domingo, abril 09, 2017

SAIU NOS JORNAIS...


Publicado originalmente em 02 de agosto de 1996



Silke realiza sonho de desenhar suas mulheres

Apesar dos 65 anos e do longo currículo, ele diz que não fazia
HQs porque não sabia desenhar

Gabriel Bastos Junior

Jim Silke abre seu largo sorriso e diz que seu amigo Dave Stevens, criador de Rocketeer, o chama de o mais velho dos calouros. Aos 65 anos, o ex-diretor de arte da Capitol Records, ex-editor da revista Cinema, ex-parceiro de Sam Peckinpah e roteirista de filmes de aventura como as refilmagens de As Minas do Rei Salomão está realizando um antigo sonho – desenhar belas mulheres em quadrinhos. Seu estilo acadêmico e expressivo, típico da ilustração norte-americana dos anos 50, pode ser visto na série Rascal in Paradise, com pinturas tão bonitas quanto as de seu livro Queen of Hearts, uma homenagem a Bettie Page e a toda cultura popular americana.
 

Tanto a série (e depois o álbum) de Rascal quanto o livro sobre Bettie Page foram publicados pela Dark Horse, quarta maior companhia de quadrinhos dos EUA. Foi Dave Stevens, sempre ele, quem apresentou Silke ao Publisher da editora, Mike Richardson. “Ele me disse que publicaria rigorosamente qualquer coisa que eu fizesse”, lembra Silke. “E está cumprindo a palavra.”


Qualquer bom editor teria feito o mesmo – mas há poucos deles no mercado. É uma honra ter alguém com o currículo e a bagagem cultural e artística de Silke optando por fazer quadrinhos. Além disso, seu trabalho é excelente, narrativamente preciso, com um enredo fantasticamente bem-humorado, um impacto visual de tirar o fôlego e lindas mulheres no mesmo nível de Stevens ou do francês George Lévy, ambos com traço semelhante.


Silke se diz um homem dos velhos tempos, em seu caso, isso está longe de ser um defeito graças ao seu bom gosto na seleção de o que lembrar do passado. O amor pelos quadrinhos, por exemplo, vem de criança, quando lia as páginas dominicais e tiras como Buck Rogers e qualquer coisa feita por Milton Caniff, criador de Terry e os Piratas e Steve Canyon, duas das melhores tiras de todos os tempos. Foi de Caniff que tirou também seu gosto pelas mulheres de papel, do tipo que “tinham problemas para manter suas roupas no corpo”.


O que mais impressiona em Silke é sua humildade. Ele praticamente não fala de seu trabalho – prefere estar sempre se referindo a alguém, dando crédito a grandes artistas nem sempre reconhecidos. “Quando sai da escola, fui trabalhar como diretor de arte porque não sabia desenhar suficientemente bem para fazer quadrinhos ou ilustrações”, diz como se alguém pudesse acreditar. “Demorei 63 anos para chegar a um ponto publicável”, completa apontando para Geof Darrow e Mike Mignola, que dividiam seu stand – da Hot Chocolat Productions – na San Diego Comic Com International. “Eles são todos muito mais novos do que eu”.


O ritmo lento de trabalho e aprendizado parte, segundo Silke, parte do fato de sua formação inicial ser de pintor e não cartunista. “Vejo por exemplo o trabalho de Frank Frazetta, meu amigo há mais de 20 anos e uma forte influência”, comenta. Mas se comparar a Frazetta é injusto para qualquer pintor figurativo do mundo e Silke sabe disso. “Ele é um gênio”, define. “Vai demorar alguns anos até que o mundo perceba isso, mas vai acontecer.”


Silke diz ter tentado fazer quadrinhos desde 1950 e só foi ter algo pronto para mostrar em 1988. “Rascals é a história que eu quero contar há 25 anos”, diz. Para marcar sua parceria de quase 20 anos (primeiro como figurinista, depois como co-roteirista e amigo) com Sam Peckinpah, retratou a si mesmo e ao amigo como os dois personagens masculinos principais de Rascals – a protagonista é Spicy (temperada), uma loira cujo nome diz tudo. “Assim ele pode continuar comigo”, brinca.


Em 1957, em seu primeiro emprego como diretor de arte assistente na Capitol Records, Silke começou a lidar com o que seria sua estética feminina pessoal. Na época, era prática comum ter uma bela mulher em qualquer capa de disco e ele era responsável por contratação, dirigir as sessões de fotos e criar os designs. “Mas os nomes das modelos nunca apareciam”, reclama. Demorei anos para perceber como não reconhecíamos o mérito e a importância delas para a nossa cultura.”





