domingo, outubro 30, 2016

SAIU NOS JORNAIS

E O OUTRO QUE SE CHAMA TARZAN
(Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, 30 de janeiro de 1996)

Gabriel Bastos Júnior

Morto no dia 28, Burne Hogarth, o desenhista que consagrou a imagem do senhor das selvas em tiras de jornais entre 1937 e 1950, é referência obrigatória na evolução da arte.

Burne Hogarth trabalhando em seu estúdio.

Na dedicatória do álbum Tarzan dos Macacos, de 1972, o desenhista Burne Hogarth conta que seu pai reuniu alguns de seus desenhos infantis e com eles conseguiu sua matrícula no Art Institute of Chicago, com apenas 12 anos. “Devolvo este livro a meu pai: ele ficaria orgulhoso em ver estas páginas”, diz o texto. A eterna modéstia dos filhos não lhe permitiu admitir que seu pai ficaria, na verdade, emocionado. Hogarth foi um dos maiores artistas de seu tempo e um dos mais importantes no estabelecimentos dos quadrinhos como forma de arte. Morreu no último dia 28, aos 84 anos, deixando uma lacuna, mas também um enorme legado como professor e uma obra magnífica que vem servindo de referência a inúmeros artistas.



Sua história se confunde com a de Tarzan, personagem do escritor Edgar Rice Burroughs para o qual desenhou tiras de jornais entre 1937 e 1950 (retomando-o depois em dois álbuns considerados históricos. Tarzan dos Macacos e Os Contos da Selva, de 1976). Embora seja difícil avaliar, provavelmente sua imagem do senhor da selva é a mais emblemática do personagem, superando até o nadador Johnny Weissmuller, que o viveu no cinema.

Não raro, Hogarth era chamado de o pai de Tarzan – uma homenagem tecnicamente incorreta. O personagem apareceu pela primeira vez nas páginas da revista All-Story Magazine em 1912. O conto Tarzan dos Macacos saiu em livro pela primeira vez em 1914 e foi o maior best-seller do ano. Sua primeira versão para o cinema foi produzida em 1918 e, mesmo nos quadrinhos, ele já era feito por Hal Foster desde 1929. Burroughs, o verdadeiro pai, morreu em 1950, o mesmo ano em que Hogarth abandonou a tira por outros motivos.



Pode-se dizer, no entanto, que Burne Hogarth adotou Tarzan. Ele assumiu o personagem em 1937, quando Foster, outro mestre, decidiu deixar o personagem para criar O Príncipe Valente. Poucos dias antes de morrer, durante uma convenção de quadrinhos em Angôuleme, na França, continuava falando dele com amor e autoridade paternal: “É integro, honesto, valente, amigo da natureza, defensor dos fracos, pacifista e ecologista, o contrário de tudo o que desgraçadamente expressa essa sociedade na qual vivemos”.

Hogarth começou a desenhar profissionalmente aos 15 anos, ainda em Chicago, como cartunista assistente. No ano seguinte já trabalhava como ilustrador e em 1929 assinou sua primeira tira de jornal – Ivy Hemmanhaw – sem obter sucesso. Em 1933 iniciou sua carreira de professor ensinando história da arte em cursos comunitários criados após a depressão de 1929.



Mas o impulso em sua carreira só viria a partir de 1934, quando ele resolveu se mudar para Nova York, onde estavam os principais syndicates (distribuidores) do país. No ano seguinte ele começou a desenhar uma tira de piratas chamada Pieces of Eight, com roteiros de Charles Driscoll. Especialistas como Maurice Horn, autor da World Enciclopedia of Comics e um dos maiores especialistas em tiras americanas, identificam nesse trabalho os primeiros traços marcantes do estilo de Hogarth.

Hogarth não foi o único a enviar trabalhos para substituir Foster em Tarzan, mas o United Features Syndicate, detentor dos direitos do personagem, resolveu dar-lhe sua grande chance. Quando sua primeira página foi publicada, no dia 09 de maio de 1937, seu estilo ainda era claramente calcado no realismo cinematográfico do antecessor. Era apenas uma questão de tempo até seu talento vir totalmente à tona.



Tarzan se tornou mais mitológico nas mãos de Hogarth. Tecnicamente, as principais características de seu trabalho com o personagem eram voltadas para o perfeccionismo anatômico – que o levou a ser comumente chamado de o Michelangelo dos quadrinhos – e a incrível composição de seus quadros, cada um pensado detalhadamente como se fosse sua obra definitiva.

Em 1945 Hogarth abandonou o personagem pela primeira vez, descontente com as condições impostas pela distribuidora do personagem (curioso lembrar que Bill Watterson, autor do Calvin, recentemente aposentou o personagem pelos mesmos motivos). Foi quando criou Drago, seu flerte com a América do Sul.

