sábado, dezembro 17, 2016

SAIU NOS JORNAIS



BARBARIDADES DE UM PSEUDOCIMÉRIO
(Sem identificação de jornal – 30 de setembro de 1989)

M.A.

Sergio Aragonés 

Sergio Aragonés e Mark Evanier contam a saga de Groo, o nômade que se transforma em herói depois de dado como morto em confronto com o terrível dragão Floom-Floom.




A julgar pela demora, o leitor poderia pensar que o célebre andarilho criado por Aragonés chegou às bancas pelas próprias pernas. Na verdade, A Morte de Groo, primeira graphic novel de humor da Editora Abril, deveria ter sido lançada há um mês, mas a sua produção sofreu mais desastres que o protagonista da história. A Epic, subsidiária da Marvel, que detém os direitos do álbum, mandou para o Brasil o jogo de fotolitos incompleto, atrasando a impressão da revista. Tragédias à parte, esta é uma HQ hilariante, destinada não apenas ao público adulto, como pode sugerir à primeira vista. Os papais podem dar aos “baixinhos” sem susto.

                   

Groo é, provavelmente, o mais estúpido e ingênuo dos bárbaros que infestam os quadrinhos (e olhe que eles não são especialmente conhecidos pelo alto quociente intelectual). Seu “pai”, o espanhol Sergio Aragonés, passou a infância no México, foragido da guerra civil, que confirmou no poder o generalíssimo Franco. Depois de se formar em arquitetura (mais um) e de estudar mimica com Marcel Marceau, foi tentar a sorte em Nova Iorque, levando consigo o estigma cucaracha. E deu certo. Logo conseguiu publicar seus minúsculos cartuns superpovoados e cheios de detalhes absurdos na então emergente revista MAD. A primeira seleção desses trabalhos, transformados em livro de bolso, lhe valeu, em 1968, o título de Madiest of Mad.



A Morte de Groo não passa de uma grande brincadeira, que aproveita a onda necrófila que assola os universos de super-heróis Marvel-DC. O engodo é narrado por um sádico menestrel, Arcádio, cujo alaúde muda de acordo com o clima da história (no último quadrinho, o braço do instrumento estampa a caricatura dos autores). A tradução da edição nacional manteve o espírito da original e as rimas do trovador: “A igreja lotada, até nas janelas/Os pombos cantavam em revoada/Boca nenhuma parava calada/Pois Groo finalmente esticara as canelas”.


Nessa graphic, o sanguinário trapalhão está num reino onde sua cabeça (dura) foi colocada a prêmio, em consequência de uma burrada cometida no passado. Perseguido por toda a população, Groo é dado como morto após enfrentar o terrível Floom-Floom, dragão que espalha o terror pela região. Capaz de degolar um homem simplesmente por tê-lo chamado de subserviente – embora nem conheça o significado da palavra – o desastroso nômade até que não é má pessoa. Ao longo das 64 páginas, o argumento de Mark Evanier, parceiro de Aragonés nas desventuras do personagem desde 1982, explica como Groo se transforma em herói, provoca um naufrágio, uma inundação e, apesar disso, conquista o coração de uma apetitosa taberneira, bem ao estilo das cimérias descritas por Robert E. Howard em Conan.


Mesmo sem a presença sempre engraçada de Rufferto, o fiel cachorro que acompanha Groo em suas edições mensais, esta história, publicada há dois anos nos Estados Unidos, traz uma importante declaração da irmã do herói, Groella, durante o funeral: “Hoje eu me tornei o que sempre quis ser... filha única!”. Mas se no reino de Trundo Groo não cativa a simpatia geral, no mundo dos mortais o quadro se inverte. O personagem conseguiu um brilhante quinto lugar entre os favoritos na eleição dos melhores dos quadrinhos promovida pela Comics Buyer’s Guide – com a participação de leitores americanos e brasileiros -, disputando com Batman, X-Men e companhia limitada. Dependendo da repercussão desta graphic novel, a Abril pode até lançar Groo mensalmente a partir de 1990. Tomara.

Além da revista mensal, que já chegou ao número 57, Groo deve ganhar um novo álbum nos EUA no ano que vem, A Vida de Groo, explicando a origem do herói. Quem comenta é Evanier: “Já que ele não morreu na primeira, vamos esperar que, nesta próxima graphic novel, ele nem chegue a nascer”.


Para completar a coleção dos mais fanáticos, a Epic comprou da Pacific os direitos de publicação das primeiras aventuras do trapalhão, que estão saindo em edições de luxo, as Groo Chronicles. Como se pode comprovar facilmente, não é de hoje que o andarilho apronta das suas. O primeiro quadro das crônicas, de página dupla, traz uma verdadeira horda enfurecida, levantando poeira pela floresta. Armas em punho, gritando imprecações, esses homens perseguem obcecados o seu objetivo: trucidar Groo, é claro”.


Diz a lenda que Aragonés, hoje com 52 anos, desenha três vezes mais rápido que qualquer outro artista (o que não chega a ser vantagem, pois, colocando três vezes mais desenhos por quadrinho que qualquer outro, ele acaba levando o mesmo tempo). Morando em Hollywood e dividindo seu tempo entre os quadrinhos e os roteiros de programa de TV, ele consegue fazer Groo mais engraçado a cada mês. Resta torcer para que os brasileiros possam rir dele mensalmente, também. 

                     

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