sexta-feira, março 31, 2017

SAIU NOS JORNAIS


A VOLTA DE COLONNESE, MESTRE DA ERA DO GIBI
(Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, 19 de setembro de 1989)

Wanderley Pontes

Quem cresceu lendo gibis nos anos 60 sempre tem na memória os quadrinhos de terror e repletos de garotas apetitosas do mestre Eugênio Colonnese. Hoje, aos 60 anos, e também comemorando 25 anos de traços em publicações brasileiras, ele é aclamado como grande mestre do quadrinho sério do Brasil. E sua personagem Mirza, a Vampira está sendo lançada pela primeira vez em álbum. Com forte sotaque italiano, ele fala ao Caderno 2


CADERNO 2 – É fácil fazer quadrinhos?

COLONNESE – É necessário dom. Sem vocação, no primeiro tombo não se levanta. Principalmenmte no meu tempo, na Argentina. Quando comecei foi muito difícil. Foi com muito sacrifício. Lá tinha de ser bom mesmo. Só existiam feras. Breccia, Hugo Pratt, Castillo. E é importante lembrar, não se distinguiam as nacionalidades como aqui. Lá, também eram todos estrangeiros, mas não se discriminava. Precisei ganhar uma medalha de ouro – ouro mesmo -  num concurso da Editorial Columba, para ter minha primeira chance. Depois que comecei a publicar, as coisas correram mais facilmente.

A arte de Colonnese em "A libertação dos escravos" (Ebal)

CADERNO 2 – Era um trabalho bem pago?

COLONNESE – Puxa vida! Pagavam por quadrinho e não por página. E também não existia uma tabela única como aqui, onde querem pagar o mesmo para quem desenha patos e para quem faz desenho “sério”. Existia uma escala. Para receber o mesmo que o Salinas recebia por desenhar uma maçã, eu precisava trabalhar quase três meses. E isso incentivava. A gente buscava a evolução. Nós nos espelhávamos nos mestres.

CADERNO 2 – Mas então veio a hiperinflação da Argentina em 1963...

COLONNESE – Pois é. Todos os meus colegas foram se mudando. Todo mundo foi para a Europa, alguns para os Estados Unidos. Eu, simplesmente, vim para o Brasil de férias. Tinha bastante trabalho na Argentina, produzia uma média de 400 quadros por mês, o que dava por volta de quatro histórias. Eu tinha um personagem estabelecido havia sete anos, Harrison Hogan, que, de acordo com o roteirista, tratei de casar para suspender as aventuras.

Arte de Colonnese para "A proclamação da República" (Ebal)

CADERNO 2 – Você não escrevia as suas histórias?

COLONNESE – Nem pensar. Lá eles são muito radicais quanto a isso. Eu só podia desenhar quadrinhos. Eu achava ótimo, porque acredito, até hoje, que nasci para isso. Mas eles não permitiam que eu fizesse uma capa ou mesmo ilustração. Lá, é cada macaco no seu galho, não tinha a liberdade de criação que encontrei aqui.

CADERNO 2 – Você começou a trabalhar no Brasil com quadrinhos mesmo?

COLONNESE – Sim. Ainda em férias, assinei um contrato com a Editormex, do Rio de Janeiro. Estava com parentes lá (1964) e o contrato me garantiu bons rendimentos e segurança para eu me transferir para o Brasil. Deixei uma casa toda decorada, com móveis em estilo Luís XV, comprada com trabalhos de quadrinhos.


CADERNO 2 – Quanto tempo você quadrinhos na Argentina?

COLONNESE – Por quase 15 anos. Aqui não fiz nem cinco. Foi só de 1964 a 1969. Depois, só trabalhos esporádicos. Não dá pra viver de quadrinhos no Brasil. Os editores só pensam em lucros. Não querem incentivar o mercado interno, como em todo o lugar do mundo. Um editor teve a pachorra de me dizer que “no Brasil é só sujar o papel em branco, o leitor é burro”. Mas o mercado prova o contrário. Os quadrinhos de luxo provam isso!

