segunda-feira, março 06, 2017

SAIU NOS JORNAIS

ALTUNA DESENHA SEM MEDO DE SER MACHISTA
(Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, 17 de julho de 1996)

Ariel Palacio
(Especial para o Estado)

Argentino radicado na Espanha publica obra erótica em edições da ‘Playboy’ no mundo

Altuna em seu estúdio

BUENOS AIRES – Quem sustenta que não existem mulheres mais bonitas que as que aparecem na Playboy devem morder a língua. Horácio Altuna criou um mundo fantástico em que elas são perfeitas. Seus corpos são pura ilusão. As personagens das histórias eróticas desse desenhista argentino radicado na Espanha já fazem parte do léxico de seu país de adoção. Para os ibéricos, uma garota com o corpo digno de deuses é uma “garota altuna”.

“São garotas atrevidas que desfrutam de seu corpo e fazem o amor como anjos, não vivem no céu, mas no inferno particular criado pelo desenhista que nos condenou a esperar todo mês pelas suas travessuras eróticas”, diz o jornalista espanhol José Luis Córdoba.


Shakespeare nunca encontrou Cervantes. Da mesma forma, é uma pena que Carlos Zéfiro jamais tenha trocado palavras com Altuna. O mestre argentino também recria os personagens clássicos de erotismo: o casal de primos, o velhinho voyeur, a bela vizinha, o entregador de pizza. Suas histórias tem um happy end ou, pelo menos, um final bem humorado.

Mas Altuna não pensa só em sexo. É também autor de Hot L.A., uma crônica aguda sobre o estremecedor terremoto social e racial de Los Angeles. Ele nasceu em Córdoba, interior da Argentina, em 1941. Casado, três filhos, debutou no cartum em 1965. Trocou a Argentina pela Espanha em 1982. Suas criações saem nas edições da Playboy francesa, italiana, holandesa e australiana. “Também sou publicado pela Penthouse – é o mesmo que vender para a Coca-Cola e a Pepsi”, disse ao estado, enquanto comia azeitonas e bebericava vinho no bairro de Flores, em Buenos Aires.


ESTADO (E) – Na Espanha, dizer que uma mulher é “uma garota altuna” é o mesmo que dizer que ela é gostosíssima...

HORÁCIO ALTUNA (A) – Há identificação.

E – Como se inspira?

A – Sou um voyeur, mas estilizo as figuras. Utilizo determinado tipo de figura feminina com formas que me agradam.

E – O senhor então se realiza por meio de suas histórias?


A – Não (risos). As pessoas fantasiam. Elas pensam que os desenhistas de histórias eróticas tem o sexo o tempo todo na cabeça. Seria a mesma coisa que pensar que um repórter policial só pode ser um criminoso ou ser um policial. Não tem nada a ver. Há um mecanismo que faz com que interesse mais certa temática. A imagem erótica me diverte. Gosto muito de trabalhar a figura humana, seja do homem ou da mulher. Claro, sou heterossexual e gosto de olhar mais as garotas que os meninos. Mas não nego que olho a figura humana. Quando tenho de olhar um homem, não é uma olhada desinformada. Estou procurando determinado tipo humano, de compleição atlética e com certa forma de usar uma roupa.

E – O senhor já foi acusado de machismo?

A – Na Argentina o meu trabalho é publicado pela Sex Humor, uma revista acusada de machismo. Se McLuhan diz que o meio é a mensagem, minha mensagem é machista. Mas minhas histórias não são deliberadamente machistas. Também saem na Playboy. Mas qualquer mulher que leia minhas histórias, ainda que não haja, pensará que há um quê de machismo.


E – Levaram suas histórias ao cinema?

A – Fizeram algumas adaptações no cinema e na TV argentina, mas não gostei de nenhuma. Fiz roteiros para o cinema, mas ainda não os vendi.

E – Todos eróticos?

A – Tenho mais de 20 mil páginas de histórias. Delas, há apenas 320 páginas de conteúdo erótico.


E – O humor argentino é diferente?

A – Sim. Pelo menos do espanhol. Na Europa o humor é algo estranho. Os argentinos possuem um humor muito literário. Na Europa o humor não vai tanto pela palavra – é mais direto. Eu não gosto.

E – O que o senhor conhece do humor brasileiro?

A – Ziraldo! Gosto muito dele. É um grande desenhista, um grande cara! Há muito que não o vejo. Ficamos amigos em Maiorca.

