sexta-feira, setembro 17, 2010

ENTREVISTA COM JACK KIRBY - PARTE 2


EISNER (E) - Voltemos ao Capitão América. Outra vez a mesma fórmula e o mesmo modus operandi. Você escrevia e Joe arte-finalizava, te apoiava e fazia os balões. Alguma vez ele fez o lápis e você a arte-final?


KIRBY (K) - Não, nunca.


SUPERMAN'S PAL JIMMY OLSEN #133
(em espanhol)
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E - Ok, eu só queria ter certeza.


K - Eu arte-finalizava esporádicamente. Eu fazia isto quando achava que era necessário. Joe nunca me impediu. As vezes pode até ser que não tenha ficado suficientemente detalhado.


SUPERMAN'S PAL JIMMY OLSEN #135
(em espanhol)
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E - A relação de vocês era mais comercial do que afetiva, não?

K - Exato.



E - Não havia muita reflexão intelectual nem introspecção no que faziam.


K - Não podia haver, porque Joe normalmente não tinha se relacionado antes com alguém como eu, e eu não encontrava ninguém para me relacionar (risos). Era exatamente assim. Sério, se eu tivesse um metro e noventa nunca me envolveria com m rapaz da rua que media um metro e sessenta. E se eu estivesse no sexto ano, jamais me juntaria com um cara que estivesse no segundo.




E - Fico feliz por você não ser o meu irmão mais velho, porque teria sido muito difícil. Tenho certeza de que você teria sempre se esquivado de mim (risos).


K - Seja como for, encontramos o que precisávamos e acho que foi genial.



E - Joe me contou que em Long Island vocês moravam próximos.


K - Ah, bom, na verdade estou falando do início. Mais tarde nos aproximamos mais. Comecei a pensar em mim mesmo e a analisar não só as relações, mas também os produtos e inclusive a mim mesmo.


SUPERMAN'S PAL JIMMY OLSEN #133
(em inglês)
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E - Essa é uma parte muito importante do que eu tentava demonstrar quando falava do "intercambio intelectual". Iger e eu tínhamos muito pouco. Tínhamos idades e filosofias diferentes. Inclusive nossos objetivos eram diferentes. Ele só pensava no negócio! Não havia possibilidade alguma de intelectualizar. Mais tarde, quando chegaram os desenhistas no estúdio, como por exemplo Lou Fine, já podia analisar a situação um pouco mais. Ele era meu colega e podíamos nos falar. Daí vem a expansão mental que aparece ultimamente em minha obra. É uma espécie de abordagem ao produto de sensibilidades elevadas. Você tenta se mostrar um cara duro, Jack, mas não parece ser... pode ser que dentro de você esxista um cara doce que está tentando sair (risos).


K - Eu era um tipo duro. Poderia ter ido pelo caminho errado quando era jovem. Acho que o que me mudou foi um amigo meu que foi baleado. Seu pai chegou a gastar todo o dinheiro em jogos, sua mãe suicidou. Ví quando ela pulou do prédio.

SUPERMAN'S PAL JIMMY OLSEN #134
(em inglês)
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E - Que horrível. Essas coisas deixam marcas. Voltemos ao seu trabalho no Capitão América e no mesmo modelo de antes... você escrevia e fazia os trabalhos a lápis, e Joe arte-finalizava, fazia as letras e mantinha os contatos com os clientes.


K - Sim, mas do que não fazíamos idéia é de que estávamos fazendo uma versão moderna do Tio Sam. Já não vestia casaca e nem usava barba. Agora era um super acróbata que podia enfrentar dez inimigos.



E - Gil Kane chama isto de "violência lírica". Você concorda?


K - Sim, se parece com violência lírica. Creio que há beleza na violência, mas também acho que tem muita coisa feia. Tenho praticado boxe por toda minha vida e nunca usei golpes sujos. Tento lutar e ganhar de maneira limpa.


E - Quando os seus heróis lutam, o fazem da sua maneira, não?


K - Sim. Eu pensava que se tinha que lutar contra dez caras, eu encontraria uma maneira de fazê-lo.

SUPERMAN'S PAL JIMMY OLSEN #136
(em inglês)

E - Quero voltar ao tema das páginas. Você era consciente da composição das páginas? Você utilizava alguma fórmula ou teoria naquela época? É que seu material começou a ser muito diferente. No meu estúdio fazíamos as composições de páginas segundo a tendência do roteiro, mas aqui você fala de violência e ação.


