quinta-feira, março 16, 2017

SAIU NOS JORNAIS



AS IMAGENS DOS MUNDOS QUE NUNCA EXISTIRAM
(Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, 11 de agosto de 1990)

Marcel Plasse

A arte dos capistas de quadrinhos é um dos artigos mais solicitados pelas importadoras. Há cada vez mais álbuns dedicados aos astros de Heavy Metal, Cimoc e outras.


A influência dos quadrinhos na pintura dos anos 60 tem sido frequentemente observada pelos historiadores do período. Mas, enquanto a pop art conseguiu negar seu axioma básico e obter mais de 15 minutos de notoriedade, uma manifestação anterior é ainda mais ligada à HQ, a fantasy art, permaneceu menosprezada até recentemente. Hoje, nomes como Boris Vallejo, Frank Frazetta, Vicente Segrelles ou Chris Achileos são impressos com letras prateadas e acompanhados por adjetivos grandioloquentes na capa de álbuns tão luxuosos quanto o de qualquer outro mestre da pintura. O produto não deixa de ser kitsch, embora esse conceito já ameace soar abstrato em meio à massificação do fim do milênio. A verdade é que a fantasy art vem obtendo cada vez mais adeptos, principalmente, no campo dos quadrinhos, mas também entre os aficcionados por tatuagens, cartazes de cinema, capas de discos e contos fantásticos.


Os caminhos da pop art e fantasy art foram exatamente opostos. Na medida em que a primeira valorizou, na parede de museus e coleções particulares, imagens da industria cultural, a outra foi estampar em produtos de massa sua manifestação artística. Seus criadores nem sequer são chamados de pintores, mas de ilustradores. São capistas de quadrinhos, revistas, livros, discos e cartazistas de cinema, cujos álbuns, que nunca foram lançados no Brasil, estão entre os mais solicitados artigos das importadoras.


A estética da fantasy art é uma combinação de fontes neoclássicas, como Jacques Louis David ou Ingres, e a ilustração fantástica popularizada pelos Shilling Shockers, versões baratas e reduzidas das volumosas novelas góticas, que circulavam acompanhadas por uma ilustração introdutória no início do século passado. Já a fixação do tema foi obra dos pulps, a versão mais industrial da literatura barata surgida na aurora do século. A temática da fantasy art não é mais do que a versão ilustrada da ficção de Edgar Rice Burroughs, que despia astronautas e cientistas e sua civilização, munidos com espadas ensanguentadas em mundos de guerreiras seminuas e criaturas monstruosas, como Pelucidar, Marte ou Vênus, dos contos bárbaros de Robert E. Howard, repletos de reinos selvagens, mercenários, feiticeiros e demônios de um tempo esquecido; e do horror científico de Ray Bradbury, que revelava os segredos de planetas idílicos, porém malignos, descobertos por bólidos espaciais do futuro. Imagens que nunca existiram, veja-se o nome dos álbuns do gênero: Mirage, Fantasia, Chiaroscouro, Heroic Dreams etc.


Como os pulps ganharam suas representações mais famosas nos quadrinhos (desde 1929), muitos dos autores da fantasy art iniciaram-se nas páginas de arte sequencial. A importância da HQ pode ser avaliada pela quase unanimidade com que os artistas do fantástico apontam Dan Dare como primeira influência. Dan Dare foi o precursor da pintura nas páginas de revistas em quadrinhos, em 1950, e é o marco da Era de Prata dos comics ingleses. Seu artista, Frank Hampson, era precisamente um ex-ilustrador, e seu tema, como não poderia deixar de ser, a ficção-científica. Jim Burns, idealizador do design de Blade Runner, chegou a batizara uma de suas séries de pinturas de paisagens de outros mundos com o nome do personagem.


Muitos artistas de quadrinhos viraram ilustradores, devido à melhor remuneração nesse campo. Frank Frazetta, Berni Wrightson, Barry Windsor-Smith, Michael Kaluta, Angus McKie e mesmo Moebius, que teve suas ilustrações fantásticas reunidas em três álbuns de fôlego. A principal editora de fantasy art é a inglesa Paper Tiger. À parte os álbuns de portfólios, ela publicou um guia de técnicas do gênero. The Guide to Fantasy Art, que responde a muitas indagações de ilustradores iniciantes. O melhor livro de biografias, por sua vez, é da espanhola Norma Editorial, Obras Maestras del Arte Fantástico, com resumidas informações de quadrinhos, numa época que os comic books americanos estampavam apenas capas a traço (desenhos feitos a nanquim, sem variação de tom) com aplicação de cor chapada. O panorama, porém mudou, radicalmente. A nova geração de artistas não se prende aos temas de mundos que nunca existiram. Suas experiências visuais tendem a tornar ainda mais tênue a divisão entre as artes. Bill Sienkiewicz “desenha” com colagens fotográficas, xerox e arte postal. Dave MCKean lança mão de todas as possibilidades plásticas, inclusive objetos sólidos como pregos, retalhos de tecidos, molduras, etc, para compor seu expressionismo premiado. Pintura já virou lugar comum no reino dos comics. E mesmo quando é utilizada, não se prende mais ao rígido neoclassicismo dos capistas da fantasy art. Os quadrinhos vivem seu melhor momento artístico, com designers em postos editoriais e pintores no interior dos gibis. Pintores, por qual outro nome podem ser chamados Jon J. Muth, Kent Williams, John Totleben, Brendan McCarthy ou Simon Bisley?


É sempre difícil ponderar sobre o mérito de qualquer arte, sem sopmbra de dúvida. Muito do que hoje é considerado boa arte foi originalmente produzido sob contrato comercial, sejam os afrescos de Michelângelo e Da Vinci em igrejas, sejam pinturas a óleo de aristocratas encomendadas a realistas como Gainsboroght e Reynolds. A fantasy art, como toda cover art, é um produto da indústria editorial. Sua alma é comprada e o seu corpo, de papel. Às vezes de papel nobre, em álbuns de fino acabamento gráfico e com um preço  nem tão acessível. Engraçado será ver essa arte eminentemente perecível roubar um olhar, cínico que seja, da imortalidade. Mefistófeles não previu pacto tão diabólico.

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