sábado, outubro 28, 2017

SAMSARA - GRAPHIC GLOBO


GRAPHIC GLOBO
SAMSARA
Exemplar doado por Francisco Feitosa

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Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, 27 de março de 1991

“SAMSARA, A DIFERENÇA ENTRE CLICHÊ E REALIDADE

O cineasta Guilherme de Almeida Prado estréia como roteirista de HQ em uma graphic novel desenhada pelo autor do story board do filme A Dama do Cine Shangai

Ricardo Lombardi

Guilherme de Almeida Prado, vencedor de dois Kikitos em Gramado-88 com A Dama do Cine Shangai (melhor filme e direção), está há quatro anos tentando começar seu novo filme. Perfume de Gardênia. Ano passado, parte da verba ficou presa com a extinção da Embrafilme. Nesse meio tempo, descobriu uma nova área de trabalho, os quadrinhos, sobre o que conversou com o Caderno 2. Sua última leitura foi Asilo Arkham, mas bastou sua mulher entrar pela sala de estar para entregar o jogo. Guilherme tem a coleção inteira de Calvin, de Bill Waterson, seu autor favorito.

CADERNO 2 – Você é o primeiro cineasta brasileiro a fazer um roteiro para quadrinhos. O que o motivou a realizar o projeto?

GUILHERME – Quando estava trabalhando em A Dama do Cine Shangai, o Hector, que desenhou o story board do filme, disse que gostaria muito de fazer uma HQ e sugeriu que adaptássemos A Dama. Eu disse que preferia escrever algo diferente e não trabalhar sobre o mesmo material. Aí fui fazer o filme e não pensei mais no assunto. Tempos depois, estava contando a história de Samsara a um amigo aficionado de HQ e ele me disse: “Olha, isso dá uma HQ”. Liguei para o Hector e a gente começou meio que na brincadeira e só realmente há um ano resolvemos encarar a sério.

CADERNO 2 – Por que Samsara se passa em Nova York e não em São Paulo?

GUILHERME – Porque a história não ficaria muito lógica se passasse aqui. Na realidade, a única cidade em que poderia se passar seria Nova York. Se fosse em São Paulo seria completamente surrealista; em Nova York pode parecer, de repente, uma história realista.

CADERNO 2 – Assim como nos seus filmes, em Samsara você usa muitos clichês. Por que a fixação?

GUILHERME – Não sei se é porque sou um aficionado de cinema em geral e assisto a um número muito grande de filmes e acabo percebendo as semelhanças que existem em todos eles, que é o clichê. Nasce até extremamente original. Só que essa originalidade vai sendo copiada, recopiada e acaba se transformando em clichê. Gosto muito desse estudo da “clichelogia” e acabo transferindo isso para meu trabalho.

CADERNO 2 – Um filme com roteiro de Samsara, ia custar uns US$ 50 milhões. O fato de você partir para fazer quadrinhos reflete a falta de condições para produzir um filme desse porte no Brasil?

GUILHERME – Exatamente. É uma frustração mesmo. De repente você tem vontade de fazer um determinado trabalho, mas vive num país assim... então acho que reflete essa falta de condições, onde eu tenho que fazer um filme com US$ 80 mil.

CADERNO 2 – Como foi o processo de criação desse roteiro?

GUILHERME – Quando comecei a trabalhar, escrevi o roteiro como se fosse um filme. Depois percebi que na HQ existem outras relações, existe quase uma relação de virar a página. É diferente do filme, porque, em quadrinhos, você não conta ou conta muito menos com a interpretação. Por mais que você queira criar tensões nas caras dos personagens, perde-se muito com isso. Sou um diretor que trabalha muito com clima. Numa HQ você não pode perder muito tempo com clima, você tem de ter uma ação muito grande e isso foi um trabalho bárbaro com o Hector, em que aprendi muito. Ele falava: “Não escreva essa sequência em que eles ficam horas no bar, isso não dá”. Tentamos manter ação em cada página.

CADERNO 2 – Você gostou do resultado final?

GUILHERME – Gostei. Há coisas que mudaria, mas achei que no global ficou interessante.

CADERNO 2 – O que você mudaria?

GUILHERME – É difícil dizer, mas quando li, com o trabalho já finalizado, senti vários momentos que pretendo corrigir na próxima. Se fosse fazer um filme com o roteiro, cortaria uns pedaços.

CADERNO 2 – Qual será sua próxima HQ?

GUILHERME – Já estou desenvolvendo uma minissérie de faroeste com o Hector. Mas suspendi temporariamente para trabalhar no meu filme.

CADERNO 2 – Se vendesse o roteiro para Hollywood, quem gostaria que dirigisse o filme?

GUILHERME – Sempre vou achar que poderia dirigir direito. A atual safra de diretores americanos está meio fraquinha. Gostaria, por exemplo, que o Alain Resnais dirigisse, mas acho que ele jamais toparia.


CRÍTICA

CLICHÊ COM SOTAQUE IANQUE

Marcel Plasse

A morena fatal entra no escritório do detetive. Sem bater, como todas as morenas fatais precisando encontrar o marido. John Adam Lovecraft esforça-se em utilizar frases cortantes à Phillip Marlowe, embora seus diálogos estereotipados tenham a marca indelével das bobagens ditas no cinema nacional. Sua femme fatale também está mais para Shirley Sombra, personagem de Carla Camuratti no pseudonoir Cidade Oculta, de Chico Botelho, que para Lauren Bacall. O pós modernoso jogo das referências faz parte do estilo de Guilherme de Almeida Prado. Seu filme A Dama do Cine Shangai foi uma paródia homenagem aos filmes noir. Samsara, sua experiência como roteirista de quadrinhos, segue a mesma tendência: tem tudo o que de pior existe num comic book, clichê do primeiro ao último quadrinho.

A ação se passa em New York, o herói se chama Lovecraft – como o escritor norte-americano H.P. Lovecraft, citação deslocada – e o enredo faz reciclagem de HQ, do filme De Volta para o Futuro e da telessérie Túnel do Tempo. Do mesmo modo que a Empire de Charles Band, sediada em Roma, e antes dela os estúdios filipinos comandados por americanos. Prado reúne diversas fontes num único e previsível lixão de falso sotaque ianque. Extrai humor em auto-referências – Perfume de Gardênia, seu quarto longa-metragem, ainda no roteiro, aparece em cartaz na Broadway. Se levasse os clichês e extremos, teria um divertido artefato weirdo, esquisitão. Infelizmente, comete o óbvio, caindo no desfecho mais banalizado das viagens no tempo, o happy end de Adam e Eve.

Samsara é a primeira graphic novel brasileira, o equivalente a uma superprodução no gênero – papel couchê e impressão colorida não costumam ser destinados a criações nacionais. Os traços de Hector Gomez Alísio, argentino radicado no Brasil, lembram Manfred Sommer, autor de Frank Cappa, e fazem referências ao Incal, de Moebius e Jodorowski – embora a capa sombria sugira Sienkiewicz, o que pode confundir os leitores. Alísio desenha personagens infantilizados, inexpressivos. Seu Lovecraft não está distante de Juba e Lula, os heróis canastrões da telessérie Armação Ilimitada, que viraram quadrinhos em suas mãos. Na telinha, as aventuras da Armação utilizavam a linguagem da HQ de maneira criativa. No gibi, o que se vê são idiossincrasias que, sem as cenas de nudez, caberiam num desenho animado.


Um comentário:

  1. Muito curioso esse post..
    Obrigado pelo criterioso serviço de resgate da história das Histórias em Quadrinhos Brasileiras.
    Abraços

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