sexta-feira, dezembro 23, 2016

ARTIGO


CHET
UMA AVENTURA DE TEX AO CONTRÁRIO
(Publicado originalmente no livro “O Mocinho do Brasil”, Editora Laços)

Gonçalo Júnior

Uma das principais curiosidades sobre o êxito editorial de Tex no Brasil foi a publicação do mocinho Chet, criado em 1979 e que ganhou revista própria a partir de maio de 1980. Por incrível que pareça, muitos leitores que acompanhavam os dois personagens jamais se deram conta de que o nome Chet era Tex escrito ao contrário e com a letra “X” trocada por “Ch”. Mesmo porque o nome do personagem realmente fazia parte da nomenclatura anglo-saxão.

A origem do nome surgiu de uma conversa do vice-presidente da Vecchi, Lotario, com o editor Otacílio Barros; a editora pretendia publicar um personagem de faroeste nacional que tinha nome definido: Lassiter. Lotario, então, perguntou se não seria o caso de que tivesse um apelido que fosse o mesmo de Tex, só que invertido, como lhe sugeriu um sobrinho.



Barros levou a ideia a sério e o personagem ganhou uma bem-sucedida série, através dos irmãos pernambucanos Wilde e Watson Portela. Sem deixar de situar o herói no oeste selvagem americano da mesma época que Tex, a dupla estabeleceu um estilo com aventuras na linha do justiceiro cabeça quente que faz de tudo para defender o bem e a justiça.

Wilde, claro, colocou uma boa pitada de brasilidade: belas mulheres e relacionamentos intensos que muitas vezes acabavam na cama. O contexto da época em que a revista saiu é muito importante nesse sentido. Em 1980, a censura do regime militar liberou o nu frontal em revistas e no cinema e uma onda avassaladora de revistas de sexo tomou de assalto as bancas. Essa era a grande diferença em relação ao romântico Tex, cujo grande amor da sua vida, a índia Lírio Branco (ou Lilyth), jamais foi substituído.


Chet Mackee é um fazendeiro que teve toda a sua família massacrada por um grupo de fora-da-lei. Ele só não morreu porque estava ausente. Apenas o sobrinho Rick sobreviveu, ferido no ombro. Seu melhor amigo é Blue, um mestiço que cultiva um enorme bigode e gosta de brigas e de conquistar mulheres. Após cuidarem do garoto, os três partem em busca de vingança. Como todo herói, Chet é rápido no gatilho e sempre leva a melhor contra seus adversários.



Em maio de 1980, Chet se transformou em revista mensal e virou uma das mais intensas experiências dos quadrinhos brasileiros. Com a parceria de um pequeno grupo de ilustradores, Wilde mostrou fôlego e talento para escrever quase uma centena de páginas todos os meses. Embora seu personagem não fosse dos mais originais, seus roteiros tinham um nível que não fazia feio.

O número um, Os Renegados, é uma pequena obra-prima desenhada por Watson e Eduardo Vetillo, com uma capa inesquecível de Ofeliano de Almeida – que fizeram o herói estrear nas bancas em grande estilo. Para comemorar o primeiro aniversário da revista, em 1981, Otacílio reuniu os capítulos publicados em Ken Parker e lançou o especial Desejo de Vingança, também com Ofeliano como capista.


Chet circularia por vinte e dois meses – parou em setembro de 1982, na aventura Os Proscritos – com tiragem de respeitáveis vinte e cinco mil exemplares por edição, suficientes para cobrir a produção e dar lucro. Era o auge da crise financeira da editora, principal motivo para o fim da revista. Wilde ainda tentou dar continuidade à série em Portugal, mas não conseguiu liberação da Vecchi, que faliu poucos meses depois do fim da revista. Criou então, com Roberto Câmara, um outro mocinho, Grafer, que jamais foi publicado no Brasil.

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