K - De repente comecei a intelectualizar.

E - Bom.


K - Percebi que eu estava competindo com uma camera fotográfica. Me sentia como John Henry. Fazia algo que talvez você não tenha tentado: fazia os personagens sair dos quadros. Eu os fazia sair pela página, tentava fazer isto de maneira coesa para facilitar a leitura. É muito difícil. Se tem personagens saltando pela página ou saindo dos quadros, o...


BLACK MAGIC #29


E - Por que você fez algo tão violento? Com que intenção?


K - Conseguir uma luta real.

E - Queria transmitir um impacto que vendesse?


K - Queria transmitir o poder das pessoas que estavam lutando dentro do quadrilatero, e não podia fazê-lo de forma estática. Não é algo que se possa expressar com palavras. É uma forma extrema de comportamento, e eu tinha que fazer isto de maneira extrema. Desenhava os personagens em posições difíceis e ao fazê-lo desenvolvi um estilo facilmente reconhecível. Não tinha tenpo para desenhar linhas ou fazer os nós dos sapatos. Não podia desenhar os estilos exatamente como eram. Tive que inventar roupas, os carros, os tanques...



E - Não utilizava um arquivo de fotos? Muitos desenhista fotocopiam fotografias e as colocam nos fundos para conseguir um maior realismo e precisão.


K - Não. Usava simplesmente para uma impressão dessas coisas. Por exemplo, desenhava um tanque, que poderia parecer alemão ou americano, mas isso era tudo.


E - Sem detalhes.


K - Exato, sem detalhes. Não dava tempo, e não acreditava que a revista venderia mais por causa dos detalhes. Desenhava da forma mais impactante possível. Eu me considerava uma camera humana que tentava captar os acontecimentos tal como eram na realidade. Tentava mostrá-la da forma mais realista possível, como se estivesse na briga ou na situação que eu estava desenhando. O tanque não importava.



E - Bem, a questão era que você estava com o Capitão América e teve muito sucesso. Quase imediato, não foi?


K - Sim. Chegou a vender novecentos mil exemplares.



E - É mesmo? Incrível! Então foi obra do estúdio de Martin Goodman? Era sua primeira revista ou já havia feito alguma outra antes?


K - Já tinha feito outras mas nenhuma como essa. Então comecei a fazer revistas de gangues.


E - Foi idéia sua?

K - Sim. Comecei a me recordar das pessoas que me rodeavam em minha infância e sutilmente me dei conta de que eram importantes e de que não deveria me envergonhar deles, nem de mim: então comecei a vê-los como deveria ter visto desde o início, mas antes eu não havia sido capaz disto. Pela primeira vez estava aproveitando a vida.



E - Neste momento você já ganhava dinheiro. Vivia em Long Island?


K - Não, não, ainda faltava muito para Long Island. Nessa época eu tentava mudar para o Brooklyn (risos). Me disseram que lá existiam árvores e que era diferente. Finalmente, quando desenhava o Capitão América, decidi me mudar para o Brooklyn. Eu nem percebia que a arte era a responsável, só que o que eu fazia era uma conjunção com o que eu queria fazer como autor.


E - Como um meio para conseguir um fim.


K - Exato. Acho que com DaVinci acontecia o mesmo, só que o prazo de entrega dele era maior que o meu (risos). Mas ele sofreu mais, porque exigiam muito dele.



E - Bem, trabalhava em um ramo diferente. Então desenvolveu uma série de gangues.

K - Sim, acho que se chamava Young Allies. Foi para a Atlas e logo surgiu a Newsboy Legion.




E - Com a mesma fórmula habitual: você escrevia e Joe fazia o de sempre.


K - Exato, a mesma fórmula, e funcionava muito bem. Logo Howard Ferguson começou a fazer as letras. Joe continuava arte-finalizando e eu com os trabalhos a lapis e roteiros



E - Usava pincel naquela época? Os estudantes sempre perguntam isso.


K - Sim, utilizava pincel, porque era mais rápido e vigoroso. Acho que usava um número 2.


E - Provavelmente seria um de número 3, porque o n° 2 é menor.


K - Era um pincel médio.



E - Você se lembra de ter trabalhado com pinceis japoneses no Eisner & Iger?

K - Não, porque eu não sabia usá-los.