CADERNO 2 – Você sempre produziu muito?

COLONNESE – Sim, isso acabou gerando o meu maior problema no Brasil. Tudo o que eu fazia era aplaudido. Eu não tinha concorrente. Acabei concorrendo comigo mesmo, o que fez meu desenho estancar-se. Foi uma grande falha minha. Hoje só aceito fazer quadrinhos por encomenda, e bem pago. Exijo dignidade, como qualquer outro profissional do mundo.

CADERNO 2 – Suas experiências com os editores brasileiros não foram muito boas então?

COLONNESE – Não tão ruins. Também não quero desestimular os jovens autores. Não podem se mirar só em mim. Isso tudo foi há mais de dez anos...

Se aventurando pelo gênero "Super-heróis" com Mylar.

CADERNO 2 – E Mirza?

COLONNESE – Ela surgiu quando tive que parar com o personagem Mylar, porque não queriam me devolver os originais. Fui então para a Editora Jotaesse. Estava pê da vida, e no pé da lanchonete, tomando umas e outras com o editor Sidekerkis. Ele acabou me encomendando uma mulher vampira. Fiquei até brincando com o nome Mylar... Cheguei em Mirza. Ele me deu uma revista para fazer sozinho. E, como contraponto, resolvi criar o Monstro do Pântano. Assim, na revista se encontravam a bela e a fera.

CADERNO 2 – Como você vê os quadrinhos de hoje?

COLONNESE – Como miragens. Fiquei totalmente afastado das bancass de jornais, depois que passei a fazer livros didáticos. Estava muito magoado por não poder desenhar. Agora, vejo os álbuns de talentos como Moebius e Manara e fico com água na boca.


Crítica

UMA VAMPIRA QUE GOSTA DE SOL

Moacir Amâncio


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Uma linda e perigosa zamoriana está de volta para abrir as portas do mundo sombrio de Eugênio Colonnese: Mirza, a Mulher Vampiro. Nela, o quadrinista conseguiu registrar a sua marca. É uma síntese do seu estilo dominado pelo claro-escuro que dá o tom da fatalidade às histórias, sustentando-as mesmo quando o argumento fraqueja.

Ela completa a obra de Colonnese, italo-brasileiro argentino, dono de uma técnica narrativa exemplar, em relação aos modelos do quadrinho clássico, duas gerações anteriores a Frank Miller e Sienkewicz. O ritmo é sempre curto e grosso, as histórias não rendem muitas páginas – o fôlego da respiração é o próprio golpe.



Um dos pontos curiosos em Mirza é que a personagem, uma vampira insaciável, parece inconscientemente encarregada de punir todos e todas que passam perto dela e mesmo sem perceber se sentem atraídos por sua beleza zamoriana. Sim, poucos supõem, mas, a primeira aparição de Mirza poderia muito bem ter sido registrada em plena hiperbórea (ver a Espada Selvagem de Conan, todos os números), onde seria vendida no sórdido mercado de Shadizar, a Yezdgerd, pelos mais leproso cão do deserto, desprezado até mesmo pelos zuagires. Como vingança, claro.

Mirza, de geração em geração, adapta-se ao momento em que os outros, vivem, para dar prosseguimento à implacável missão de Vênus devoradora. Aí – e no contraponto representado pelo sádico serviçal sa vampira, Brooks, encarnação da perversidade que se diverte com o castigo recebido pelos pobres mortais -  está o peso do moralismo pessimista carregado por Colonnese.


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Do binômio moralismo-pessimismo, aliás, vem a força das histórias, expressa mais no desenho – nunca é demais insistir na qualidade específica do artista – do que nas histórias, Mirza tem toques de originalidade. Não se trata de uma vampirosa qualquer, dessas que a gente depara na esquina. Como toda zamoriana que se preza, é sensual e saudável. Gosta de se bronzear ao sol e nada tem a ver com os angustiados nosferatos da... vida, vá lá.

