sábado, novembro 05, 2016

SAIU NOS JORNAIS

CREPAX DESENHA PSIQUE
DE SEUS PERSONAGENS
(Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo em 21 de maio de 1995)

Jotabê Medeiros

O criador de Valentina, ‘donna emancipata’ que ele diz ter sido inspirada em sua própria mulher, não busca aventuras fora de casa e encontra na psicanálise de Freud uma influência marcante

Guido Crepax e sua musa inspiradora. 

Já disseram que Guido Crepax é o Godard dos quadrinhos. Não é mero jogo retórico: se há alguém que merece esta comparação, com todas as implicações que ela traz, este alguém é o milanês Crepax, conhecido no mundo todo como o autor da célebre Valentina.

Guido Crepax radicalizou a experimentação visual no meio HQ. Com um traço barroco, ele começou a usar a diagramação das páginas para quebrar o formato estabelecido pela tira americana. Outra inovação foram suas visitas ao mundo dos autores clássicos, como Sade, Masoch, Bram Stocker, Henry James e outros.

Criou um mundo de mulheres de papel que é celebrado dos banheiros dos bares às teses de cátedra universitária. Ele criou Valentina há 30 anos no ano de 1965, auge da dolce vitta italiana, Lábios entreabertos, olhar sonhador, Valentina Rosseli trouxe a revolução feminina para os quadrinhos.



Quando o telefone toca em Milão, o filho Giácomo atende. “Sim, eu sou Crepax, mas você deve estar querendo falar com meu pai”. Mais uns minutos e ele atende, a voz cansada, mas ao mesmo tempo afável. Sogro de um arquiteto brasileiro, ele demonstra saber bastante sobre o Brasil. É um mito ao telefone, mas não se comporta como tal. Fala de tudo, de Valentina, de violência, da pintura e de Freud, sua grande obsessão.

CADERNO 2 – Por que o erotismo é tão forte no seu trabalho?

GUIDO CREPAX – É um ingrediente importante, mas não gosto que destaquem apenas este aspecto. Sei que ele é muito forte em Justine, que é uma adaptação direta de Sade, mas não me agrada o argumento de que o desenho é o mais importante no processo narrativo. Quando vou em busca do Marquês de Sade, eu faço como quem procura salientar a filosofia de Sade, seu universo de pensador do século 18, das raízes do iluminismo francês.

CADERNO 2 – Por que você trabalha quase sempre com a técnica do chiaro-scuro?



CREPAX – Eu penso que o desenho deve ser preciso, deve poder chamar a atenção para a particularidade. Daí porque uso muito o contraste entre o branco e o negro e também porque uso bico de pena. Mas eu não sou um pintor, absolutamente, jamais tive a pretensão de ser um pintor.

CADERNO 2 – Então você não crê que os quadrinhos sejam uma forma de arte?

CREPAX – Sim, os quadrinhos são uma forma de arte. É besteira não achar que o desenho é arte. Os desenhos de Leonardo da Vinci – que, aliás, me inspiram muito – são quase tão belos e extraordinários quanto sua pintura. Admiro também pintores como Francis Bacon.

CADERNO 2 – O que você faz atualmente?

CREPAX – Bem, eu continuo a fazer a Valentina, mas meu trabalho agora se constitui basicamente na publicidade. Trabalho para a companhia Honda de automóveis, fazendo campanhas e ilustrações para objetos promocionais. Não é uma novidade isso, faço publicidade há 40 anos e antes de desenhar eu já fazia mais comerciais do que hoje. Sou arquiteto, mas há muitos anos não trabalho mais nisso, a única relação com a arquitetura hoje eu tenho através do meu genro, que é brasileiro e arquiteto. É casado com minha filha Caterina. Gosto de ver o que se faz em arquitetura, mas só como um apreciador.

CADERNO 2 – Como é sua família? Como o senhor vive em Milão?



CREPAX – Bem, eu sempre vivi em Milão. Tenho três filhos: Giácomo, Caterina e Antonio. Destes, Antonio é o único que faz uma atividade totalmente diversa: é relações públicas. Os outros fazem coisas relacionadas com arte. Minha mulher, Luiza, foi quem me inspirou a Valentina, a personagem é um pouco como ela. Viajei muito, mas hoje, com 61 anos, não gosto de me ausentar. Meu genro sempre diz que São Paulo é muito parecida com Milão, no afã produtivo. Mas ouço falar muito na violência do Rio de Janeiro.

CADERNO 2 – A violência o preocupa muito?

CREPAX – Muito. É algo que me faz profundamente triste. Vivemos como se estivéssemos em guerra, mas nem a Segunda Guerra Mundial causou tanto estrago e tantas mortes quantos estes conflitos atuais. São coisas profundamente estúpidas, como esse atentado em Oklahoma, não há motivações que o expliquem. Mas realmente não é alegre esse nosso mundo, nem nunca foi alegre.

CADERNO 2 – Suas histórias são repletas de delírios oníricos. A psicanálise é uma influência muito marcante?

CREPAX – Muito. Freud é uma influência totalmente forte, já que minhas histórias se passam sempre na mente dos personagens, não são nunca aventuras. Nisso sou muito diferente de Hugo Pratt. Como ele, sou atraído pelo mistério, mas os mistérios do inconsciente, até porque eu me movo pouco, quase nunca viajo e tampouco minhas personagens. Mas veja, eu me interesso pela psicanálise como um diletante, um observador leigo.

CADERNO 2 – Outra referência forte é a literatura. Quais são seus autores preferidos?

CREPAX – É uma lista imensa, mas eu posso destacar com certeza Herman Melville, Thomas Mann, Kafka e Edgar Allan Poe, de quem adaptei Os Crimes da Rua Morgue. Fiz também adaptações da História D’O, de Dr. Jeckyll e Mr. Hyde, do Drácula de Bram Stocker. Boa parte destes álbuns foi publicada no Brasil por duas editoras, A L&PM, no sul, e a Martins Fontes. Criei especialmente para a L&PM, uma adaptação de Casanova com mais sete desenhistas, entre eles o brasileiro Miguel Paiva. Foi uma experiência interessante.

CADERNO 2 – Já o cinema não parece atraí-lo muito...

CREPAX – Gosto do cinema. Três das minhas histórias já foram filmadas, e Valentina tem sido personagem de algumas adaptações para a TV. Eu aprecio muito, imensamente, o filme 2001, Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick.



CADERNO 2 – Como surgiu a Valentina?

CREPAX – Bem, posso lhe dizer que me inspirei na minha mulher, Luiza, há 30 anos, para criá-la. Inventei um nome para ela, que era uma mulher diferente daquelas que conhecíamos na Europa naquela época. Era uma “donna emancipata” ou, como se diz aí no Brasil, “uma mulher liberada”. É uma mulher sonhadora, e ela é um pouco o meu inconsciente. É uma fotógrafa free lancer, e vocês a conhecem melhor que eu.

CADERNO 2 – Milo Manara faz também um quadrinho erótico. Você gosta dele?

CREPAX – Gosto dele, mas gosto mais do Hugo Pratt (Corto Maltese). Gosto também de Dino Bataglia, um dos melhores de todos, do argentino Munoz, de Moebius. De Bilal, Tanino e Liberatore (Ranxerox).



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