WARREN TUFTS
E A SAGA DA VELHA CALIFÓRNIA
Por Luiz Antonio Sampaio
(Publicado originalmente na revista CALAFRIO #17, D-Arte)

Na verdade, o nosso assunto de hoje teve suas raízes plantadas há 135 anos. Conta a história que, em 1848, um homem chamado James Marshall descobriu casualmente ouro perto de Fort Sutter. Era o começo da “gold rush”, a corrida do ouro que atraiu aventureiros dos quatro cantos do mundo à Califórnia. Homens bons e maus, bandidos e oportunistas, comerciantes e derrotados – todos com a febre do ouro, todos desejando enriquecer rapidamente.

Em 1949, quando se comemorava o centenário desse evento histórico, foi lançada nos jornais americanos uma página dominical (mais tarde, tira diária também) chamada Casey Ruggles, que teria por cenário a velha Califórnia, com suas minas de ouro e sua população heterogênea. Essa nova história em quadrinhos na realidade começava no Leste, em Boston, quando o ex-sargento Casey Ruggles, que servira sob o comando do Coronel Fremont na Califórnia, se preparava para voltar ao Oeste, em companhia do velho Hans Hassenfeffer e de sua filha adotiva Chris, a apaixonada do nosso herói. Pretendiam tentar a sorte nos campos de mineração. Mas esta não lhes bateu à porta. E após uma frustrada tentativa de ser eleito governador da Califórnia, Ruggles é nomeado delegado itinerante do novo Estado. O responsável por essa saga do Oeste era Warren Tufts, um jovem de 23 anos, que nunca frequentara qualquer escola ou curso regular de desenho. Natural de Fresno, Califórnia, onde nasceu aos 12 de dezembro de 1925, Tufts deixou sua carreira no Rádio para se dedicar às Histórias em Quadrinhos, abordando o tema pelo qual sempre fora um apaixonado – o antigo Oeste e a sua colonização. Inteiramente autodidata como desenhista, Warren Tufts possuía uma vasta biblioteca sobre a Califórnia, conseguindo então insinuar bastante autenticidade à sua obra, tanto no contexto histórico como pictórico, Ruggles era uma personagem inteiramente fictícia, mas seu criador o colocou lado a lado com figuras reais, como Kit Carson, Samuel Colt, Joaquin Murieta, Jean Lafitte, John Fremont, Pres. Zachary Taylor etc., e também em meio a eventos históricos reais. Tão feliz foi o desenhista nesse detalhe que muita gente acreditava ter sido Ruggles uma figura verdadeira dos tempos da corrida do ouro. Certa vez, um grupo de estudantes chegou mesmo a indagar aonde o delegado Casey Ruggles havia sentado durante a convenção para a constituição da Califórnia.

Casey Ruggles foi um western notável, fruto da criatividade de um artista que se projetou adiante de sua própria época. Suas personagens tinham dimensão psicológica e estavam sempre vivas e presentes. Seus temas constantemente embebidos em interesses humanos. E embora Tufts tivesse impregnado sua obra de uma aura realista, violenta e fatalista, tudo bastante inusitado nos faroestes da época, não havia exagero ou gratuidade em nada. Havia simplesmente a rudeza e o romantismo de um povo, de um lugar, de um acontecimento, tudo celebrado visualmente nos belos desenhos de Tufts.

Todo aquele que examinar atentamente Casey Ruggles provavelmente perceberá que foi uma obra bastante pessoal. Tufts, sozinho, idealizou as suas personagens, escreveu as histórias e ilustrou-as. Mas ele não era um artista rápido em seu trabalho. Era muito meticuloso para ser rápido. E o fato fazia com que, segundo declarações dele mesmo, ficasse debruçado sobre a prancha de desenho mais de 80 horas por semana. Isso o obrigou a ter, em determinados momentos, assistentes para terminar os desenhos, ou até mesmo executa-los por completo. Foram nomes como Alex Toth, Nick Cardy, Al Plastino, Edmund Good e outros. O interessante é que muitas vezes o próprio Tufts nem mesmo chegou a conhecer o seu assistente. Eles eram contratados pelo United Feature Syndicate e terminavam o trabalho após ele sair, incompleto, das mãos dele.

