Defina-me "atual". É o fato de desenhar? Onde reside a atuação no seu caso?


K - No meu caso reside na sinceridade, em buscar o elemento que fará que alguém me responda. Normalmente o trabalho com temas de ficção-científica, mas as vezes assino outros temas. Lembro-me que Joe e eu fomos os primeiros a criar revistas em quadrinhos de romance.


E - Certo. Joe e você trabalhando em uma história romantica.


K - Naquela aépoca trabalhávamos para a McFadden Publications. McFadden tinha uma linha de quadrinhos e um dos títulos criados foi uma série chamada My Date. De repente me ocorreu que McFadden era o maior produtor de literatura romantica do mundo e que ganhava milhões com isso, e que ambos trabalhávamos na empresa. Mas não havia histórias em quadrinhos de romance. My Date foi o prelúdio de tudo.


E - Foi o primeiro, se não me falha a memória.


K - Os primeiros quadrinhos romanticos são resultados daquela conversa. As idéias surgem de discussões. Naquela época, os gêneros com mais sucesso eram os de crime, western e os romances.



BIBLIOTECA MARVEL

E - Bem, naquela série, e isto é muito importante, o que você fazia e o que Joe fazia?


K - Joe me ajudava.


E - Quem escrewvia o roteiro, Joe ou você, ou escreviam juntos?


K - As vezes juntos, mas quase sempre era eu quem escrevia.


E - Os diálogos também?


K - Roteiro e diálogo.


E - Então não era Joe, mas sim você que escrevia a maioria dos roteiros.


K - Joe se dedicava aos relacionamentos com os editores. Ele media um metro e noventa e eu um metro e sessenta. Os editores nem me olhavam, mas eu não me magoava. Sabia que não me levariam a sério. Joe era muito visível como seu tamanho e além disso havia sido repórter do Syracuse Journal. Eu o admirava muito. Eu o admirava por ter concluído a faculdade e por mostrar como era ser de uma família de classe média. Era um tipo completamente diferente e era o modelo a ser seguido por mim para mudar o meu caráter.

E - Um paralelo muito interessante, salvo que em minha sociedade com Jerry Iger os papéis estavam invertidos. As razões pelas quais me associei com Jerry foi porque era um bom negociante e eu era timido, mas me dava bem em preparar os produtos e dirigir o estúdio. Jerry não ajudava nem um momento em chamar um editor. Ele era treze anos mais velho que eu.



BIBLIOTECA MARVEL
LOS ETERNOS #2
(em espanhol)
http://www.mediafire.com/download.php?mltyhznyzmm


K - Tinha a perspicácia necessária para os negócios. Sabia fazer as coisas para o que desejava.


E - Sim, sabia conseguir clientes. Voltemos aos quadrinhos de romance. Você escrevia e Joe os vendia. Mas Joe também desenhava um pouco.


K - Era um desenhista muito bom, e um dos melhores diagramador que conheci. Fez alguns dos melhores anuncios de toda história.


E - Ainda trabalha em publicidade.

K - Para mim sempre será o melhor porque é um profissional competente.


E - Tente explicar passo-a-passo a história dos quadrinhos romanticos.

K - Certo. Joe e eu começamos a desenvolver a idéia juntos.


E - Então comentavam idéias, como por exemplo: "Vamos fazer uma história que seja assim... um rapaz conhece uma moça, a moça conhece o rapaz..."


K - Não necessariamente. Eu falava: "Vamos fazer uma história sobre isto", e ele fazia a mesma coisa. A Joe o que importava era conseguir um bom produto. Sabia que eu podia escrevê-lo e acho que ele sabia por instinto que sua função era manter boas relações com os editores. Conhecia bem Martin Goodman e a todos editores do ramo. Quando cheguei a Fox, Joe era coordenador e era um posto que eu não podia desejar.

BIBLIOTECA MARVEL

E - Então falavam sobre o roteiro e logo você começava a escrevê-lo. Também fazia os balões e escrevia os diálogos.

K - Acho que eu tenho um dom natural para escrever roteiros dramáticos e de humor. Escrevo sátiras. Faço imitações como os macacos.


E - O que você fazia para elaborar seus trabalhos? Você desenhava a lápis e Joe arte-finalizava?


K - Sim, Joe arte-finalizava e fazia as letras.


E - Você escrevia o roteiro, preparava os diálogos, fazia os balões e em seguida o trabalho a lápis. Fazia os balões antes dos desenhos a lápis?


K - Sim.

E - Foi isso que te ensinei quando esteve no Eisner & Iger! (risos)


K - É o que tenho feito sempre desde então.

