sexta-feira, dezembro 09, 2016

SAIU NOS JORNAIS


CHEGARAM AS MUSAS LOCAS DE LOVE & ROCKETS
(Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, em 07 de agosto de 1991)

Marcel Plasse

Em entrevistas ao Caderno 2, Jaime e Gilbert Hernandez, criadores de LOVE & ROCKETS, o primeiro e mais influente gibi pop dos anos 80, falam de suas personagens e da cultura punk.


Os bros. Hernandez nasceram e cresceram na Califórnia, mas raras vezes incluíram praias no cenário de suas histórias. Gilbert, Mario e Jaime eram punks sem futuro no início dos anos 80. Até chamarem a atenção do Comics Journal, publicação sobre quadrinhos, com sua revistinha caseira, com tiragem de 800 exemplares, Love & Rockets. A editora do Journal decidiu publicá-los profissionalmente, e suas personagens desvairadas viraram musas, ganharam as ruas em camisetas e os quartos pôsteres como cantoras famosas de rock. Love & Rockets mudou a face dos gibis para sempre. Dez anos depois, a revista está sendo lançada no Brasil pela Editora Record. Chega às bancas na sexta-feira.

Muita coisa mudou com os anos 90. Os foguetes, referência às aventuras em ritmo de ficção científica, dos primeiros números, perderam definitivamente sem combustível para os dramas nada fantasiosos de amor. Os cabelos de suas punketes cresceram. Mas o status de cult nunca foi perdido. Love & Rockets foi o primeiro gibi pop dos anos 80 – seu nome foi até roubado por uma banda de rock inglesa -, e o mais influente. Continua obrigatório, com suas referências a rap, gangues e à cultura de rua do sul da Califórnia.


Mário pulou do foguete há algum tempo, mas as histórias de Jaime, as únicas já publicadas no Brasil, nas páginas da revista Animal, sobre adolescentes chicanos rebeldes, quebram cada vez mais preconceitos, e Gilbert não se cansa de ganhar prêmios como o melhor escritor de quadrinhos da América – ganhou dois Harveys, o Oscar da HQ, consecutivos os últimos anos -, descrevendo um mundo imaginário, influenciado pelo filme Orfeu Negro. Em entrevistas por telefone ao Caderno 2, Jaime e Gilbert, que hoje vivem em cidades diferentes, falaram de amor, mulheres marcantes, punk rock e sua vontade de passar um carnaval no Brasil.


CADERNO 2 – Maggie, Hopey e as demais personagens da série LOCAS parecem muito reais. Elas são baseadas em pessoas que você conhece?

JAIME HERNANDEZ – São uma combinação de pessoas diferentes. Um pouco da personalidade delas vem de pessoas que conheço, mas os detalhes – um corte de cabelo, uma atitude cool matadora -, são de gente que vejo na rua.

CADERNO 2 – Por que quase todas suas personagens são femininas?

JAIME – Bem, há uns caras no meio. Prefiro garotas, em parte porque as mulheres nunca foram bem tratadas nos quadrinhos – nem no cinema, por sinal. Meu desejo é trata-las justamente.

CADERNO 2 – As personagens refletem suas mudanças de estilo? Quer dizer, você já foi punk e agora tem o cabelo comprido?


JAIME – Eu apenas deixo o cabelo das personagens crescerem. O meu ainda é curto, mas uma porção de pessoas que foram punk no início dos anos 80 tem agora cabelo comprido. Nem tudo na revista reflete o meu gosto. O que ocorre é que eu tento me manter em dia com as mudanças comportamentais.

CADERNO 2 – Você criou Maggie e Hopey como versões alternativas de Betty e Veronica (dos gibis e desenhos de Archie)?

JAIME – Não. Esse não era o plano. Mas eu li Archies, e aí acabou rolando. A razão porque eu criei personagens adolescentes tem a ver com o fato de eu estar escrevendo sobre minhas próprias experiências – eu era adolescente.

CADERNO 2 – Você já imaginou Betty namorando Verônica?


JAIME – Não, porque Archies tem limitações. O bom na nossa revista é que ela não tem.

CADERNO 2 – Como a amizade delas se transformou em atração sexual?

JAIME – Um pouco pela decadência dos kids de hoje, que se transporta para o amor também. Punk rockers fazem coisas por diversão e para chocar. Não é fácil dizer que sentem um amor verdadeiro. Nada é unidimensional na revista. Apenas elas sabem o que sentem com certeza.

CADERNO 2 – Como a cena rap e as gangs de Los Angeles mixam com Love & Rockets

JAIME – Apesar de ser uma coisa que muita gente tenta ignorar, as gangs e o rap estão lá fora. Isso é o que os kids estão fazendo, é o novo punk rock.

CADERNO 2 – Os foguetes se foram. E o amor?

JAIME – O amor vai estar sempre lá.


CADERNO 2 – Mas, nas suas histórias, todos parecem ter um coração partido.

JAIME – Sou apenas eu torturando minhas personagens. Apesar de parecer, às vezes, não acho que nossa revista seja sobre destruição. Há sempre esperança.

CADERNO 2LOCAS são o espelho da juventude de L.A.?

JAIME – Refletem basicamente o sul da Califórnia. Eu cresci a uma hora de L.A.; agora, vivo aqui, em Oxnord. É o sul da Califórnia que eles não mostram nos filmes. Há todo tipo de cultura aqui, e só o que transparece são as pessoas na praia. Quando um filme trata de mostrar as minorias, são sempre gangues que aparecem. E nem todas as minorias da Califórnia estão nas gangues, entende?