Casey Ruggles ocupava a primeira página do segundo caderno do suplemento de quadrinhos do Los Angeles Times e acabou tendo uma certa projeção no meio cinematográfico de Hollywood. Era a história em quadrinhos favorita da colunista Hedda Hopper e algumas companhias já haviam demonstrado interesse em levá-lo às telas. Além disso, o ator George Montgomery, amigo de Tufts, queria interpretar Ruggles no cinema. Esses fatores foram pontos importantes e decisivos na trajetória de Casey Ruggles, pois iniciou uma discórdia entre Tufts e o United Feature. O desenhista estava decidido a levar Ruggles para a tela, mas o sindicato, inexplicavelmente, recusou-se a vender os direitos do título para Hollywood. A partir daí, Tufts foi, pouco a pouco, perdendo o interesse pelo seu trabalho, pois sabia ele que cada vez mais estava se tornando impossível o seu relacionamento com o sindicato distribuidor de sua história. Assim, em 1954, o desenhista simplesmente abandonou Casey Rugles, perdendo todos os direitos sobre ele. E não custa dizer que o United Feature ainda tentou manter vivo o título com outros desenhistas. Tudo inútil. Casey Ruggles era uma obra muito pessoal para sobreviver em outras mãos. Foi cancelado definitivamente no ano seguinte.

Mas Warren Tufts era um artista, um criador. Quando percebeu sua criatividade cerceada pelo United Feature, inicioua concepção de uma nova obra. Antes de lança-la, fez uma experiência de cinco meses com The Lone Spaceman, uma história satírica com desenhos caricaturais, tudo muito longe do estilo natural do desenhista. No entanto, era algo efêmero. Uma simples experiência de distribuição própria e meios legais de se desligar por completo do contrato que tinha com o United Feature.

Em junho de 1955 foi lançado Lance nos jornais americanos, a nova obra de Warren Tufts, um novo faroeste. Desta vez, o artista não quis ficar sujeito aos ditames de nenhum sindicato, então ele próprio, com a ajuda do pai e do irmão, fazia a distribuição do material para os jornais. A ação desse novo western começava em 1834, em Fort Leavenworth, às margens do Missouri, caminhando para o Oeste e atingindo a Califórnia, com os acontecimentos chegando até o ano de 1847. Como Casey Ruggles teve sua ação decorrida entre os anos de 1848-1852, então está bem clara a estreita ligação entre as duas obras de Tufts. E essa ligação chegou a aproximar ainda mais os dois títulos quando, em agosto de 1957, Tufts introduziu como personagem secundária em Lance o jovem sargento Ruggles, vivendo então um período de sua vida anterior àquele já conhecido. No entanto, por motivos diversos, o desenhista nunca pôde tirar Ruggles de figura secundária em Lance. Mais uma vez demonstrando seus conhecimentos da História do Oeste americano, Tufts colocou Lance em meio a episódios reais, fazendo de sua personagem não apenas olhos por onde passavam acontecimentos históricos, mas também uma figura atuante e de vital importância nesses eventos. Lance foi lançado como “full page” nos jornais americanos, ou seja, ocupando uma página inteira no suplemento dominical em cores. Infelizmente, com o passar dos anos, as coisas novamente começaram a correr de maneira inversa àquela pretendida pelo desenhista. Os jornais já não queriam mais quadrinhos em “full page” e Tufts foi obrigado a reduzir o tamanho de Lance. E ele estava também enfrentando os poderosos sindicatos distribuidores de quadrinhos para os jornais, o que tornava as coisas ainda mais difíceis. Em 1960, pensando já ter atingido plenamente os seus objetivos com Lance, e pressionado pelo número cada vez menor de jornais que publicavam a sua obra, Tufts resolveu cancelá-la.
Lance foi uma explosão de cores aos olhos dos leitores. Foi tão épico quanto Príncipe Valente. Foi produto de um artista completamente amadurecido e seguro de uma técnica ilustrativa, onde se aliavam em perfeita comunhão, desenhos clássicos e belos com um excelente trabalho de aplicação de cores (uma das mais belas e perfeitas já vistas nos quadrinhos). Pode-se dizer que Lance foi mais espetacular, porém, Casey Ruggles foi mais criativo.
Uma página de Korak
Após Lance, Warren Tufts pretendia atingir novas metas de trabalho em sua vida, metas onde não estavam incluídas as histórias em quadrinhos. Em 1957 ele se tornara um piloto e começou a desenvolver grande afeição por aviões. Para esse campo ele iria então voltar as suas atenções. No entanto, era um sonho que ainda levaria anos para concretizar, e Warren teve que trabalhar em atividades variadas nesse meio tempo. Esteve na TV e no cinema, trabalhando como ator, escritor, desenhista de títulos, etc. Desenhou várias histórias em quadrinhos para revistas da editora Dell/Gold Key, como Zorro, How The West Was Won, Korak o Filho de Tarzan, The Rifleman, etc. No entanto, essas histórias que Tufts fez para revistas não se comparam em qualidade com as suas obras para jornais. Casey Ruggles e Lance foram criações que brotaram livre e prazerosamente do âmago criativo do artista. O resto foi puro trabalho comercial, quadrinhos de encomenda.

