terça-feira, junho 27, 2017

SAIU NOS JORNAIS...


(Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo em 21 de maio de 1995)


JOE KUBERT 
ENSINA A INDÚSTRIA A RESPEITAR GIBIS

Aos 68 anos, desenhista passou por todas as fases há história das HQ’s nos Estados Unidos, fundou a única escola específica para profissionais da área e ainda se mantém na ativa trabalhando com TEX e o JUSTICEIRO.

Por Gabriel Bastos Júnior

Aos 68 anos de idade (completa 69 em setembro), 57 deles prestando bons serviços aos quadrinhos, Joe Kubert é a história viva da indústria dos gibis nos Estados Unidos. Trabalhou com vários dos grandes mestres, entre eles Will Eisner e Jack Kirby, e acabou entrando para este seleto clube de referências clássicas para jovens quadrinhistas.


Em 1976, fundou a primeira (e até hoje a única) escola de quadrinhos dos EUA – a Joe Kubert School of Cartoon and Graphic Art. Segundo as principais editoras do país, 60% dos artistas que entraram na indústria durante este período passaram de uma forma ou de outra, pela escola. Entre os alunos mais famosos da escola estão os filhos de Joe – Adam e Andy Kubert -, que fizeram tanto sucesso com os personagens da Marvel Comics (X-men e Wolverine, respectivamente) que muita gente inverte a situação.


Kubert tem uma lista inumerável de trabalhos e personagens. Entre os mais famosos estão Sargento Rock, Flash e o Gavião Negro, além de uma recente série do Justiceiro. Mas seu trabalho mais reconhecido é Tarzan, o clássico personagem de Edgar Rice Burroughs que já foi ilustrado por outros grandes nomes como Hal Foster e Burne Hogarth. Atualmente está fazendo uma história de mais de 200 páginas de Tex para o editor italiano Sergio Bonelli. Também está trabalhando em um projeto pessoal chamado Fax From Sarajevo (a ser publicado com capa dura pela Dark Horse), contando sua visão da guerra da Bósnia através de fax quase diários que recebia de um amigo entre 1992 e 1994. Em entrevista ao CADERNO 2, Joe dá uma aula sobre HQ e fala da importância deste meio em sua vida.

CADERNO 2 – O senhor atravessou toda a época de ouro dos quadrinhos americanos, mas também enfrentou a censura. Como foi esta fase?

KUBERT – No meio dos anos 50, houve uma comissão no Senado para avaliar o efeito negativo dos quadrinhos nos jovens. Para evitar um censura oficial, os editores se reuniram e criaram o Comics Code Authority, que era um instrumento de autocontrole. Todo o material a ser publicado tinha que ser previamente submetido a uma comissão para ser aprovado. Mas é preciso que se deixe claro que quadrinhos nunca foram considerados uma forma de arte. Naquela época era só “junk media” (mídia lixo).


CADERNO 2 – O status das HQ’s não era muito bom...

KUBERT – As pessoas tinham vergonha de dizer que faziam quadrinhos. Muitos dos que foram trabalhar na indústria eram ilustradores de revistas que realmente não tinham mais onde publicar e não queriam admitir que faziam “revistinhas”. Este meio sempre foi considerado uma arte menor. Nunca foi aceito como uma forma de expressão adulta. Eu sempre me orgulhei do meu trabalho, sempre quis trabalhar com isto e estou muito satisfeito.


CADERNO 2 – A qualidade dos trabalhos publicados estagnou naquele período?

KUBERT – Neste ponto só posso falar do meu ponto de vista. Não tive grandes problemas porque em meu trabalho prefiro sugerir as coisas do que mostrar o que realmente está acontecendo. Isto diz respeito tanto à violência quanto ao sexo, os dois principais alvos da censura. Eu quero permitir que o leitor imagine o que está acontecendo até porque não posso ir tão longe quanto sua mente. Vejo alguns trabalhos com belíssimas cenas de sexo e acho que isto funcionaria muito bem para as revistas médicas. Mas sou um contador de histórias. Fazer quadrinhos é isto.


CADERNO 2 – A imagem dos quadrinhos parece estar melhorando. O que está acontecendo?

KUBERT – Esta visão mudou mais nos últimos 10 anos do que nos 50 anteriores. AS HQs são consideradas uma forma mais legítima agora. Mas não sei por quê. Muitos editores gostariam de ter essa resposta, assim fariam tudo se tornar aceitável. Mas o fato é que elas ainda não são aceitas como um meio adulto.



CADERNO 2 – Como o senhor vê esta questão? O senhor acredita no potencial dos quadrinhos como expressão artística?