CADERNO 2Hopey é a rebelde definitiva?

JAIME – Ela também tem suas fraquezas. Cresceu na upper class, teve tudo o que queria quando criança. De certo modo, ela é um moleque mimado. Nenhuma das personagens são tão perfeitos quanto gostariam.


CADERNO 2 – Como suas personagens não viraram junkies?

JAIME – Alguns são, outros não revelam, mas são. Preferi não ligar as histórias com drogas porque nunca as consumi. Houve um tempo em que Maggie e Hopey eram speed freaks, mas isso hoje é só flash-back.

CADERNO 2 – Todas as suas personagens são chicanas. Você fala espanhol?

JAIME – Um pouquinho. Nasci nos EUA, mas meu pai veio do México. O inglês dele era muito ruim, e, como não queria que crescêssemos como ele, nos fez estudar inglês muito antes de aprendermos espanhol.

CADERNO 2 – Hopey toca numa banda de rock. Você já fez parte de uma banda?

JAIME – De várias, mas não excursionei pelo país como ela. Acho que minhas personagens farão uma pequena gravação, tocarão em alguns clubes, mas nunca farão sucesso. Não é sobre superstars que eu escrevo. Só estou interessado em perdedores.

FILME “ORFEU NEGRO” INSPIROU REALISMO DE PALOMAR


CADERNO 2 – Você tem algum lugar em mente quando escreve sobre Palomar?

GILBERT HERNANDEZ – na verdade, muitos lugares. Palomar é um lugar imaginário, mas não específico, ao sul dos EUA, entre o México e a América do Sul.

CADERNO 2 – De onde vem o realismo fantástico que você aplica a seus roteiros?

GILBERT – Isso é só uma coincidência com a literatura latino-americana. Claro, meu background é chicano. Eu me interesso pela tradição oral e gosto de usar esse tipo de história, passada de geração a geração, sobre fantasmas e essas coisas.

CADERNO 2 – Você usa muitos flash-backs. Como o tempo funciona em suas histórias?

GILBERT – Quando fiz a primeira história de Palomar, criei muitos personagens, e ainda estou criando o passado deles, usando flash-backs. Geralmente pego um personagem legal e vou, pelo flash-back, mostrar como ele era mau antes. A ideia vem de O Poderoso Chefão 2. Sou muito mais influenciado por filmes que por quadrinhos ou literatura.


CADERNO 2 – Qual o filme que mais influenciou seu trabalho?

GILBERT – Um dos filmes que influenciaram a história de Palomar foi o Orfeu Negro, sobre o Brasil. Eu o vi quando era criança e fiquei imaginando como seria um país como o da tela. Na época, me parecia um tipo de mundo de sonho, como Hollywood deve parecer para o público europeu. Quis capturar aquela mágica e criar algo parecido.

CADERNO 2 – Por que você resolveu escrever uma série pornô como Birdland?

GILBERT – Minhas histórias em Love & Rockets estavam tão complexas e intermináveis que eu decidi fazer algo mais leve para relaxar. Tive a ideia de um sex comic alucinado. Na América há muito conservadorismo contra tudo que envolva sexo, e eu decidi me rebelar. Birdland não traz violência. Todos os quadrinhos de sexo daqui são violentos, nunca divertidos. As pessoas veem homens torturando mulheres e pensam que é ok, porque é só uma HQ, mas não pode ser assim. Os artistas precisam ter mais consciência.

CADERNO 2 – O novo trabalho de Alan Moore, Big Numbers, parece bem influenciado por seus quadrinhos. Como você vê o impacto de Love & Rockets?

GILBERT – Acho que muita gente acabou influenciada, como Alan Moore, mas é difícil de avaliar o impacto, porque nunca se sabe de onde os bons autores tiram sua inspiração – ao contrário do que ocorre com os maus. Acho que nossa contribuição foi ensinar as pessoas que elas não precisam escrever apenas sobre horror, crimes e super-heróis, e é possível fazer quadrinhos autobiográficos, falar de coisas que ocorrem de verdade a nossa volta.


CADERNO 2 – Seu trabalho e o de Jaime são bem diferentes. Você diria que escreve sobre adultos de cidade pequena, enquanto Jaime sobre garotos de cidades grandes?

GILBERT – Basicamente. Mas, agora, também tenho escrito sobre garotos americanos. Fiz alguns personagens de Palomar viajar para os Estados Unidos. Uma das razões por que decidi fazer isso e chamar a história de Love & Rockets é que todos pensam que Jaime é o autor do conceito que deu nome à revista. Há outro motivo também: uma banda inglesa roubou o nosso nome, e todos perguntam por que usamos o nome deles. Na minha nova história, uma banda americana queria se chamar Love & Rockets, mas não pôde, por causa dos ingleses.

CADERNO 2 – Qual sua expectativa em relação ao desempenho de Love & Rockets no Brasil?

GILBERT – Espero que se dê bem, porque vocês tem muitas mulheres bonitas aí, garanto. Pretendo dar uma passadinha aí num desses carnavais.


CADERNO 2 – Você e Jaime sempre dedicaram mais espaço às mulheres. Por que?

GILBERT – As pessoas costumam nos perguntar como conseguimos escrever tão bem sobre mulheres, já que, obviamente, não somos... Acho que isso se deve ao fato de termos sido criados por minha mãe – meu pai morreu cedo. Sempre fomos rOdeados por mulheres e, desde cedo, aprendemos que elas são muito mais interessantes que homens.

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