terça-feira, dezembro 13, 2016

SAIU NOS JORNAIS


GIBI EXUMA O VERDADEIRO HORROR AMERICANO
(Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, em 06 de junho de 1991)

Marcel Plasse

CRIPTA DO TERROR foi publicada nos anos 50 nos EUA pelo lendário William Gaines da editora E.C. A revistinha que virou cinzas na fogueira marcathista, é relançada agora e chega ao Brasil.

William Gaines

Houve mais do que marcianos e comunistas tirando o sono das criancinhas nos anos 50. E, agora, como num cartaz de filme de horror vagabundo, “aquilo” está de volta. Cripta do Terror exuma o horror que verdadeiramente abalou a América, os quadrinhos sangrentos da Editora E.C. A história é real e culminou em várias fogueiras através dos EUA, numa operação de caça às bruxas que transformou em cinzas as páginas hediondas editadas por William Gaines.


O começo e o fim da babilônia E.C. foi uma maldição de família. Ao morrer num acidente de barco, em 1947, Max Charles Gaines, o pioneiro que publicou a primeira revista de quadrinhos inéditos do mundo, Famous Funnies, e gibis com os super-heróis Lanterna Verde, Flash e Mulher Maravilha, além de HQ’s da Bíblia, deixou a seu filho William a editora Educacional Comics. William não demorou muito para perverter o sentido do logotipo, transformando a editora em Entertaining Comics. As histórias horripilantes começaram a jorrar em dezembro de 1949. Al Feldstein, um escritor artista contratado por Bill para atuar como editor de uma nova linha de gibis, trouxe sua paixão por narrativas de horror do rádio para as páginas destinadas às crianças.


Os três principais títulos da E.C. no começo dos anos 50 eram The Crypt of Terror, The Vault of Terror e The Hault of Fear, que traziam histórias introduzidas por apresentadores macabros. A primeira criatura a escapar da imaginação de Feldstein foi o Zelador da Cripta, desenhado por Jack Davis. O Guardião da Câmara era geralmente desenhado por Jack Kamen, e a Bruxa Velha não existia sem o traço de Graham Ingels. Enquanto os desenhos de Davis e Kamen ainda possuíam resquícios dos gibis da época, os de Ingels remetiam a ilustrações vitorianas, cheias de detalhes como galhos retorcidos e rugas, que conferiam uma aparência doentia e deformada a seus pesadelos de papel. Mesmo afastado dos quadrinhos há quatro décadas, seu estilo continua a pulsar nas tintas de seguidores como Sam Kieth (um dos criadores de Sandman) e Bernie Wrightson (um dos criadores de O Monstro do Pântano).


Cripta do Terror resgata ainda clássicos de Frank Frazetta, Wally Wood, Harvey Kurtzman e Reed Crandall. Em Dia de Praia, o melhor de Frazetta, a fase anterior às pinturas fantasiosas na linha Heavy Metal e Conan, surge na forma de pin-ups de dar inveja a Dave Stevens, o criador de Rocketeer. No Raiar do Dia traz uma inevitável blondie de curvas selvagens, na linha sexy ingênua, à Marilyn Monroe, que Wally Wood consagraria anos depois em sua fase pornográfica. Casa do Horror mostra um Harvey Kurtzman diferente de suas famosas paródias em Mad, numa HQ convencional de assombração.

O staff da E.C. era o melhor time de artistas dos anos 50. Mesmo assim, a editora inspirou mais inimigos do que fãs. Pais e professores reagiram violentamente contra os temas de suas HQs. O fundo do poço foi uma história chamada Foul Play, desenhada por Davis e publicada no número 19 de Haunt of Fear, em que um time de baseball perdedor se vingava das derrotas ao desmembrar um dos jogadores e usar partes de seu corpo, numa partida final. Em 1954, William Gaines foi chamado a depor ante uma comissão do Senado americano. No mesmo ano, um livro chamado Sedução do Inocente, escrito por Frederic Wertham, um psiquiatra, condenava os quadrinhos pela delinquência juvenil crescente. Não foi preciso mais para reunir as editoras rivais da E.C. em torno de um código de ética, que acabaria levando ao cancelamento de todos os títulos de Gaines.



A apoteose chegou à praça pública, com milhares de mães zelosas conduzindo seus filhos a queimas imensas de gibis ofensivos, e a boicotes de supermercados, farmácias e lanchonetes que vendessem quadrinhos. A tática funcionou. A indústria se retraiu como em nenhum outro momento em sua história. O desemprego foi imenso entre os criadores. Muitos artistas se impressionaram com a reação negativa ao seu trabalho. Houve casos de bebedeiras e mesmo suicídios. Mas todas as mães ficaram contentes.




As histórias coletadas em Cripta do Terror, o nostálgico título resgatado para o mercado nacional pela Record (disponível em scan no HQ Point), não são capazes de assustar crianças acostumadas a ver Freddy Krueger e Jason na TV americana por cabo. Tales from the Crypt, que tirou seu nome da segunda fase de Crypt of Terror. Quase 40 anos depois, o que era a pior coisa desde a peste negra é um sucesso de audiência e volta a circular nos EUA, em sua forma original, através da Editora Gladstone, que até recentemente era responsável pelos inofensivos gibis Disney. Um final feliz? Não para Wood, Kamen, Crandall, Ingels e tantos outros talentos queimados.

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