domingo, novembro 20, 2016

SAIU NOS JORNAIS


MARCHA, SOLDADO, CABEÇA DE PAPEL
(Sem identificação de autor e jornal que foi publicado originalmente, em 05 de Setembro de 1990)

M.A.

Ordinário, marche! Meia-volta, volver! Se metade dessas ordens no quartel Swampy fosse acatada, o Recruta Zero não festejaria os 40 anos à sombra, com água fresca.

Mort Walker

O Pentágono já mobilizou grande parte do seu potencial bélico para a região do conflito Iraque-Kuwait. Nos últimos 40 anos tem sido assim. As “forças de paz” ficam alertas onde quer que o interesse norte-americano seja posto em cheque. Vide Coréia, Vietnã, Nicarágua, El Salvador... Todavia, uma base pantanosa perdida para os burocratas do US Army permanece alheia a toda essa movimentação: o quartel Swampy, lar-doce-lar do Recruta Zero (Beetle Bailey) – a terceira tira mais lida do planeta, atrás apenas de Belinda (Blondie) e Miduim (Peanuts).

A alienada caserna segue uma agenda de marchas forçadas, escavações de trincheiras, faxinas e trivialidades marciais desde o toque de despertar até o pôr-do-sol, quando os soldados rasos travam batalhas sangrentas com seus superiores para obter um passe e frequentar os bailes da cidade vizinha. Zero, o sardento de cabelos espetados e olhos ocultos sob o quepe, é recruta há 39 anos. Mas sua carreiras nos quadrinhos começou no dia 4 de setembro de 1950, como universitário, numa tira desenhada por Mort Walker e distribuída para somente uma dúzia de diários, apesar das ótimas referências dadas pelo magnata da imprensa William Hearst.


Walker, então com 27 anos, inspirou-se no seu universo estudantil para mostrar a insípida vida acadêmica de um aluno preguiçoso e desinteressado. Não era de todo ruim; entretanto não caiu nas graças dos leitores nem dos editores. Como derradeiro suspiro, veio a reformulação, no ano seguinte: Zero entraria para as fileiras do exército. E não sairia mais.

Novamente o autor foi beber nas fontes da memória para recriar no papel a fauna fardada com que conviveu. Quindim, o terror das mocinhas, Roque, o rebelde sem causa; Platão, o intelectual e Dentinho, o caipira turrão, não ostentam divisas. Teoricamente, obedecem. Já Tainha, sargento gordo e emburrado; Escovinha, tenente em eterna fase de auto-afirmação e Dureza, general de uma estrela (a cadete), estão no time dos oficiais. Em tese, eles dão as cartas.


Da equipe de Mort Walker, pode-se esperar de tudo (Dick Browne, criador do viking Hagar era um dos ativos colaboradores). A irreverência no tratamento dos altos comandos valeu ao Recruta Zero, em 1954, o cancelamento do contrato com o magazine Stars and Strips, editado pelas Forças Armadas – o que causou polêmicas e jogou a opinião pública a favor da HQ. Este ano, Zero voltou a incomodar. Um trocadilho entre bolo e bumbum fez o batalhão todo interpretar uma ordem à sua maneira e mostrar as nádegas para o sargento Tainha. A gague, claro, foi substituída por uma versão soft pelo King Features.


A versão brasileira do recruta não tem uma história muito regular. De Zé, o Soldado Raso, nos anos 60, a Sargento das Trevas (paródia de Frank Miller), em novembro de 1989, o personagem passou pelas mãos de quatro editoras. Sua nova fase, mensal, está na 14ª revista. Para o mês de outubro, está programado um almanaque especial onde, garantem os autores, o rapaz vai revelar ao mundo a cor de seus olhos. Se depender do sargento, eles ficam roxos o tempo todo.




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