sexta-feira, maio 26, 2017

SAIU NOS JORNAIS...



Publicado originalmente em 02 de fevereiro de 1990



HÁ ALGO SINISTRO NOS PÂNTANOS DE LOUISIANNA

Ele é grande e tem os olhos vermelhos. Ele dividiu as águas estagnadas da HQ americana e enfartou censores. Com vocês o Monstro do Pântano, de Alan Moore.

Rogério de Campos

O Monstro do Pântano está de volta, depois de passar quase três anos morto. O paradoxo foi causado pela interrupção de suas histórias no Brasil. Na última, publicada na revista Superamigos 37 (setembro de 1987), ele morria ao sofrer o toque de um mendigo contaminado por lixo atômico. Alan Moore, provavelmente o maior roteirista da atualidade, autor de Watchmen, Piada Mortal, V de Vingança e, claro, da melhor fase do Monstro, estava desenvolvendo uma série de histórias ecológicas, em que atacava empresas poluidoras de forma mais dramática: fazendo o herói morrer. A editora brasileira aproveitou a oportunidade, parou com a série e os leitores brasileiros ficaram na mão, sem saber que no episódio seguinte o Monstro brotaria novamente. Agora, a série está de volta e - o melhor de tudo - com uma revista mensal.



Não é a primeira vez que o grandão tem uma revista própria. Nos início dos anos 80, a Ebal, que então editava o material da DC no Brasil, publicou as primeiras histórias do Monstro em formatinho. Na época, elas ainda eram escritas por Lein Wein e desenhadas por Berni Wrightson, os criadores da série.



O Monstro do Pântano surgiu numa pequena história em House of Secrets 92. Não por coincidência, o número mais vendido de toda a DC naquele mês - abril de 1971 . Em outubro de 1972, o Monstro ganhou título próprio, origem e sentido. A inspiração para os desenhos das personagens principais foram fotografias de amigos de Wrightson, pessoas do meio - Mike Kaluta "é" o vilão, Louise Jones, a heroína (Abgail) e o herói (Alec Holland), o próprio artista. A atmosfera por sua vez, era uma reminiscência do estilo clássico do artista da editora EC - Jack Davis, Frank Frazetta e principalmente Graham Ingels. O fato de ter se transformado num título bem sucedido não deixa de ser curioso. Afinal, sua editora (DC) foi, nos anos 50, uma das maiores defensoras do desprezível Comics Code, que fulminou com as revistas da EC.


O segundo grande período da revista Swamp Thing começou em 1983, quando o sangue do inglês Alan Moore e dos desenhistas americanos Stephen Bissette e John Totleben se misturou. Alan Moore tornou a série muito mais complexa. Em sua versão, o "herói" não é mais o homem, o cientista Alec Holland, vítima de uma reação química nos pântanos de Louisianna, mas, sim, o monstro criado naquele acidente, que nunca foi humano, a não ser em seus desejos. Os desenhos de Bissette e Totleben, por sua vez, criaram um background visceral, enchendo as páginas de insetos repugnantes e entranhas reviradas Os quadrinhos de horror nunca foram tão gráficos.



O choque com o Comics Code foi inevitável. O número 29 da saga escrita por Moore foi um turning point para a história da indústria dos quadrinhos. As páginas 21 e 22 apresentavam Abgail, a amante humana do Monstro do Pântano, cercada por um grupo de zumbis, moscas em volta de seus cérebros expostos... Se o leitor colocasse seu nariz próximo o suficiente da página, poderia praticamente cheirar a decomposição e os vermes sobre a carne pútrida, situação tornada ainda mais palpável pela locação pantanosa em Louisianna.
O pessoal do Code, previsivelmente, quase teve um ataque cardíaco. Mas, para seu eterno crédito, a DC publicou a revista assim mesmo. Isto é, sem o selinho de aprovação do código de ética. A partir de então, Moore, Bissette e Totleben não pararam de evocar situações cada vez mais repugnantes. As vendas aumentaram. E logo novas revistas seguiram a onda, formando o que hoje é conhecido como o mercado de quadrinhos adultos.



A nova revista nacional do personagem começa publicando o mais famoso épico de Moore, com o monstruoso ícone The American Gothic Saga. Nos EUA foram 26 edições que narravam as tentativas de uma repulsiva seita de bruxos da Patagônia, a Brujeria, para instaurar o reino da escuridão multiversal. Usando tradicionais elementos como vampiros, lobisomens, demônios e zumbis. Moore construiu uma narrativa convulsionada, que toca em tópicos tão diversos quanto desejo feminino, racismo, ecologia, drogas, religiosos fundamentalistas, moralismo eletrônico, poder nuclear e amor entre uma mulher e um vegetal. Tudo isso precedendo o clímax, um big bang metafísico em que o Bem encontra o Mal e, ao contrário da prática ortodoxa dos comics, o Bem falha em triunfar.



A saga também é importante, por marcar o surgimento de John Constantine, um misterioso personagem com visual à Sting, metido em coisas de esoterismo, demônios, etc, que se mantém bem distante da pinta de canastrão circense do gênero - vide Dr. Estranho. Fez tanto sucesso que acabou ganhando a sua própria revista nos States, Hellblazer - cujas histórias em breve estarão nas páginas do Monstro do Pântano tupiniquim. De maneira sobrenatural, a estréia de Constantine nos quadrinhos foi precedida, no Brasil, por uma aparição numa história bem mais atual, no número 3 da ótima revista Sandman - Globo.
Atualmente, o trio de ouro de Swamp Thing nada em pântanos próprios - Moore fundou sua própria editora, Mad Love, e Bissette e Totleben, seguindo seus passos, criaram a Spydergraphix baby. Seus substitutos, Rick Veitch e Stan Woch, por sua vez, já foram devidamente substituídos por Doug Wheeler.