Bettie Page é o símbolo máximo disso. Durante os anos 50, ela liderou as capas das primeiras revistas masculinas, os calendários de borracharias e qualquer outra forma de se expor uma mulher em papel. “Era uma artista com significado popular, sua arte era para as pessoas”, diz Silke. “Esse é o problema com os artistas plásticos – eles esqueceram as pessoas.”


Atualmente, Silke está dedicando exclusivamente aos quadrinhos e se sente orgulhoso com um menino por seu trabalho estar sendo reconhecido para dar aulas de desenho em três escolas de arte, o que considera uma mudança de visão. “Se você quer falar de pessoas, você precisa saber desenhar pessoas”, diz ele. “Durante 30 anos, o desenho ficou muito solto”, completa. “Agora me chamam para ensinar o jeito antigo, que ainda é o melhor.”


Nada mal para quem não fazia quadrinhos porque não sabia desenhar. “Sou um artesão esforçado”, diz. No caso de Rascals, ele imaginou primeiro fazer desenhos a traço, com nanquim, e colorir com aquarela. Não deu certo e ele partiu para a pintura, chegando a fazer quatro ou cinco por página. “Eu não sabia o que estava fazendo e não imaginei que demoraria tanto para produzir isso”, admite. É claro que o aspecto visual não é tudo. O amor de Silke pela pesquisa, pela história e, principalmente, por seus personagens, torna Rascals uma delícia de leitura, simples sem ser boba, sem grandes ambições estilísticas, mas suficientemente incitante para os leitores exigentes. Por isso vem agradando aos críticos mais rígidos: “Sou casado há 47 anos e este é o primeiro trabalho que minha mulher realmente gosta.”



LIVRO ANALISA O FENÔMENO
BETTIE PAGE

Pin-up que fez mais de 20 mil fotos na década
de 50 virou “cult top model” nos anos 80



Tudo começou com um desenho. É com essa frase, bastante comum, que Jim Silke inicia seu tratado sobre a importância não reconhecida da cultura popular americana a partir de um de seus mitos maiores. Segundo ele, foi o quadrinhista Dave Stevens que deu o primeiro passo para que, nos anos 80 e ainda nos anos 90, a maior pin-up da década de 50 voltasse à mídia com status de “cult top model”. Em Bettie Page – Queen of Hearts, Silke tenta entender este fenômeno. Não apenas o renascimento do interesse nessa mulher de corpo perfeito que preencheu tantas fantasias, mas também qual o segredo de sua magia, para que tenha se tornado inigualável neste sentido.


Bettie Mae Page chegou a Nova York em 1948 depois de uma tentativa frustrada de se tornar atriz de cinema. Até 1957, quando optou por desaparecer aos 35 anos, foi a maior e talvez única modelo fotográfico a resistir tanto tempo em revistas masculinas, capas de revistas de fofocas, série de “postais” vendidos  ilegalmente, etc. Seu rosto estava em todas as bancas de revistas da América, o que durou até o início dos anos 60, apesar de não haver material novo. Calcula-se que ela tenha tirado 20 mil fotos ao longo de sua carreira, além de ter feito filmes de super 8 com sequências de strip-tease. Nada disso chamou a atenção da mídia séria na época, afinal de contas, ela era apenas uma modelo vulgar que se dispunha a fazer qualquer tipo de foto – nua, de biquíni, acorrentada, fantasiada, vestida de colegial. Como diz Silke, cada uma delas é um nocaute.


Em 1979, o então adolescente Stevens encontrou uma foto de Bettie de biquíni na água, publicada pela revista masculina Frolic em 1956. Foi paixão fulminante. Depois de estudos e pesquisas obsessivas, Bettie apareceu como Betty, namorada de Cliff Seccord, o Rocketeer, na revista Starlayer, retratada “não apenas fisicamente, mas em espírito”, segundo Silke. A aparição deu origem a uma febre – seus filmes viraram publicidade, suas fotos foram reeditadas, coleções de trading-cards foram criadas, todo tipo de merchandising que os americanos adoram.



Silke já desenhava Bettie desde 1950, sendo ela seu modelo favorito para exercícios de desenho. “Ela estava esquecida e Dave fez algo a respeito”, diz em tom quase culpado. “Algo que eu deveria ter feito há muito tempo”, completa. Queen of Hearts é sua resposta. “As pessoas não a respeitam, mas ela estava fazendo seu trabalho”, comenta. “Ela nos dava sonhos e sonhos é o que torna as pessoas verdadeiras.”

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