Cínica, preocupa-se apenas com fingir que tem pena da próxima vítima, tão boazinha. Mas fazer o que, diante da fome obsessiva e do papel subliminar de anjo exterminador? Diante dessa bela e fera não restará uma só gota de sangue. Todo esse horror está um tanto datado, mas Colonnese deve ser lido como um tipo de  clássico.

Nacional/Lançamento

OS SUBMUNDOS DE SHIMAMOTO
(Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, 19 de setembro de 1989)

Jal

Um dos mais cultuados desenhistas do quadrinho de terror brasileiro está lançando um novo álbum, com nove pequenas histórias urbanas, abordando os submundos da mente


 O quadrinho vive, no Brasil, um momento tão especial, que nos traz algumas boas surpresas com o álbum Subs (lançado pela editora Europa, nova no setor) de autores nacionais, o que é uma coisa rara. Melhor do que isso, Subs marca a volta de um dos mais cultuados desenhistas do quadrinho de terror brasileiro: Júlio Shimamoto.


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Shima, como é conhecido pelos colegas, fez sucesso na década de 60 aproveitando um vácuo na produção do quadrinho de terror americano, quando o então senador Eugene Mc Carthy inspirou um “Código de Ética” entre as editoras dos EUA, banindo as histórias em quadrinhos que poderiam conter cenas de sexo e violência. Seu alvo: os títulos de horror. Como os apreciadores do gênero no Brasil eram muitos, a solução encontrada pelas editoras para substituir as histórias importadas foi utilizar artistas nacionais, mantendo assim o mercado suprido. Chegamos a ponto de importar desenhistas da Argentina, como Rodolfo Zalla e Eugênio Colonnese, que, por sinal, está tendo seus clássicos republicados. Shimamoto já mostrava um traço ágil para a épocas e criou escola, junto ao mestre Jayme Cortez e a equipe da Editora La Selva.



Mas Subs não é terror. Trata-se de um álbum com nove pequenas histórias, que sacam, de situações urbanas, o submundo da mente humana. Logo na primeira história, Reunião de Diretoria, já se percebe o humor apurado do texto de Ulisses Tavares, que também é poeta e trabalha na agência da Thompson do Rio, onde Shima é diretor de arte. No fundo, trata-se de uma ironia, pois vários desenhistas nacionais se voltaram para a publicidade por razões salariais.



Para quem acha que o traço de Shimamoto parece apressado, como os layouts que costuma rabiscar nos folhetos publicitários, a explicação está no pouco tempo disponível que ele teve para executar o trabalho – apenas o mês de suas férias. Mesmo assim, seu traço de grande desenhista não fica comprometido, sendo até mesmo realçado pela feliz ideia da segunda cor aplicada aos desenhos.



Enfim, um grande álbum de quadrinho nacional. Você tem ideia de quantos foram lançados nos últimos anos? Não grande, nem médios, mas, apenas, de quadrinhos nacional...? Não vão além dos dedos da sua mão.



3 comentários:

  1. TIRA ESSA RADIO FILHO DA PUTA ISSO ENCOMODA SE EU QUISER OUVIR MUSICA EU PONHO AKI SEU BOSTA

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    Respostas
    1. Por que tanto ódio no coração, amigo?
      Dessa maneira vc não conseguirá chegar a lugar algum.
      Não precisa se desesperar de tal maneira. Se o seu problema é ejaculação precoce, existe tratamentos excelentes e vc pode buscar ajuda médica.
      Agora, se o seu problema é que sua mãezinha trabalha na zona,o caso é mais sério. Mesmo assim, orgulhe-se... você nasceu "gente"... poderia ser um "merda".
      Continue se deliciando com as maravilhas que postamos, amigo.
      Ah,cuidado. INVEJA MATA!

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  2. Minha nossa...esse cara devia lançar seu ódio aos ladrões da lava jato..era so ir acima do blog e desativar o som..se não gosta da música...mas nso precisava dessa estupidez toda! E por isso que esse país precisa mudar..pra melhor..a educação em primeiro!

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