Drago era uma espécie de Tarzan mais novo que enfrentava um vingativo vilão nazista, o Barão Zodiac, em vastas paisagens dos pampas argentinos. Os roteiros eram convencionais, mas foi nessa fase que Hogarth mais se realizou como artista, levando ao extremo a exuberância de sua arte. Infelizmente a tira durou apenas um ano e hoje é cobiçada por colecionadores.



Em 1947, Hogarth sucumbiu às insistências da UFS e voltou a desenhar Tarzan. Foi quando o personagem atingiu seu ponto máximo. É o senhor da selva desta fase que representa a obra de Hogarth, tanto ou mais do que a do próprio Burroughs. Mas a alegria durou pouco. O desenhista voltou a se desentender com a distribuidora, dessa vez por direitos de vendas para o Exterior e abandonou de vez a tira.

Hogarth se afastou do mercado de quadrinhos e passou a se dedicar inteiramente à atividade acadêmica. Foi co-fundador da Escola de Artes Visuais de Nova York, onde assumiu o cargo de coordenador de currículo, design e história da arte. Suas aulas e palestras ficaram famosas e renderam material para uma série de livros didáticos dos quais se destacam Dynamic Anatomy (anatomia dinâmica) e Dynamic Figure Drawing (desenhando figuras dinâmicas), ambos ensinando a dar noção de movimento aos desenhos, técnica fundamental que se tornou a base dos quadrinhos atuais e da qual ele foi o grande mestre.

Belíssima ilustração de Hogarth em Drago

Reconhecimento – Hogarth interrompeu sua carreira acadêmica em 1970 para voltar à ativa como ilustrador, pintor e quadrinhista. Nesse período, seu trabalho com Tarzan foi mundialmente aclamado e reconhecido como uma legitima manifestação artística em que antes só se via entretenimento: as tiras de jornais.

Foi também nessa época que ele começou a circular por feiras e convenções em todo o mundo. Esteve no Brasil uma única vez em 1970, participando do primeiro evento do gênero organizado pela Escola Panamericana de Arte (ano passado em um encontro com o quadrinhista e ilustrador do Estado, Klebs, durante a convenção de San Diego, perguntou por São Paulo e Maurício de Sousa). Um artigo publicado por José Moneres no Estado, zelosamente citado por Maurice Horn no texto de apresentação da edição americana de Tarzan of the Apes, registrava o silêncio reverente que fez após sua palestra. Na ocasião, Hogarth definiu quadrinhos como um “dispositivo complexo para transformar ideias em arte”. Ninguém melhor do que ele para comprovar a teoria.

Desde o último álbum de Tarzan, Os Contos da Selva (1976), o mestre Burne Hogarth voltou a se dedicar mais à ilustração, à pintura, aos estudos e palestras. Recentemente cuidava também de um projeto pessoal – uma série de quatro volumes do personagem Morphos - que fica inédito e inacabado. Por sorte, viu seu trabalho reconhecido em vida e fez questão de ensinar o quanto pôde. Só não conseguiu ensinar a magia que diferencia os grandes.

Edição publicada no Brasil pela Editora Brasil-América Ltda (EBAL), disponível em scan através do HQ Point.

LOUVRE EXPÔS OBRAS DO ARTISTA

Em 1967, os desenhos de Burne Hogarth foram exibidos na exposição Bande Dessinée et Figuration Narrative (quadrinhos e figuração narrativa), no Museu de Artes Decorativas do Louvre, em Paris. Esse foi o maior mérito do artista: ajudar a quebrar a defesa dos amantes das artes plásticas com relação aos quadrinhos.

Alguns arriscaram palpites, mas é impossível dizer que há um “melhor de todos” na era de ouro da HQ se pensarmos em nomes como Hal Foster, Alex Raymond e Milton Canniff. No entanto, a morte de Hogarth quebra a santíssima trindade da teoria dos quadrinhos norte-americanos, deixando órfãos, além de milhões de fãs de Tarzan ao redor do mundo, os geniais Will Eisner, criador do Spirit, e Jor Kubert, um dos sucessores de Hogarth na tira do senhor da selva. Ambos seguem com a cruzada de mostrar ao mundo a grandeza dos quadrinhos.

Como artista, Hogarth era associado a Michelangelo sempre por sua preocupação e precisão em retratar a anatomia humana. Mas não é apenas a precisão de Davi que representa Michelangelo em Hogarth. A obsessão pela perfeição da Capela Sistina era o que ele perseguia em cada quadro. E sua paixão pela história da arte o levava a procurar as soluções de seus problemas nos grandes pintores.

Mais do que anatomia, Burner Hogarth impressionava pela impressão de movimento e por suas intrincadas composições de cena. Era como um aluno de Michelangelo a serviço da narrativa.


                                 Colaboração de ROGERIO ARAUJO FERREIRA
                                     (que nos doou toda sua coleção de recortes de jornais)

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