sexta-feira, março 24, 2017

SAIU NOS JORNAIS

PELOS PODERES DO ZODÍAKO!
(Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo – sem data identificável)

Jotabê Medeiros

Ele é uma lenda viva das histórias em quadrinhos. Premiado na Itália “por uma vida dedicada à ilustração”, Jayme Cortez relança hoje sua obra-prima – o álbum Zodiako – e abre uma exposição sobre sua obra


Em Portugal, chama-se banda desenhada. Nos EUA, são os comics. Na Itália, fumetti. No Brasil, é gibi mesmo. E, se existe um nome capaz de transitar entre todas as diferentes formas de ver as histórias em quadrinhos, esse nome é o de Jayme Cortez.

Cortez é um português naturalizado que chegou ao Brasil em 1947, com um potinho debaixo do braço, e uma busca do eldorado dos quadrinhos. Tinha recebido umas publicações brasileiras, coloridíssimas, e ficou deslumbrado com as possibilidades que o mercado parecia oferecer. Chegou e descobriu que os copyrights tinham tomado conta do pedaço e as dificuldades de fazer boas histórias independentes era até maior do que em Lisboa. Mas ficou por aqui, assim mesmo. No mesmo ano de sua chegada, publicou duas séries-chaves para a história dos quadrinhos nacionais. Caça aos Tubarões e O Guarani, uma adaptação do romance de José de Alencar, em tiras diárias, para o Diário da Noite.


A história de Jayme Cortez, 60 anos, se confunde com a própria história das HQ. Em 1951, foi um dos idealizadores da primeira exposição internacional de HQ no Brasil, um dos primeiros eventos do gênero em todo o mundo. Foi mestre de Maurício de Souza, Flávio Colin, Júlio Shimamoto e Getúlio Delfim, sendo reconhecidamente um dos artistas que mais batalhou pela profissionalização do desenho de HQ no Brasil. Em Portugal, onde só atuou por dez anos, é reconhecido como um clássico. Os Espíritos Assassinos, obra sua publicada no mesmo ano em que partiu para o Brasil, foi reeditada recentemente pelos Cadernos de Banda Desenhada, de Lisboa, numa edição especial que rememora o trabalho de desenhista.

Mas o grande reconhecimento ao trabalho de Cortez aconteceu no final de 86, no 20° Festival Internacional de Histórias em Quadrinhos e Ilustração de Lucca, Itália. Cortez recebeu o prêmio Carand’ Ache, “por uma vida dedicada à ilustração”. “Fizeram uma grande exposição com meus trabalhos, mandaram passagens de avião, foram me buscar no aeroporto, em Piza. E ainda me deram um prêmio. Eu nem acreditei quando subi no palco, para receber a menção, adivinhe quem estava ao meu lado? Will Eisner (criador do Spirit). Eu copiava ele quando comecei, não pude acreditar”, conta Cortez.


Para os mais esquecidos, hoje é um bom dia para se ter uma ideia de dimensão do trabalho de Cortez. A Press Editorial estará relançando, às 20 horas, na Galeria da Escola Panamericana de Arte, rua Conselheiro Brotero, 832, em que Cortez lecionou por seis anos), o álbum Zodiako – tido como a grande história em quadrinhos do desenhista. Zodiako foi criada em 1974 para a revista Crás, da Editora Abril, tornando-se álbum no ano seguinte e recebendo o troféu O Tico-Tico, no 2° Congresso de HQ de Avaré. O álbum esteve exposto no Teatro Ruth Escobar e participou do 11° Salão Internacional de Lucca. Em 1976, foi publicado na revista italiana Sargent Kirk, de Gênova, e pela editora Portugal Press.

A Cortez é atribuído um médico indiscutível: numa época em que todos os cartunistas de Portugal e Lisboa procuravam seguir na rabeira dos desenhistas americanos e europeus, ele introduzia em suas histórias figuras típicas do seu bairro ou sua cidade. Utilizava modelos vivos para suas histórias e as desenvolvia dentro do universo específico em que a vida circundante acontecia: no porto, nas feiras, na rua. Além da pulverização dos comics americanos, ele teve como influência o traço de Michelângelo, de Da Vinci. Flertava com as ilustrações da Comédia de Dante e da Bíblia.


Essa mistura explosiva aparece no grandiloquente Zodiako, um herói mítico e pacifista gerado pela interação entre os 14 signos do zodíaco (Cortez introduz mais dois: Cetus e Hydra), com a altruísta finalidade de reverter uma certa tendência sadomasoquista de um conhecido planetinha azul. Imantado com as faculdades dos signos – o equilíbrio de Libra, o discernimento de Escorpião, a justiça de Sargitário, a poesia de Gêmeos,a coragem de Touro e a força de Leão, entre outras qualidades – Zodiako parte com a missão de serenar os ânimos. É um líbelo pacifista sensual, bem-humorado, esteticamente estonteante.

O Banco Itaú instituiu um prêmio para cartazista de cinema que leva o nome de Jayme Cortez. Entre outras peripécias, o desenhista e responsável por quase todos os cartazes dos filmes de Mazzaropi – verdadeiras obras-primas, diga-se de passagem. Em entrevista a Álvaro de Moya, Cortez comentou bem-humorado a homenagem. “Nada mau ser titular do único prêmio ‘vivo’ do mundo, para quem começou como contrabandista de maria-mole”, disse referindo-se ao difícil começo no Brasil, quando foi distribuidor de doces no interior do Estado de São Paulo. Aliás, nem só de virtuosismos vive a memória de Cortez. Ele chegou a assinar uma história, O Vale da Morte, publicada em Portugal, da qual não gosta nem de lembrar. É um western, que ele classificou, numa autocrítica irônica, de bacalhau-western.


Entre muitos amigos de Cortez, “todos quadrinheiros”, há um muito especial. Trata-se de Hugo Pratt, o venezuelano criador do Corto Maltese. Cortez diz que Pratt é “um genial doido varrido”. Uma vez, quando Cortez se encontrava nos EUA (trabalhou 12 anos na McCann Erickson, como diretor de criação para cinema comercial), Pratt apareceu em sua casa pedindo que fizesse algumas fotografias para ele. Cortez pegou a máquina, entrou no carro de Pratt e saíram. Três dias depois, estavam no Canadá, numa região inóspita, “e eu não tenha levado nem minha escova de dentes”, diverte-se o desenhista.


Como ator, Cortez fez uma série de aparições especiais nos filmes de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. “Eu aparecia como um velho tarado ou um assassino misterioso, qualquer coisa do gênero.” Fez um sem número de filmes comerciais, entre eles um recente, no qual atuava como um dos monges que começava a tocar solenemente um sino; depois se deixava erguer pelo movimento da corda e ficava gargalhando alto, divertindo-se como uma criança.

Uma das atividades de que mais gosta, entre todas, é desenhar histórias de terror. Fez centenas delas, criando um tipo de morbidez tipicamente nacional. Ilustrou contos populares, lendas, fez de Zumbi dos Palmares e outras figuras genuinamente históricas personagens de episódios povoados de umbanda, magia negra, com um toque sinistro inconfundível. Quem é que não se lembra das Histórias do Além e Sobrenatural?


A exposição de Jayme Cortez fica aberta até o dia 23 de junho na Escola Panamericana de Arte, reunindo cinquenta criações do desenhista, entre desenhos ampliados, estudos e originais. O álbum Zodíako está à venda nas bancas por Cz$ 50,00.


Um comentário:

  1. Interessante. Eu sequer imaginava que ele havia trabalhado como ator e, muito menos, com o José Mojica Marins! Pelo visto, teve uma carreira fecunda.

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