domingo, novembro 13, 2016

SAIU NOS JORNAIS

DESENHOS DE DEODATO E LEO ULTRAPASSAM FRONTEIRAS
(Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo em 21 de maio de 1995)

Gabriel Bastos Junior

Eles produzem na França, a meca dos quadrinhos adultos, e para os EUA, o paraíso dos super-heróis

Deodato Borges Filho, agora internacionalmente conhecido como Mike Deodato.

Deodato Borges Filho e Luís Eduardo Oliveira são dois quadrinhistas brasileiros que tem em comum o fato de terem quase desistido de fazer quadrinhos pelas dificuldades de se publicar e viver desta atividade no país. O primeiro é Mike Deodato, desenhista exclusivo – a partir do mês que vem – da Marvel Comics, maior editora de quadrinhos do mundo, para a qual vai trabalhar nos títulos Os Vingadores (esboços) e Thor (desenho e arte-final). Seu trabalho em Mulher-Maravilha triplicou a vendagem da revista nos EUA e foi elogiado por Frank Miller. O segundo é Leo, autor do álbum de ficção-científica Aldebaran, sucesso de crítica na Europa, publicado ano passado pela Dargaud, maior empresa de HQs adultas na França, que deve lançar o segundo livro da série ainda este ano.



A situação de trabalho dos dois é completamente diferente. Deodato continua morando em João Pessoa (Paraíba), onde seu pai foi um dos precursores dos quadrinhos. Recebe os roteiros traduzidos pelo estúdio  Art & Comics e envia o trabalho pronto via correios. Leo mora em Paris há 14 anos. Tem contato direto com os editores e circula por diversos salões de quadrinhos em toda a Europa, promovendo Aldebaran, seu primeiro trabalho autoral.

Luis Eduardo Oliveira, o Leo.

Os dois países tem visões bem diferentes com relação aos quadrinhos. A França é a meca dos quadrinhos adultos, dos trabalhos sofisticados e dos artistas intelectuais. Os EUA são o paraíso das HQs de super-heróis, do processo industrial e dos gibis adolescentes. Durante as décadas de 60 e 70, a escola europeia dominou a criatividade nos quadrinhos. Agora o eixo parece ter retornado aos EUA, na chamada produção independente. “Acho que houve um excesso de experimentação na década de 70”, avalia Leo. “Com a crise econômica dos 80, as editoras ficaram com medo de inovar e passaram a só publicar autores consagrados, ou pelo menos de estilo tradicional.”

Mesmo assim, o prestígio da bande dessinée ainda é maior do que dos comics. “Quadrinho é hiperpopular nos EUA, é que nem futebol aqui”, compara Deodato. “Mas como arte não tem a mesma força que na Europa.” Mas o próprio Deodato reconhece que, em geral, a produção americana anda muito ruim. “A maior parte do que se faz de super-herói é lixo”, diz. “Se a Marvel deixasse de publicar 80% de seu material, isso não faria a menor falta, a não ser para o bolso deles”, admite.


Deodato não facilita nem ao falar de Vingadores, um dos títulos em que está trabalhando. “O texto é péssimo”, critica. Por que então continuar desenhando esse tipo de material? “Estou me submetendo a esse horror até poder escolher o que fazer”, admite. Além disso, Deodato tem uma relação pessoal com os super-heróis, um “trauma de infância”, como ele mesmo brinca. “Sei que é ridículo, mas meu sonho é desenhar o Capitão América”, confessa rindo.

Deodato defende a riqueza dos quadrinhos apesar de reconhecer a baixa qualidade da produção americana. “Tem muito lixo, mas a linguagem é perfeita”, diz. Segundo o desenhista, a HQ pode ter, atualmente, uma penetração menor que literatura e cinema, por exemplo. Mas, como forma de arte, é tão importante quanto qualquer outra.




O reconhecimento que as HQs começam a ter nos EUA foi alcançado na Europa há algumas décadas. “Nos anos 40 havia a ideia de que quadrinhos eram nocivas para as crianças, que impediam de ler literatura de verdade”, lembra Leo. “Hoje os autores mais conhecidos são respeitados intelectualmente”, diz. “Os mais famosos, como Hergé (Tintin) e Uderzo (Asterix) chegam a ser venerados.”

É claro que este prestígio foi conquistado com a inventividade, mas não se diluiu nesta nova fase em que as editoras são controladas por administradores, “caras novos, pragmáticos, que querem inovação cultural com limites financeiros”, diz Leo. Quanto à linguagem, ele acredita que ainda haja muito a ser explorado. “É uma forma de expressão nova que foi desprezada por muito tempo e só recentemente conquistou o respeito devido”, acredita. “A experimentação da década de 70 foi apenas um ponto de partida”.


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