sábado, julho 16, 2016

MAIS UMA TRADUÇÃO DO HQ POINT...


O INVERNO DO DESENHISTA
Tradução e letras: PC Castilho
32,9 MB

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A ESPERANÇA DO DESENHISTA

Os invernos eram mais frios, os verões mais quentes, as ruas mais cinzas. A felicidade de todos estava confiscada. E os vencidos eram quase todos. No final dos anos 50 estávamos saindo de uma crise econômica, mas continuávamos em uma mediocridade social e cotidiana. A política não estava nas ruas, havia sido tirada de nós a balas. Restava uma rotina angustiante. Nas ruas, o olhar esquivo do perdedor se cruzava com o do prepotente vencedor. Era preciso sobreviver aos trancos e barrancos. Haviam nos tirado a dignidade.

Restava a esperança. Não exatamente a de um mundo melhor, porque o mundo estava muito distante. A imediata, a do dia a dia. A do orgulhoso, a do empreendedor, a do inquieto.

Na Espanha de 1957 ser quadrinhista era uma profissão. Não eram artistas, eram operários dos quadrinhos. Cobravam um valor “x” por página – ou charge -, trabalhavam a toque de caixa, seguindo padrões estabelecidos e imutáveis. Renunciavam seus originais e direitos autorais em troca de seus salários. Sobreviviam. Alguns até viviam: aqueles que começavam a colaborar com editoras de outros países e os membros da editora Bruguera, que assinavam contratos nos quais cediam a propriedade de seus trabalhos, em troca de uma digna gratificação anual. Todos sacrificavam suas famílias, sem tempo livre, presos às suas pranchetas, para sobreviver ou viver de maneira precária.

Naquele ano de 1957 aconteceu uma coisa que quebrou a monotonia e abriu uma ponta de esperança. Cinco extraordinários desenhistas, famosos por seus personagens, cansados de perderem aquilo que eram deles por direito, inquietos, acreditaram que o mundo editoria podia e devia reconhecer seus talentos e seus direitos. Um sócio capitalista deu a eles uma pequena quantia em dinheiro e ousaram se rebelar: abandonar a Editora Bruguera para montar a sua própria empresa era um suicídio, mas a esperança, e talvez, o desespero, não conhecia fronteiras. Não por acaso Carlos Conti, Guillermo Cifré, Josep Escobar, Eugenio Giner e José Penarroya foram os escolhidos. Eram autores de personagens famosos e populares como Carioco, Tribulete, Carpanta, o inspetor Dan ou Don Pío. Alguns havia sido educados na República, todos haviam sofrido por causa da Guerra Civil, havia inclusive aqueles que haviam lutado ao lado dos perdedores. Haviam sido criados em um mundo de esperanças.

A INDEPENDÊNCIA TEM UM PREÇO

Em 1957 a Editora Bruguera era uma das empresas de quadrinhos mais importantes da Espanha. Era uma época onde a tiragem de algumas revistas superavam as cifras de centenas de milhares de exemplares. Haviam títulos como Roberto Alcázar e Pedrín, El guerrero Del antifaz, Hazanas Bélicas e o recém chegado El Capitán Trueno, Pumby, TBO, Pulgarcito e DDT. Trabalho não faltava: cada semanada, cada quinzena, cada mês, apareciam centenas de oportunidades. E pouco a pouco a Bruguera ia se impondo no mercado, utilizando com inteligência os seus recursos: jornais, revistas em quadrinhos, álbuns de figurinhas, livros e, sobretudo, a capacidade de seus técnicos e de seus criadores. Colaborar com a Bruguera era uma garantia: ter trabalho fixo e abundante, com pagamento garantido, em quantidades dignas. Também era garantia de renuncia a um dos direitos que, naquela época, assim como em todas as outras editoras, ter direito sobre personagens e originais.

Cifré, Conti, Escobar, Giner e Penarroya deram o primeiro passo. Fundaram a DER (Diretores e Editores Reunidos) e publicaram Tío Vivo. Talvez não fosse a primeira vez em que os próprios autores buscasse sua independência como editores de sua obra – exemplo disso, na mesma época, podemos encontrar em países como a França e Estados Unidos -, mas eles tiveram um mérito especial: fizeram isso em um momento histórico complexo para a emancipação, em um país sem liberdades e sob o comando de um ditador. E o fizeram alavancados pela esperança, por causa de sua formação, por causa de suas experiências e pela inquietude de saber que aquilo que publicavam era absolutamente de sua responsabilidade, por bem ou por mal. O cálculo foi errôneo. Não bastava ter energia e coragem. Lá fora a sociedade não entendia de liberdade. Não era suficiente a qualidade de uma revista, Tío Vivo, com personagens novos e desconhecidos – com exceção de Apolino Tarúguez, de Conti -; não era fácil lutar contra os desígnios da competência e dos distribuidores; não era fácil conciliar a produção com a direção e coordenação de uma publicação. A liberdade em um país sem liberdade logo se apaga. Cifré, Conti, Escobar, Giner e Penarroya tiveram que desistir. Voltaram ao redil da Bruguera. Eles estavam sendo esperados. Todos eram muito bons para terem seus talentos renunciados. Giner demorou um pouco mais para buscar sustento em outras paragens, trabalhando para o mercado exterior; Cifré, Conti, Escobar e Penarroya recuperaram seus personagens da Bruguera e continuaram fazendo histórias em quadrinhos de humor.

O sonho durou apenas um ano. Acordaram. Sem perder a esperança para a sobrevivência, com a cabeça levantada. Voltaram ao cotidiano de suas pranchetas e de seus personagens, de suas entregas e pagamentos semanais. E, contudo, eles e seus milhares de companheiros quadrinhistas forjaram a história das histórias em quadrinhos na Espanha, essa história cheia de luzes e sombras, mas absolutamente incontestável.

Antoni Guiral




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