Mas os olhos e a mente de Warren estavam mesmo voltados para a aviação. Seu propósito era construir um avião leve de quatro lugares, com capacidade acrobática e que custasse a metade do preço dos aparelhos comuns de quatro lugares. E assim, durante cinco anos, Tufts mergulhou de corpo e alma no projeto e na construção do avião “Tufts T3”.
O aparelho já estava praticamente pronto, quando a fatalidade resolveu intervir. No dia 6 de julho de 1982, Tufts estava experimentando seu avião, quando inexplicavelmente uma das asas bateu em uma árvore. A tragédia foi inevitável. O “T3”, com seu criador a bordo, caiu e pegou fogo perto do aeroporto de Placerville, na Califórnia. Warren Tufts, aos 56 anos, teve morte instantânea. Seu corpo dói cremado e as cinzas espalhadas sobre a Sierra, local por onde, há mais de um século, passaram Lance e Casey Ruggles.
CASEY RUGGLES
Versão em espanhol
No Brasil, infelizmente, a obra de Warren Tufts é praticamente inédita. Apenas uma minoria conhece. Casey Ruggles jamais foi publicado aqui e aqueles que o conhecem é através de um álbum recentemente lançado nos EUA, ou então de recordações de velhas publicações argentinas dos anos 50. Lance chegou a ser publicado por um breve período entre nós, seriado, em uma revista que não era de quadrinhos.
CASEY RUGGLES
Versão em espanhol
“Warren Tufts foi um dos homens mais brilhantes e criativos que eu já encontrei em minha vida!” Esta foi a declaração de um velho assistente seu na construção do “T3”. Mas, infelizmente, hoje, no mundo dos quadrinhos, são poucos os que recordam desse incrível e verdadeiro gênio chamado Warren Tufts. Ele esteve ativo numa época bastante ingrata para as histórias em quadrinhos, uma época que mediou os grandes anos criativos das décadas de 30 e 40 e os anos que presenciaram o renascimento do assunto. A década de 50, principalmente para as histórias em quadrinhos de jornais, é bastante negligenciada hoje em dia pelos leitores, críticos e editores. Assim, Tufts nunca chegou a receber um justo reconhecimento do grande público leitor, pois este praticamente o desconhece, ou então não se recorda do grande poder criativo deste artista que soube, como nenhum outro, visualizar o velho oeste americano, mas que, por ironia do destino, nunca chegou a ver o “T3”, o seu grande sonho, realizado.
Uma dica para os colecionadores de bom gosto é o blog
onde poderão encontrar mais páginas da obra de Tufts.
E para aqueles que se interessarem em adquirir as edições do álbum de LANCE, a dica é