E - Era uma coisa que eu perguntava a mim mesmo, se estava fazendo ou não. (risos)


K - Nunca me afasto de um modelo. Funciona com todo mundo. Acho que é assim que começa tudo.


E - Mas mudou mais tarde quando estava na Marvel com Stan Lee, mais tarde falaremos disso. Quero ter uma idéia dessa operação. Preparava um esboço da ação, em seguida os balões e mais tarde começava o trabalho a lápis. Me lembro que seus lápis eram bem definidos. Pelo menos no meu estúdio eram bem definidos o suficiente para que qualquer pessoa capacitada pudesse arte-finalizá-lo.


K - Meus lápis são minunciosos.

E - Bem, depois Joe arte-finalizava.

K - Exato.


E - E para não perder o rítimo ia preparando a lápis outro roteiro enquanto ele fazia a arte final do primeiro, suponho.


K - Exato. E assim trabalhávamos muito rápido. Uma vez, quando trabalhávamos para a DC, nos enviaram um roteiro e o fizemos voando.


2001 LA ODISEA DEL ESPACIO #1
(em espanhol)
http://www.mediafire.com/download.php?iywmmndymwm


E - É mesmo? Que bom!


K - Isso nos fez ganhar amigos, mas nessa mesma tarde já havíamos acabado com o roteiro. Passamos a ser conhecidos como os homens mais rápidos do ramo porque sabíamos como preparar o produto mais rápido que qualquer um.


2001 LA ODISEA DEL ESPACIO #2
(em espanhol)

E - Há pouco tempo estava conversando com Joe Simon sobre isso em uma entrevista. Há poucas duplas como vocês. Me lembro apenas de Siegel e Shuster. Vocês fazem parte da história dos quadrinhos. Não estou falando isto só para te puxar o saco...



2001 LA ODISEA DEL ESPACIO #3
(em espanhol)
http://www.mediafire.com/download.php?or2xnyzt1oz


K - Não, eu não me importo. De fato, admiro pessoas rápidas.


E - Bem, voltemos ao nosso assunto, porque não quero perder o rítimo. A sociedade se transformou em uma equipe que teve grande impacto no mercado. Durante este processo, realizaram um produto que tinha identidade própria.


2001 LA ODISEA DEL ESPACIO #4

K - Sim, tinha um estilo.


E - Então está consciente da identidade e do caráter próprio do produto de seus esforços conjuntos. Sei que é difícil ver a sí próprio com perspectiva, mas se comparar com o trabalho de outros, verá as provas.


K - Tem razão.


2001 LA ODISEA DEL ESPACIO #5
(em espanhol)
http://www.mediafire.com/download.php?mi4wnikg4tj


E - Você acha que Joe mudou seu estilo de desenho para se adaptar ao seu trabalho a lápis, ou alguma vez você observou que você fez mudanças em seus lápis para se ajustar ao estilo dele?


K - Joe nunca teve tempo para fazer mudanças.

E - A verdade é que naquela época éramos como fábricas.



2001 LA ODISEA DEL ESPACIO #6
(em espanhol)

K - Éramos fábricas e trabalhávamos sem parar porque era preciso publicar constantemente. Vendiam muito bem, principalmente os nossos.


E - Segundo Joe, vocês eram o número dois ou três do mercado.


K - Logo em seguida, quando apareceram os super-heróis. Nossos primeiros super-heróis eram míticos.



2001 LA ODISEA DEL ESPACIO #7
(em espanhol)
http://www.mediafire.com/download.php?2wezmj5z23m


E - Qual foi seu primeiro super-herói?


K - O Capitão América.


E - E para quem você o fez?


K - Para a Atlas, de Martin Goodman.


E - Martin Goodman. O famoso Martin Goodman?



2001 UNA ODISEA DEL ESPACIO #8
(em espanhol)
http://www.mediafire.com/download.php?2mwtl5jzw1y


K - Sim. A Atlas ainda não havia se transformado em Marvel. Stan Lee nem sequer havia aparecido em cena. Ele era muito jovem. Lembro-me que se sentava em meu escritório, começava a tocar a flauta e não me deixava trabalhar.


2001 UNA ODISEA DEL ESPACIO #9
(em espanhol)
http://www.mediafire.com/download.php?yommzzmjemz


E - É mesmo? Joe Simon disse que o contratou quando era um menino.


K - Sim, no escritório ainda era um menino. Lembro que eu levava o meu trabalho a sério, mas ele não. Não acho que isto seja uma coisa ruim, afinal de contas todos os jovens fazem o mesmo.


(...continua em próximo post...)

2001 UNA ODISEA DEL ESPACIO #10
(em espanhol)
http://www.mediafire.com/download.php?mzmonv5zh5j