KUBERT – A sensação que tenho é que os quadrinhos não devem absolutamente nada a nenhuma outra arte existente. Trabalhos que vi de gente como Hal Foster em Tarzan e Príncipe Valente, Alex Raymond em Flash Gordon e Milton Caniff, em Terry e os Piratas são simplesmente magníficos. Reúnem ilustração, narrativa e diálogos com perfeição. São grandes artistas em qualquer nível.



CADERNO 2 – O senhor só citou americanos...

KUBERT – Reconheço o valor de desenhistas como Moebius e Serpieri. Embora não concorde com a temática de seus trabalhos, são artistas tecnicamente perfeitos. Mas é importante dizer que além de uma expressão artística, quadrinhos também são um veículo de comunicação. A primeira função de um quadrinhista é contar uma história.



CADERNO 2 – Neste sentido, ele é tão eficiente quanto qualquer outro meio...

KUBERT – Talvez seja o mais eficiente deles. Qualquer um entende desenho. E no cinema, por exemplo, você não pode voltar a página. Há vantagens que só os quadrinhos tem.

CADERNO 2 – Eles são um meio interativo...

KUBERT – Minha teoria é: seja tão simples quanto o possível, deixe o leitor terminar tudo. O artista deve sempre deixar algo para o receptor até por que ele jamais vai atingir a perfeição.



CADERNO 2 – Quanto uma boa história depende do roteirista?

KUBERT – O trabalho do artista é pegar uma história e, com um pouco de sorte, leva-la um passo adiante. Isto é muito mais fácil quando se tem um bom roteiro. Eu tive sorte em trabalhar com escritores talentosos como Bob Kanigher, que escrevia Sgt. Rock. Mesmo assim, hoje estou inclinado a escrever meus trabalhos, para ter tudo sob controle.



CADERNO 2 – Mas recentemente o senhor trabalhou com o Justiceiro, para a editora Marvel e atualmente está fazendo Tex. Estes trabalhos não são escritos por outras pessoas?

KUBERT – Tem razão. No caso do Justiceiro, as pessoas estavam começando a pensar que eu tinha me aposentado ou morrido porque não vinha fazendo muitos trabalhos populares. Escolhi um personagem famoso o suficiente para que o mundo visse que eu ainda estava trabalhando. Quanto a Tex, Sergio Bonelli queria que eu fizesse uma história do personagem há anos. Desta vez resolvi aceitar e ele me deu uma história excelente com mais de 200 páginas, Além de me aliviar com a questão do prazo de entrega para que eu pudesse me dedicar mais ao meu projeto pessoal.



CADERNO 2 – O senhor compara Fax From Sarajevo a Maus, de Art Spiegelman, vendido em livrarias e lojas de gibis...

KUBERT – Vejo este trabalho como um livro muito sério. Ele será publicado com capa dura e seu alvo inicial é sem dúvida, as livrarias. Mas minha motivação não é torna-lo aceitável ou encontrar um novo nicho de mercado. Simplesmente estive envolvido com algo que me perturbou e precisava fazer alguma coisa a respeito.

CADERNO 2 – As pessoas costumam dizer que este tipo de trabalho não é quadrinhos...

KUBERT – É claro que é quadrinhos. Temos uma variedade de assuntos tão vasta quanto queremos. Um filme de western não deixa de ser um filme. O gênero pode mudar, mas o veículo é o mesmo.



CADERNO 2 – Por que o senhor decidiu montar a escola?

KUBERT – Fundei a escola em 1976 porque achei que seria importante existir um lugar onde as pessoas pudessem aprender este ofício. Eu tive a sorte de trabalhar com gente como Will Eisner e Jack Kirby, que me ensinaram tudo que eu precisava sobre coisas técnicas. Além de perspectiva, anatomia e outras coisas comuns ás artes plásticas, o quadrinhista precisa saber que materiais usar, como trabalhar com cores, etc. Era este tipo de necessidade básica que eu queria entender. E percebi que poderia fazê-lo sem abandonar minha carreira.

CADERNO 2 – A indústria aceitou a escola?

KUBERT – Este meio mudou muito nestes últimos anos. Atualmente temos visitas de editores para entrevistar nossos formados. Há 20 anos era dificílimo se chegar a um editor. Mas naquela época não se pagava royalties ao artista por seu trabalho, por exemplo.



CADERNO 2 – O senhor tinha a preocupação em mostrar aos alunos o valor dos quadrinhos?

KUBERT – Como disse, sempre tive orgulho do meu trabalho e ensinava desta forma. Mas não acho que jamais tenha precisado me preocupar com isso. As pessoas que vem estudar aqui já gostam e, obviamente respeitam quadrinhos porque a escola é muito específica. Nem sei se somos  conhecidos em outras áreas de arte.

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