sábado, novembro 19, 2016

SAIU NOS JORNAIS


A FAMA, DISTANTE DOS ARTISTAS MASCARADOS
(Sem identificação de data e jornal que foi publicado originalmente)

Rosane Pavam

São muitos os desenhistas das grandes editoras nacionais de histórias em quadrinhos. De suas penas saem as artes de personagens que vão de Pato Donald a Xuxa. Mas em geral, eles não são conhecidos do público.

Carlos Edgar Herrero, criador do Morcego Vermelho, tentou voar sozinho,
mas voltou a Disney.

Walter Elias Disney (1901-1966) assinou em seu nome 4.300 páginas que Carlos Edgar Herrero produziu. O desenhista brasileiro, 46 anos de idade e 30 de profissão, jamais se revoltou com isso. Afinal, a marca Disney deu-lhe traço seguro e tranquilidade financeira, à semelhança do que ocorreu com outros desenhistas em todo o mundo. O Brasil tem centenas desses artistas “mascarados”. As grandes editoras não estão habituadas a identificar os autores das histórias, embora essa atitude comece a mudar, lentamente. Ainda assim, o anonimato parece ser o parceiro mais frequente dos criadores de estúdio do País.



Edgar Herrero é um caso exemplar. Ele começou a desenhar os personagens da Disney aos 17 anos. Na década de 70, conheceu o visual e grande parte do caráter do Morcego Vermelho, a identidade batmaníaca do atrapalhado Peninha. Morcego Vermelho, um herói que trocava de roupa na lata do lixo, é uma criação brasileira. O trabalho fez muito sucesso, entre crianças e adolescentes, mas dificilmente seus fãs saberão dizer quem foi seu idealizador.

COM TÉCNICA, SEM ESTILO – Após dedicar duas décadas ao universo dos patos, Herrero decidiu arriscar em seara nova, abrindo seu próprio negócio. Montou uma agência de publicidade e começou a desenhar tipos de sua autoria, como o Lobisomem, e a desenvolver projetos em livro. Passou dez anos assistindo ao “pré-desânimo” das editoras com o quadrinho nacional. Agora ele voltou à rotina Disney e garante que está muito feliz. “Quadrinho é uma cachaça. Vou continuar criando e supervisionando as criações na Abril Jovem. Gosto de fazer o humor das bananas, o humor corinthiano, o humor do Brasil”.



Editoras como a Globo e a Abril Jovem e os estúdios que trabalham para essas companhias empregam dezenas de roteiristas e desenhistas. Usualmente, os criadores não ficam nas redações, trabalham em casa, livres da “asfixia” da produção. Os mais jovens, embora reconheçam que aprendem nos grandes estúdios, querem ganhar asas como Frank Miller, o criador norte-americano. Outros, habituados a rígidos padrões de desenhos e roteiro, rendem-se à constatação de que afinal, não tem estilo – apenas possuem a técnica que o estúdio lhe impôs.

Miyaura acha que qualquer desenhista gostaria de ser um Maurício de Sousa. Mas os irmãos Munhoz, Rosana e Roberto, não se rendem e ousam criar um estilo próprio.

“É claro que qualquer desenhista aqui vai dizer que seu sonho é ser Maurício de Sousa”, diz o chefe de arte da Disney brasileira, Euclides Kiyoto Miyaura. Ele entrou na editora Abril como aprendiz de desenhista, aos 13 anos, numa escolinha para talentos que a editora montou durante um breve período. Rapidamente revelou a especial habilidade de desenhar Pato Donald, o darling dessa usina. Está na editora há 18 anos, ganhando, como seus companheiros, um salário fixo e um adicional por produção excedente.

“O leitor sabe o que é um mau desenhista, mas no que se refere a Disney, ele não identifica estilos. Ninguém fora daqui sabe dizer o que eu faço. Até hoje, em sua maioria, o público pensa que tudo o que lê nos gibis vem dos Estados Unidos”. Cerca de 60 por cento do material Disney editado no Brasil é feito aqui mesmo. Margarida, Urtigão e Zé Carioca são produtos “nacionais”. No ano passado, foram 1.800 as páginas produzidas no País; neste ano, a projeção é que cheguem a 2.300, segundo o diretor da Redação da Abril Jovem, Julio de Andrade.




RESIGNAÇÃO E OUSADIA – Esta submissão dos artistas ao trabalho nos estúdios é facilmente explicada pelo mercado de quadrinhos no Brasil, pouco diversificado. Os habitantes desta terra arriscam pouco no que se refere a HQ. Para o grande público, interessa ler, basicamente, as aventuras da turma da Mônica, do Tio Patinhas e do pessoal que ele vê na TV (Gugu, Chaves, Sérgio Malandro, Xuxa). “Nos EUA, o arte-finalista de um Bill Sienkiewicz (Demolidor) pode sonhar em se tornar um artista. No Brasil, o arte-finalista de grandes estúdios tem pouca chance de ver seu nome crescer”, acredita Laerte, um dos importantes autores brasileiros que jamais puseram os pés num grande estúdio de HQ.



“O trabalho necessário e corajoso de gente como Henfil e Angeli abriu campo para nós”, acredita Herrero. Seus jovens companheiros de profissão, como os irmãos Rosana e Roberto Munhoz, concordam que a ousadia de criar por conta própria é fundamental. Rosana tem 27 anos e desde os 11 frequenta os estúdios de Maurício de Sousa. Confecciona roteiros e desenhos para todas as revistas do grupo, com destaque para Mônica, Magali e Chico Bento. Trabalhou com animação e em 1989 ganhou o prêmio revelação em quadrinho adulto no Salão Internacional de Humor de Piracicaba. “Há dois anos trabalho sozinha, para cultivar estilo próprio. Começo a acreditar que existe opção de mercado para o que fazemos. É preciso, a um tempo, sobreviver e investir”.


Rosana não sente que o aprendizado com Maurício a impeça de desenvolver esse “estilo” tão ambicionado. Seu irmão Roberto, de 24 anos, concorda com ela. Acha até que o nome do quadrinhista não deve ser creditado nas histórias de Maurício, que “afinal, criou os personagens. Além disso, lembra que, no caso dos tipos licenciados, há muitos meandros de produção que alteram sua concepção de roteiro. Assinar um produto final com o qual ele poderia discordar o assusta um pouco. Roberto escreve argumentos para Chaves, Xuxa e Sérgio Mallandro. Associou-se à irmã na empresa Cartum Produções Artísticas, que assinará muitas histórias de Chaves. Seu ídolo confesso é Alan Moore (V de Vingança, Monstro do Pântano). A qualidade do trabalho do roteirista inglês – ele acredita – sequer pode ser igualada por aqui. Mesmo assim, Roberto quer obter um nível ao menos compatível com em trabalho. “Faço quadrinhos por amor; tenho tempo para me aperfeiçoar. Dinheiro vem depois”.



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