TENDÊNCIA



HORROR: A SEDUÇÃO DOS INOCENTES


Na segunda metade dos anos 40, o mercado dos comics americanos estava dominado por revistas de crime - os crime comics. mas a ganância dos youngsters por mais e mais violência e sadismo  diagnosticado por experts como uma patologia induzida pelos efeitos da brutalização da Segunda Guerra, acabaria desagradando num período ainda mais polêmico da história da HQ.

O pomo da discórdia foi plantado pela E.C. Comics, uma editora que publicava versões quadrinizadas da História Americana e da Bíblia, até ser herdada pelo filho pródigo William Gaines, em 1947. Em abril de 1950, a revista Crime Patrol se transformou em Crypt of Horror, e o pânico tomou conta da América. Meses depois, vieram Vault of Horror e Haunt of Fear, numa tendência que dobraria toda a indústria americana de comics. Eram os primeiros quadrinhos de horror.




Revolucionários que eram, os comics da E.C., desenhados por uma seleção de mestres da HQ americana - Frank Frazetta, Wally Wood, Harvey Kurtzman, John Severin, Reed Crandall, Al Williamson, Graham Ingels -, não versavam sobre monstros fantásticos e fantasias estereotipadas; eram adaptações de ficção sobrenatural hardcore, cheios de mutilações, machados ensanguentados e perversões que faziam o material mais pesado das editoras concorrentes parecer contos de fada.

O impacto: até os anos 50, os quadrinhos costumavam ser angelicais. Super-Homem não beijava Lois e Bolinha vivia em pé de guerra com Luluzinha. De repente, uma profusão de sadomasoquismo foi despejada nas bancas da América, onde a relação básica rapaz-moça era: rapaz paquera moça; rapaz mata moça; moça apodrecendo, pulsando, gotejando, volta do túmulo pelo rapaz.



A reação: Bill Gaines é chamado diante do Congresso para esclarecimentos. Uma história especialmente escolhida para o inquérito tratava de uma menina de dez anos que, possuída por um espírito demoníaco, matara o pai a tiros e incriminara a mãe e o amante, que acabam condenados e executados pelo crime. A história não era nova. Baseava-se num conto do famoso pulp dos anos 30, Weird Tales. De todo modo, os congressistas decidiram que aquele tipo de publicação era prejudicial às crianças - supostamente o público alvo - e instituíram o censório Comics Code Authority, de 1954. Houve até queima pública de quadrinhos no carnaval montado pelo conservadorismo.



A segunda grande editora do horror americano foi a Warren, que no final dos anos 60 lançou as clássicas Eerie (matriz da famosa Kripta) e Creepy editadas por Archie Goodwin. Em suas páginas eram publicados José Ortiz, Steban Maroto, Alex Nino, Bernie Wrightson etc. A personagem mais famosa da editora era a sexy Vampirella, uma vampira espacial em traje de banho. O auge da Warren foi a publicação de uma antologia futurista chamada 1984 - logo rebatizada de 1994 por motivos cronológicos -, que estampava em sua capa as palavras proibidas: "sexo, pecado e excessiva imoralidade". Suas revistas escapavam da censura do Code por serem publicadas num formato maior - magazine - e em preto e branco. O êxito da Warren inspirou a comportada Marvel a lançar sua linha de comics de horror. Entre suas múmias, lobisomens e frankensteins transformados em super-heróis, destacava-se a revista Tomb of Dracula (A Tumba de Drácula, no Brasil), criada por Marv Wofman e Gene Colan, que logo se tornou artefato cultuado. A DC não teve tanta ressonância com seus títulos - House of Mystery e House of Secrets -, com a exceção da história que revelou o Monstro do Pântano. O personagem acabou substituindo e criando uma nova fase de horror contemporâneo (vide matéria nesta postagem). Seu primeiro desenhista, Bernie Wrightson, ainda produziu uma célebre edição ilustrada do clássico Frankenstein, de Mary Shelley, e a animação do filme Creepyshow, dirigido por George Romero.


Algumas encarnações recentes do horror tentaram reviver a glória da EC - marcadamente Weird Tales, de Bruce Jones, e Death Rattle, da Kitchen Sink. Mas as melhores hq's da atualidade são as mais distantes dessa tradição: adaptações dos trabalhos do escritor Clive Barker, uma aula de gore realizada pelas feras sanguinárias John Bolton, Ted McKiever, Neil Gaiman, Scott Hamptom, Wrightson, etc. Um choque como os Congressistas do macartismo jamais sonharam levar, ao abrir uma inocente e sedutora revista de quadrinhos. (M.P.)

Para ter acesso às edições de MONSTRO DO PÂNTANO, acesse:


2 comentários:

  1. Olá! Mesmo não sendo muito fã de quadrinhos de terror, sempre leio os seus textos pelas informações que trazem. Muito bom.

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    1. Obrigado, Alain.
      Outros serão publicados por aqui, abrangendo outros assuntos.
      A ideia é resgatar tudo que foi publicado nos jornais em uma época onde a internet não existia ou ainda engatinhava.
      Continue com a gente.

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