THE MIGHTY MARVEL WESTERN #36
(em inglês)
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E - Era só por curiosidade, porque Lou e eu os utilizávamos. Muito bem, continuemos com Newsboy Legion.


K - Newsboy Legion se transformou em uma maneira de me divertir. Pra mim, tudo que eu sabia, visse ou pensasse, era uma forma de me divertir, e podia transmitir tudo isso como uma forma de entretenimento.



E - Nessa época você estava no Brooklyn e estava próximo de chegar a melhor época...
K - Estava no Brooklyn. E - Você fez equitação?

K - Sim. Joe e eu acabamos virando amigos. Depois de um relacionamento assim, não resta outra coisa a não ser virar amigos. E acabamos virando amigos de um dos irmãos de Goodman, Artie e também de Arthur Weiss. Todos montavam cavalo, assim tive que fazer o mesmo. Meu traseiro ficou em carne viva (risos). Tive que ficar por uma semana desenhando em pé, porque estava todo ferido e não estou exagerando.


E - Gostei dessa história! Que lembranças! (risos)

K - Pra mim era como uma aula, algo que eu tinha que fazer.



E - Isto foi nos anos 50, não?


K - Não, não, isso foi em 42.



E - A guerra havia começado.


K - Sim. Hitler era um artista frustrado e teve que se dedicar a outra coisa (risos). Apesar de ser tempos ruins, nós estávamos muito bem e saiamos com garotas. Eu estava saindo com minha atual mulher, a quem conheci no Brooklyn. Me mudei para uma casa de dois andares e sua família se mudou para o segundo andar. Foi a melhor época da minha vida, porque eu não tinha que pagar mais o táxi até sua casa. Somente sair com ela. Era uma garota encantadora e continua sendo. Sempre a amarei e cuidarei dela e serei seu melhor amigo. Começou a guerra, fui convocado, igual a todos. Trabalhava na guarda-costeira: montava a cavalo e vigiaja as praias para que o inimigo não se infiltrasse com lanchas. Eu estava no exército.


E - Infantaria?

K - Exato. No Terceiro Exército, com o general Patton. Trabalhava como soldado e sempre me metia nas piores encrencas, assim decidi levar a vida mais a sério. Percebi que tinha que ser assim se eu quisesse sobreviver. Não se tratava de analisar ou ter cuidado. Simplesmente tem que fazer o que sempre fez, ser você mesmo e não se preocupar nada com os outros. E isso foi o que fiz.


E - Ou seja, atualizou sua sabedoria calejada para sobreviver.

K - Era um menino de rua e nunca ia ser outra coisa. Não acredito que os alemães estivessem preparados para isso.



E - Não desenhou nada durante a guerra, é verdade?


K - Fiz uma capa que me foi encomendada pela DC.


MÁQUINA VITAL #1
em espanhol)

E - Me refiro para o exército.


K - Não, não consegui entrar na Yank (Nota do tradutor: revista do exército). Tentei mas meu sargento, que era texano, me disse: "Rapaz, sei porque está aqui, e não vai receber nenhuma vaga privilegiada".


E - Sim, me lembro muito bem. Maldito filho de puta. (Gargalhadas)


K - "...sei que você quer entrar para o OCS (Officer Candidate School), mas não há vagas. Você vai para a infantaria!" E foi o que aconteceu. O único que me levava a sério era o meu tenente, que me disse: "Kirby, você desenha o Capitão América, é um artista". Eu respondi: "Sim, pode se dizer que sim". E ele falou: "Bem, pegue este mapa. Esta noite você e eu vamos atravessar o rio". O rio era ao Mosela. Me disse: "Quando você ver um tanque Tiger, marque com uma cruz no mapa (risos). Estamos tentando encontrar os tanques".

MÁQUINA VITAL #3
(em espanhol)

E - (Gargalhadas) Essa foi a maneira que o exército encontrou para aproveitar o seu talento.


K - O inverno foi muito duro. Todos estávamos congelados e fomos para casa. Os de Washington só vieram quando eu estava no hospital.


MÁQUINA VITAL #4
(em espanhol)

E - Você esteve num hospital da Europa ou dos EUA?


K - Não, não, na Europa.

MÁQUINA VITAL #5

E - Então você deu baixa.

K - Tinha uma incapacidade de 100%. Tive as pernas completamente congeladas.


E - Meu Deus!


