BEIJOS NOS QUADRINHOS
SÃO TEMA DE "SMACK!",
DE GONÇALO JUNIOR
No mês em que se comemora o Dia dos Namorados, o lançamento "Smack! O Beijo nos Quadrinhos", da Editora Centopeia, traz uma compilação gráfica do tema ao longo da história dos quadrinhos. Mas engana-se quem pensa que o jornalista e escritor Gonçalo Junior concebeu a obra para servir de "livrinho fofinho para dar de presente ao namorado ou namorada", segundo palavras do próprio autor, em entrevista ao UOL. "Claro que cumpre bem essa função. Mas esta lá: com o beijo, mapeio a censura nos quadrinhos em boa parte do mundo e como o beijo se tornou subversivo no sentido de confrontar a moral e a censura e tornar os quadrinhos mais humanos e emocionantes", adverte.
Mais que uma seleção de capas e cenas, o livro traça um paralelo entre o aparecimento dos toques labiais na narrativa sequencial e a queda da censura, que reprimiu a manifestação até o fim dos anos de 1930. "A minha intenção foi tratar do aspecto moral: por décadas, a censura proibiu ou coibiu o beijo nos quadrinhos. E esse simples gesto se transformou num elemento libertário. O beijo abriu tudo para que os autores de quadrinhos tivessem mais liberdade", disse Gonçalo Jr.
No livro descobrimos que o papel de romper com este tabu da ausência de beijos caberia aos primeiros heróis de aventuras --como O Fantasma e The Spirit. Depois, vieram as revistas românticas para meninas dos anos de 1940 e 1950, e, por fim, a contracultura (anos 1960), personificada em heroínas como Barbarella e Valentina e o underground de Robert Crumb.
Para "didatizar" o tema, o jornalista e escritor Gonçalo Junior dividiu as diversas formas de beijar --das mais puras às tremendamente "sexuais"-- em onze tópicos, que encabeçam cada um dos capítulos do livro. As cenas são mostradas com legendas, que contextualizam os momentos apresentados. Há os beijos liberados, puros, de paixão, orientais --alusivos aos mangás, os quadrinhos japoneses--, heroicos, poderosos, adultos, irreverentes, assustadores, excitantes e proibidos; fora os cerca de duzentos excluídos da publicação por falta de espaço.
Curiosidades
Interessante é a observação feita pelo autor logo na introdução do livro. Ao longo de um ano de garimpagem das mais de oitocentas imagens, ele constatou que a quase totalidade dos beijos é de boca com boca. Ou seja, nos gibis, do abraço se vai logo ao beijo na boca.
Entre o farto material coletado, há inúmeras curiosidades e fatos inusitados, que servem para refrescar ou atualizar a memória de todas as idades. "Smack!" traz, por exemplo, o único beijo em vida da "porra-louca" Rê Bordosa, de Angeli--pelo menos que se tem notícia. Tem também o beijo gay da inseparável dupla Batman e Robin e muitas cenas picantes de orgia nos traços de Carlos Zéfiro, o "mestre dos catecismos", e de Rodval Mathias. Até os mangás pornôs japoneses, que são proibidos nos Estados Unidos mas publicados no Brasil há mais de uma década, mereceram destaque. Mas o beijo mais emblemático, segundo o próprio autor, foi o de Mônica e Cebolinha na atual série "Turma da Mônica Jovem": "Gerações de brasileiros imaginaram que isso iria acontecer e tiveram de esperar muito tempo para isso. Felizmente, esse dia chegou. Sinceramente, é uma cena emocionante pela carga histórica e afetiva que tem na memória de todos nós que crescemos a partir da década de 1970 lendo a 'Turma da Mônica'", comenta.
"E qual casal mereceria um 'flashback'?", pergunto a Gonçalo. "Trinta anos depois de ler a história em que Gwen Stacy, namorada do Homem-Aranha, é assassinada pelo Duente Verde, ainda não me recuperei dessa tragédia. Acho que é um dos momentos mais tristes dos quadrinhos. Não verei outro beijo entre os dois nunca mais", fala.
O livro foi feito sob encomenda para a loja paulistana especializada Comix (Alameda Jaú, 1.998, São Paulo-SP. Inf.: 0/xx/11/3088-9116 e site www.comix.com.br ). A proposta não é vender a obra, mas distribui-la aos clientes que fizerem compras de R$ 150 na loja, de uma só vez ou acumuladas ao longo de junho. Foram impressos mil exemplares.









