sábado, novembro 05, 2016

SAIU NOS JORNAIS

BRASILEIROS ENFRENTAM
AMADORISMO EDITORIAL
(Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo em 21 de maio de 1995)

Jotabê Medeiros

O pioneiro Flávio Colin e Luiz Gê falam das agruras de ser cartunista no País.

Flávio Colin

Flávio Colin, 65 anos, é o veterano. Em 1959, quando Luiz Gê, hoje com 42 anos, ainda usava calças curtas, ele chacoalhava as bancas com uma adaptação gráfica da radionovela O Anjo, da Rádio Nacional.

Mas entre Flávio Colin e Luiz Gê não há muita distância, embora haja muita diferença. Os dois vivem em função de uma paixão fulminante: os quadrinhos. Colin é autodidata e aprendeu por instinto. Luiz Gê surgiu como um ponta-de-lança de uma geração cheia de referências na revista Balão, feita na faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, em 1972.

São dois cartunistas brasileiros que, embora tenham vivido épocas distintas, enfrentaram (e ainda enfrentam) o mesmo problema: o amadorismo da indústria editorial brasileira. Colin se viu obrigado a fazer publicidade durante 12 anos, além de revistas pornô, para sobreviver. “Fiz muita coisa para sobreviver e manter meu traço na vitrine para me manter vivo para meus leitores”, confessa Colin, eleito no último prêmio HQ Mix o melhor quadrinhista nacional do ano de 1994.

A arte estilizada de Colin. Identidade própria.

Luiz Gê é o cartunista atual com a obra mais autoral do cenário nacional. Para ele, não é uma profissão de fé se manter como um visionário pesquisador da linguagem. “As investigações da linguagem alimenta o meu trabalho, que por sua vez só se sustenta justamente por causa do seu caráter de pesquisa”, diz Gê, que lançou no ano passado o álbum Território de Bravos, talvez a mais perfeita tradução gráfica da história de São Paulo. Gê morou na Inglaterra alguns anos, período no qual testou – e teve uma grande acolhida – o mercado externo.

“Considero que os quadrinhos são arte, e que ainda vai pintar um momento histórico aí pela frente no qual os artistas da HQ serão reconhecidos como tendo prestado uma contribuição tão grande quanto diretores de cinema”, diz Gê.

Flávio Colin voltou à moda com o lançamento no ano passado de Lampião e Mulher Diaba, uma preciosidade gráfica que parece beber da fonte do cordel e da xilogravura. Só parece. Não conheço as técnicas da xilogravura e também não tenho o cordel como referência”, diz Colin. “Eu apenas uso muita estilização no meu traço, que é concebido como acadêmico e depois é modificado”, diz.

Luiz Gê.

Já Luiz Gê se interessa por “todos os horizontes da linguagem”. É até por isso, admite, que seu trabalho às vezes se parece mais com um quadro em movimento, às vezes pende com mais força para a literatura. Não deve ser confundido com um pedante arauto do “quadrinho autoral”, embora essa seja sua melhor definição. Ele quer ver a profissionalização do mercado, quer que sua linguagem tenha também as possibilidades de ser trabalhada dentro de uma perspectiva industrial.

“Falta um capitalista que saiba tirar dinheiro disso”, explica. “O Angelí vendeu 120 mil cópias da revista Chiclete com Banana sem ter qualquer tipo de estrutura e, se houvesse alguém minimamente esperto, tiraria grande proveito disso”, acredita.

Colin concorda. “Nunca vivi exclusivamente de quadrinhos”, lamenta. “E eu acho que as HQ tem uma importância muito especial para o Brasil onde se lê pouco”, teoriza. “Trata-se de um texto enxuto, com imagem auxiliando a narrativa, o que o torna um manancial fantástico a ser explorado”, acredita.

"Tubarões Voadores", de Luiz Gê.

A geração de Colin, até pelo pioneirismo, sofreu muito mais para colocar suas obras nas bancas. Jayme Cortez. Guttenberg Monteiro, Júlio Shimamoto, Walmir Amaral, Getúlio Delfim e André LeBlanc abriram a picada. Atualmente, quem trilha esse caminho com garra e até certo comercial são Angelí, Glauco, Laerte (talvez o mais curioso de todos). Adão Iturrusgarai e outros. Ninguém  sucedeu ninguém, cada um briga por um espaço bem pessoal.

Flávio Colin e Luiz Gê, dois cartunistas brasileiros. Um que assistiu e até desenhou para revistas o nascimento da primeira série de TV nacional, o Vigilante Rodoviário, soube se reciclar e manter sua arte na linha de frente. O outro ajudou a criar e recriar a moderna HQ brasileira.

Dois sujeitos que ajudaram a subverter o conceito do que seja ou não seja arte. Se é que alguém ainda duvida de que quadrinhos sejam arte.




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