K - Não sabiam o que fazer com meus pés feridos. Simplesmente deixaram que fossem ficando roxos e mais tarde rosas. Eu estava no hospiotal quando vieram Eddie Harem e Murray Boltinoff, de Washington. Me disseram: "Estamos em Paris e queremos que trabalhe para a Yank, e assim ficaremos juntos em Paris". mandei eles plantarem batatas. Me perguntaram: "Mas por quê? Você não quer passar bem?" Respondi: "Não, quero voltar para casa. Não sabem o que fazer com os pés congelados". Achava que me mandariam para casa e assim aconteceu. Primeiro fui para a Inglaterra e depois para os Estados Unidos. Fui o primeiro a sair e quando voltei para casa comecei a trabalhar em Boy Commandos. Quando Joe voltou, decidimos trabalhar com a Harvey Publications e ali fizemos o mesmo de sempre. Fomos de um lugar para o outro com a mesma fórmula.


NEW GODS #1

E - Você se encarregava dos roteiros e dos trabalhos a lápis e ele da arte-final e das letras.

K - E cada vez mais conseguiamos melhores contratos. Fomos os primeiros a cobrar porcentagem.


NEW GODS #2

E - De quem? De Harvey?


K - Crestwood, Mike Blier e Teddy Epstein. Nos anos 50 o negócio começou a cair e nos separamos.


E - Vocês se separaram porque os negócios iam mal ou...?


K - Não só pelos negócios, mas porque aquele tal doutor Frederic Wertham, o autor de "Seduction of the innocent", que era um livro que defendia que os quadrinhos eram a principal causa da delinquencia juvenil, estava no auge. Os quadrinhos já não eram tão bem considerados e a atmosfera dos anos 50 não era propícia para sua venda. Me lembro de muita gente que se foi do negócio. Leonard Starr, que agora desenha Little Orphan Annie, John Prentice, que agora faz um excelente trabalho em Rip Kirby. Eu fiquei, mas Joe foi trabalhar para Nelson Rockfeller, que se candidatou para governador naquela época.


E - Eu não sabia. O que Joe fazia na campanha de Rockfeller, o material de propaganda?

K - Estava em um gabinete que fazia o trabalho de promoção. Joe tinha amigos neste gabinete e deixou se convencer. Eu continuei com os quadrinhos e fui para a Marvel. O dia em que cheguei ali foi muito triste, porque justamente nesta tarde iam fechar. Stan Lee era o coordenador e as coisas iam mal. Eu lhe disse para não fechar as portas porque eu tinha idéias novas. estava convencido de que podia voaltar a fazer o que havia feito antes. Acho que foi então que comecei a amadurecer de verdade. Estava cansado, tinha três filhos, obrigações...


E - Parece como se você se tornasse mais profissional.

K - Eu era um profissional competente e sabia o que fazia. Conhecia a estrutura do terreno e sabia mais coisas de negócios, mas não tudo que precisava. Queria renovar tudo e comecei a desenhar uma nova linha de super-heróis.


E - Então a idéia dos super-heróis da Marvel e DC eram de você e de Stan.


K - Não, eram minhas! Homem-Aranha foi idealizado por mim e Joe, não é um produto da Marvel.


NEW GODS #7

E - Quer dizer que o Homem-Aranha foi idealizado por Jor Simon e você, e que logo foi levado a Stan por você?


K - Exato. Foi o último que Joe e eu preparamos. Tínhamos um roteiro chamado "A aranha de prata" que iria ser publicado numa revista chamada Black Magic, mas foi cancelada e nós ficamos com o roteiro nas mãos. Acho que ele disse que podíamos transformá-lo em Homem-Aranha, um super-herói. Eu tinha muita fé nos super-heróis, tinha esperança de que podia voltar. Naquela época ninguém desenhava super-heróis e eu acreditava que podiam se regenerar e disse que o Homem-Aranha podia ser um bom personagem para começar novamente. Mas Joe já havia partido, assim que falei com Stan Lee a idéia já estava no ar.

NEW GODS #8

E - Então você fez o primeiro sozinho.


K - Sim, sim, só que o Homem-Aranha não foi o primeiro que fiz. Comecei com algumas revistas de monstros, que era o que Goodman queria. Tive que lutar muito para trazer os super-heróis de volta. Quero dizer, estava numa etapa que tinha que lutar muito para conseguir e o fiz. Teria que renovar toda a linha e achava que ali não tinha ninguém para fazê-lo, assim comecei eu. Stan Lee foi o instrumento para conseguí-lo, foi a ponte até Martin Goodman.


