domingo, fevereiro 19, 2017

DIVULGAÇÃO


A PRESSA É INIMIGA DA PERFEIÇÃO



“137”
Argumento de Ronaldo Zaharijs
Desenhos de Edu Menna
Editora Contato Comunicação
Editor: Márcio Mário da Paixão Junior
Nossa avaliação: 🔴🔴⭕⭕⭕


Foi lançada no início de 2017 o álbum de HQ chamado “137” (uma referência ao Césio 137), com roteiro de Ronaldo Zaharijs e arte de Edu Menna.

A edição tinha tudo para ser um grande lançamento em Goiás. Um tema chamativo e polêmico, um desenhista de renome internacional e um editor de bom gosto e colecionador de quadrinhos.

A arte de Edu Menna

Houve um pequeno murmurinho no lançamento e hoje já não se fala mais nada sobre a revista. Teria a “137” caído no esquecimento tão precocemente? Seria ela mais uma das diversas publicações de Goiás que não conseguem atravessar o rio Paranaíba?

Mas onde foi que a “coisa” desandou?

A ideia da história não é nova. Segundo o seu autor, a ideia surgiu dez anos atrás e, de lá pra cá, ele veio desenvolvendo o roteiro. Inicialmente planejada para ser ilustrada por Rodrigo Spiga, que enfrentou alguns problemas de saúde, o projeto teve que ser modificado e Edu Menna substituiu o desenhista.

A arte de Rodrigo Spiga, que era o artista que iria fazer a HQ.
Comparem a arte de ambos os artistas e tirem suas conclusões.


Uma das maiores dificuldades de se publicar hoje em dia é ter uma editora interessada pelo material. Em Goiás começa a surgir uma grande oportunidade para autores iniciantes ou até mesmo profissionais órfãos de editoras dispostas a bancar seus projetos. Com o “apoio institucional da Prefeitura de Goiânia” (Lei Municipal de incentivo à cultura), alguns projetos podem se tornar realidade, como foi o caso do álbum aqui abordado.

Se melhor trabalhada, a HQ “137” tinha tudo para receber um destaque melhor na imprensa local e de outros estados. Por fazer menção ao acidente radiológico de 1987 que aconteceu em Goiânia, com certeza seria destaque nos meios de comunicação. O grande problema é que os autores não souberam aproveitar a oportunidade.

Com um roteiro previsível, diálogos pobres e sem conteúdo, um final pra lá de manjado, a impressão que o leitor terá é de que já viu aquela história em dezenas de filmes Classe B. O típico grupo de amigos que vai passar uma temporada em uma casa de campo e que são atacados por “criaturas” surgidas do nada.

Edu Menna

Convidado às pressas para substituir o desenhista Rodrigo Spiga, Edu Menna, no meio de todos os seus compromissos internacionais, abriu espaço para trabalhar no material goiano. Foi prejudicado pelo prazo apertado (talvez até mais curto que o tempo dado pelas grandes editoras americanas), teve sua arte prejudicada pela falta de planejamento na colocação dos balões de diálogos, que muitas vezes sobrepõem os desenhos dos personagens. O formato dos balões e fonte usada também foram um problema no aspecto visual da edição. É preciso ter mais cuidado na diagramação dos diálogos e planejar a colocação dos balões na fase de ilustrações dos quadros, tornando assim a leitura mais agradável. Deve-se levar em consideração que os quadrinhos são na verdade o casamento entre imagens e texto, e que as letras são também um complemento para a arte.

Como extras, o álbum também apresenta páginas inacabadas feitas pelo excelente Rodrigo Spiga, que seria sem dúvidas o artista ideal para este trabalho. Desenhista de mão cheia, desenhos expressivos e enquadramentos estonteantes, ele com certeza enriqueceria o pobre argumento da história. Nota-se em suas páginas o planejamento minucioso do artista, que planejou antecipadamente onde seriam colocados os diálogos coisa que não foi feita por Edu Menna.


Rodrigo Spiga


Talvez um resumo sobre o acidente radiológico e destino final de todo lixo tóxico, que poderia ser apresentado em umas seis páginas em formato de história em quadrinho, valorizassem mais a edição. O uso de referências fotográficas também ajudaria bastante. Após essa breve apresentação, na página de abertura do álbum (onde aparece os veículos próximos de Abadia de Goiás) poderia ser acrescentado: “30 anos depois...”. Desta maneira estaríamos documentando um momento triste da história de Goiás, estaríamos também valorizando o trabalho dos autores e fazendo jus ao dinheiro público investido no projeto.



Edu Menna

Acredito que o projeto tenha sido aprovado de última hora e que seus autores tiveram que correr para concluir seus trabalhos e cumprir o prazo estabelecido, o que acabou prejudicando severamente na qualidade final do produto.

Dá até pra ouvir o editor gritando, “Corre que o projeto foi aprovado e temos que lança-lo até o prazo determinado!”

Rodrigo Spiga

É preciso ser mais rigoroso na aprovação de projetos semelhantes a este. Acredito que deve se levar em consideração se a obra acrescentará algo à cultura de nosso estado.



Sim, a pressa é inimiga da perfeição.

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