E – O que faria se fosse uma “garota altuna” por um dia?

A – Iria para a cama com um cara (risos). A coisa mais divertida que as pessoas tem para fazer é amor. É o melhor que se pode fazer sem estar vestido. Faria a mesma coisa que faria sendo homem. Se pudesse passar o tempo todo transando, seria ultrafantástico!


E – Sua mulher não deve reclamar de sua atividade erótica...

A – Não, nunca, em absoluto.

E – O senhor prefere as morenas?

A – Não. Gosto das loiras, das ruivas. As ruivas tem um sex-appeal! Elas formam parte da fantasia masculina: será que ela é totalmente ruiva? Até onde chegam as sardas?



TRABALHOS REVELAM SENSO DE HUMOR E IRONIA REFINADA

Altuna cria a sensualidade com fantasia e satisfação

Gabriel Bastos Junior

Ler Horácio Altuna e só perceber suas belas silhuetas femininas é típico da atitude reducionista e preconceituosa com que muitos encaram os quadrinhos, principalmente quando estão em publicações estereotipadas como Playboy e Penthouse. Altuna é um dos mais importantes autores da moderna HQ argentina e conquistou a Europa nos anos 80, por ecoar do outro lado do Atlântico o caráter fantástico e a sofisticação narrativa dos europeus. Isso, é claro, com a mesma sensualidade dos mestres do velho continente.

Altuna é contemporâneo dos artistas que revolucionaram a HQ na Europa. Começou a publicar seus trabalhos na década de 60, seguindo os passos de uma geração de ouro na Argentina, que incluía Alberto Breccia, Hugo Pratt e Salinas, escola para todo gosto e estilo. Em 1971 já se destacava com a série Kabul de Bengala, editada na revista Fantasia, com roteiro de Jorge Morhain. Em 1973, o roteirista Hector Osterheld, um dos mais importantes dopaís, assume a história e ela se torna tão popular quanto a original Nippur.


Outro grande roteirista de quem Altuna foi parceiro é Carlos Trillo, com quem fez a tira diária El Loco Chaves, lançada pelo jornal El Clarin em 1975. Contava as aventuras de um jornalista argentino vivendo na Europa, o que, eventualmente, veio ocorrer ao desenhista. Com Trillo, fez também o clássico álbum Fantasmagorias. Mudou-se para a Espanha em 1982, mesma época em que seua série Chances começava a ser publicada nas revistas Pilote e Charlie, na França. Conquistou espaço na Itália por meio das famosas Comic Art e L’Eternauta.


No Brasil, teve algumas de suas histórias publicadas na extinta Porrada e, seguindo o exemplo de outros países (Itália, México), a Playboy chegou a editar seus pequenos contos eróticos, mas a iniciativa não durou muito. Também foi convidado especial do primeiro número da edição brasileira da Penthouse Comix.


O que mais impressiona em Altuna como autor é a fantasia. Não por acaso, estabeleceu a ficção científica como um de seus ambientes favoritos, podendo criar livremente sobre a relação das pessoas com a política, a repressão policial, as condições de vida nas grandes cidades e, obviamente, sexualidade. Por trás do voyeur, se apresenta um artista crítico, repleto de mensagens subliminares, dotado de um senso de humor baseado em refinada ironia. Como narrador gráfico, envolve o leitor com um ritmo preciso e estimulante,  mesmo nas cenas de sexo.


2 comentários:

  1. olá...

    vc tem comics deste autor para download....???

    Achei uma resposta sua que vc está preferindo gravar em
    dvd e enviar....

    ESta forma de recebimento ainda está valendo?
    Existe algum post com sua quase INFINITA gibiteca para escolha? obrigado,

    Will - SP

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    Respostas
    1. Tenho algumas publicações do Altuna, só que em espanhol. Traduzi e disponibilizei "O Gato" pretendo fazer outras traduções, só me falta tempo.

      Eu estava gravando em discos quando não estava disponibilizando links. Como um de nossos seguidores assinou uma conta premium do Mega e nos autorizou a usá-la, voltei com os links e não estou mais gravando em discos. Mesmo assim, se houver algum interessado em adquirir arquivos em discos, posso gravar sem problema. Um DVD mais despesas de correios fica em R$ 20,00.

      Não tenho lista do material que tenho. São mais de 4 TB de arquivos. Mas você pode citar o que é do seu interesse que eu monto uma lista do que tenho.

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