E - Acho que ele acreditava no que você dizia.

K - Stan Lee sempre acreditou no que eu falava. Conheço Stan melhor que ninguém, e ele sempre teve muita fé em mim. Sabia que eu havia tido sucesso no passado e seria capaz de fazê-lo novamente. Ele foi a ponte entre Martin e eu.


E - Stan fazia os roteiros?

K - Não, Stan não escrevia, eu o fazia. Tudo era idéia própria e te garanto que se em algum momento comecei a intelectualizar, foi nessa época.

NEW GODS #11

E - O que quer dizer com intelectualizar?


K - Bem, naquela época eu estava mais amadurecido e minhas idéias também, e isso as faziam diferentes. Não percebi que eu estava chegando a um novo leitor: o universitário. Quando criei o Incrível Hulk, quiseram interrompê-la depois de três números. O que me salvou foi um grupo de estudantes de Columbia que foram a Marvel com uma lista imensa de nomes. Disseram que o Hulk era o mascote da escola. Então fiquei sabendo que tínhamos leitores universitários. Disse para todo mundo na Marvel que não cancelassem a coleção, que eu precisava de tempo para amadurecer o personagem, igual as pessoas.


E - Essa era sua forma de vê-lo?


K - Sim, eu lutei muito para defendê-lo.



E - Me fascina quando você fala "intelectualizar". Gostaria que você definisse isto. Não quero colocar em sua boca palavras que não disse, mas...


K - Não. Comecei a definir os personagens.


E - Dê-me um exemplo.


K - Claro. Por exemplo, o Doutor Destino, que é outro de meus personagens. Era um sujeito atrativo! Mas eu começava com os clássicos, que eram muito importantes. O que fazia sempre era modernizar os clássicos. Assim, peguei algumas coisas emprestadas de Dr. Jekyll e Mr. Hyde (O Médico e o Monstro). Acreditava que havia um Mr. Hyde dentro de cada um de nós, e era esse personagem que eo queria e o chamei de O Incrível Hulk. Também modernizei a lenda de Thor. Eu achava que Thor precisava de amigos, assim busquei os Três Mosqueteiros e parti daí.


E - Era a isso que você se referia ao dizer "intelectualizar"?

K - Comecei a entender que todos nós temos problemas. Todos precisamos de amigos, e Hulk era um anti-social. Era esquizofrênico e as pessoas não o entendiam. Em um momento era o doutor Bruce Banner, um intelectual e em outro um ser primitivo. Estava atualizando o Dr. Jekyll. Bruce Banner era um físico e não médico como Jekyll. Fiz o mesmo com os outros. O Dr. Destino era um perfeccionista, um sujeito atraente, e tinha que esconder seu rosto embaixo de uma máscara de ferro por causa de ferimentos que deformou seu rosto e ele não suportava mostrar.



E - Assim estava usando a psicologia ou o conhecimento das pessoas... para você era uma coisa nova, não é mesmo?


K - Sim. Percebi que conhecia as pessoas, conhecia os outros e quando percebi isto, minha obra estava em andamento.


E - Agora chegamos ao momento em que a Marvel ou Stan Lee ouviam seus conselhos, ou seu impulso, para abordar melhor os quadrinhos da maneira que você achava que seria mais atrativa para o público universitário. A última vez que vi Stan Lee, faz muitos anos, me mostrou alguma páginas que a Marvel estava fazendo e me explicou a forma de trabalho deles. Mas não estávamos falando de você. Me disse que o que fazia era combinar um roteiro com alguém, e dava um esquema de trama. Desenhavam toda a história a lápis e em seguida ele, ou quem fosse, escrevia nos balões. Mais tarde era feita a arte-final. Pediu minha opinião e eu disse que pessoalmente eu não gostava de trabalhar desta maneira. Mas no fim de tudo, produzia e vendia milhares de exemplares, e para ele e os donos da Marvel essa era a importância da coisa. Não havia muita possibilidade de discussão.

K - Acho que Stan é ingênuo.



E - Vocês trabalhavam assim?


K - Stan Lee não me deixava escrever nos balões, mas eu escrevia o roteiro completo embaixo dos quadros. Nunca lhe explicava os roteiros. Escrevia-o debaixo dos quadros para quando ele escrevesse os diálogos o roteiro já estivesse alí. Quero dizer, não sabia como era o roteiro, o que não importava muito já que não era o autor. Eu estava contente porque ele fazia o mesmo que Joe. Me deixava tranquilo.

