domingo, novembro 27, 2016

SAIU NOS JORNAIS


‘PIRATAS’ TRAZ O DEBOCHE
DE LAERTE EM GIBI
(Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo em 14 de maio de 1990)

Rogério de Campos


Finalmente a editora “Circo” lançou uma revista mensal só para o Laerte. O primeiro número de “Piratas do Tietê”, tem 44 páginas, em preto e branco, um formato diferente (26 x 17 cm) e custa Cr$ 90,00. Laerte Coutinho, 38, estreou na revista “Balão”, que no início dos anos 70 revelou Luiz Gê, Angeli, Paulo Caruso e outros. Depois da “Balão”, Laerte ficou cerca de dez anos trabalhando como cartunista, só voltando a se dedicar aos quadrinhos há quatro. Atualmente, também escreve roteiros para o programa “TV Pirata”. Em entrevista à Folha, ele diz que deixou de fazer charges para sindicatos porque os diretores eram “autoritários”.

FOLHA – “Piratas do Tietê” apresenta personagens que perderam seu dinheiro aplicado na poupança, um casal e seus problemas com a gravidez. Você não acha que esses temas são distantes dos adolescentes, o público habitual das outras revistas da editora Circo, como “Chiclete com Banana”?



LAERTE – Eu também tenho a impressão que meus leitores são mais velhos. São os pais dos leitores da “Chiclete com Banana”. Mas todas as vezes que pensei em fazer algo em função de um determinado público, eu me danei. “Palhaços” (publicado na Circo nº 7) foram personagens com quem aconteceu isso. Eu fiz a primeira história e pegou muito bem. Fiquei entusiasmado e resolvi fazer a segunda. Mas não deu certo. Percebi que os Palhaços eram personagens de uma história só.

FOLHA – Se desenho se modificou muito a partir dos trabalhos publicados na revista “Circo”. Qual foi a razão dessas mudanças?


LAERTE – Eu comecei a desenvolver o negócio de fazer quadrinhos com as coisas que eu gostava de ver nos quadrinhos. Desenvolver cenários, a narrativa, o movimento. Coisas que meu trabalho anterior não tinham por que eu era um desenhista de cartuns. Retomei na "Circo" aquelas coisas que eu fazia no início dos anos setenta na “Balão”. Coisas que eu havia deixado de lado quando fui trabalhar na imprensa sindical, quando meu trabalho ficou limitado.

FOLHA – Você trabalhou muito tempo na imprensa sindical, como foi essa experiência?


LAERTE – Tem pontos positivos no trabalho para a imprensa sindical. A resposta, que é quente, vem na hora. Por outro lado, você tem em cima toda a diretoria do sindicato, que é super confusa, muito autoritária. Cismam com qualquer coisa. Naquele tempo eu me sujeitava a isso, achava que aquilo era uma missão. E depois chegou um momento em que eu decidi só repetir os desenhos, por que era sempre as mesmas coisas. Se a comida do refeitório da fábrica tal é um lixo, eu já tinha na gaveta cinco charges de baratas na salada. Se chegavam para mim e pediam um desenho de passeatas eu só perguntava: “Quantos centímetros?”. Cansei. Agora sou mais eu, quero que o resto se exploda!

FOLHA – O formato da revista “Piratas do Tietê” lembra o formato da “Fradim”, do Henfil. Foi algo intencional?


LAERTE – A primeira razão para esse formato foi o desejo de fazer algo diferente. O novo pelo novo. Outra coisa é que assim ficou mais barata e terceiro por que lembra a revista “Fradim”. É mesmo uma homenagem ao Henfil.

FOLHA – Você já tem pronta a próxima história dos Piratas?


LAERTE – Tinha uma com um roteiro complicado, que falava do FMI, Banco Mundial e um financiamento para a despoluição do rio Tietê. Mas achei que a história estava ficando sufocada no meio de tudo isso. Tenho pensado em algumas coisas nos últimos dias e acho que finalmente consegui chegar a uma conclusão sobre o modo como operar a coisa. Agora tenho que sentar e trabalhar.


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