JACK KIRBY COLLECTOR #27

E - Então, ele escrevia os balões depois que você entregava cada página desenhada.

K - Não sei se alguma vez escreveu algum balão.

JACK KIRBY COLLECTORS #28
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E - Não tem importância. Continuemos.

K - É verdade, não tem importância. Veja do ponto de vista profissional, era eu quem escrevia e desenhava.

JACK KIRBY COLLECTOR #31
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E - Mas não está de acordo com a idéia de que outra pessoa, seja quem fosse, escrevesse os diálogos dos balões na página a lápis. Pra mim não parece uma boa idéia, mas quero conhecer sua opinião.


K - Minha idéia é a seguinte: Stan Lee escrevia os títulos dos créditos, o que eu nunca fiz.


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E - Não me refiro a isso. Se hoje em dia tivesse o seu próprio estúdio, trabalharia assim? Duvido muito que o fizesse.


K - Não, não o faria. Se alguém estivesse escrevendo um roteiro, teria que fazê-lo por inteiro.


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E - E também escreveria os diálogos.

K - Lógico, e se fosse desenhar, deveria fazê-lo também.

JACK KIRBY COLLECTOR #34
E - Assim é como eu gosto de trabalhar. Quero os balões primeiro. São parte do quadros. Os balões deveriam ser trabalhados como uma unidade.

K - Eu usava o seu modelo, escrevia e desenhava. Mas Stan Lee, que era quem mandava, não me deixava escrever os balões. Se fosse você no lugar dele, eu teria feito os diálogos. Nisso está a diferença.


JACK KIRBY COLLECTOR #35
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E - Estamos ficando com pouco tempo. Deixe-me terminar voltando à técnica de trabalho. A distribuição da página. Ao escrever e desenhar, você gosta de fazer do mesmo jeito que eu, como um roteirista completo. Você pensa como eu que essa é uma dimensão total, que não existe separação entre as palavras e as imagens porque estão interligadas?


K - Quem desenha o roteiro também deve escrevê-lo.


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E - Muito bem. Quando faz a distribuição na página, como você divide o roteiro? Como você o aborda?


K - Com experiência. Sei onde devo equilibrá-lo. Sei quando precisa de um pouco mais de humor.

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E - Começa a trabalhar com o roteiro já finalizado na mente?


K - Com certeza.

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E - Ou começa com uma idéia?


K - Pode-se fazer de ambas as formas. O mais importante é que seja interessante e vendável. Quer dizer...

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E - Quer dizer que como artista está mais preocupado com o mercado.


K - Como artista, estou preocupado com o mercado e com as vendas. Mas minha primeira preocupação é com minha família.


JACK KIRBY COLLECTOR #40
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E - Bem, isto nos leva ao presente. Outro dia você me disse que estava trabalhando no cinema, que preparava conceituações para diretores. É o campo que você mais gosta? Deixemos de lado o dinheiro.

K - É o que tenho feito em toda a minha vida. Agora faço em animação o que fazia para a Marvel, e o mesmo que fazia com Joe Simon. Conceitualizo o roteiro, o escrevo. Conceitualizo os personagens e acrescento elementos que faz com que ele venda bem.

JACK KIRBY COLLECTOR #46
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E - O que aconteceu com o Capitão Vitória? Alguém me disse que você estava trabalhando em uma nova revista.


K - Capitão Vitória é minha resposta para Steven Spielberg, que é um cara muito elegante e acha que com ele só vai acontecer coisas boas. Eu sou mais realista.


JACK KIRBY COLLECTOR #47
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E - O que é o Capitão Vitória?


K - É uma história sobre a vida. O Capitão Vitória sabe que para ganhar tem que se sacrificar. Se ganha, continua em frente, e se segue adiante, tudo que há é sofrimento.


JACK KIRBY COLLECTOR #48
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E - O que é que você faz exatamente no Capitão Vitória? O roteiro e o trabalho a lápis, como sempre, e outra pessoa faz a arte-final?


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K - A mesma fórmula. Nunca deixei de trabalhar assim em toda minha vida. Pode-se dizer que eu escrevi o roteiro de minha vida, e acho que você fez o mesmo.

E - Exato. Muito bem, Jack. Acho que podemos encerrar por aqui. Obrigado.

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