sábado, novembro 11, 2017

WARREN COMPANION...


WARREN COMPANION

A ERA OBSCURA
VAMPIRELLA E OS DIAS OBSCUROS

Entrevista com Jim Warren, criador/proprietário da editora Warren, responsável pelas revistas Eerie, Creepy e Vampirella

Tradução de Ane Forcato

(Parte I de II)


Precisando desesperadamente de um sucesso, editora de quadrinhos achou a mina de ouro em 1969 com o advento da sua personagem mais popular, Vampirella. Essa é a arte de Frank Frazetta para a primeira publicação. Vampirella 2001 Harris Publications.

JON B. COOKE: Por umas 17 publicações de Creepy e 11 publicações de Eerie, suas revistas aparecem com as melhores artes surgidas nos anos 60. Você publicou o primeiro trabalho de quadrinhos adultos de Neal Adams, indiscutivelmente o melhor trabalho da carreira de Steve Dikto, material extraordinário de Alex Toth, algo aqui de Gil Kane, algo lá de Dan Adkins - deixa pra lá o material excelente da equipe original - e o Archie Goodwin era escritor e um editor considerou sua vocação como uma das grandiosidades dos quadrinhos; mas de repente a qualidade caiu drasticamente quando o Archie se demitiu como editor e sua equipe estável de artistas desapareceu inteiramente. Em 1968 você estava reeditando aqueles materiais antigos fragmentados e com grande frequência, combinados com alguns trabalhos medonhos algumas vezes. O que aconteceu?

Archie Goodwin

JIM WARREN: O que aconteceu é o que acontece com a maioria das empresas, até com governos: Nós alcançamos um período ruim. Nos deparamos com tempos difíceis. Eu tinha mudado todas as operações da Filadélfia pra Nova Iorque. Os escritórios de edição e distribuição haviam operado em Nova Iorque desde 1960, mas a Captain Company era na Filadélfia, assim como nossas grandes instalações de expedição. Atravessamos um período de transição no qual fechamos uma operação de entreposto onde a companhia estava pagando um aluguel de $400 ao mês, e nos mudamos pra Nova Iorque onde espaços compatíveis custavam $4000 ao mês. Adicione que eu tive de contratar trabalhadores em Nova Iorque. Fazer negócios em Nova Iorque é uma proposta cara, mas eu queria tudo em Nova Iorque - era o preço a se pagar para crescer. Aquela manobra levou um belo bocado dos nossos recursos.

E, como quis a sorte, ao mesmo tempo que tivemos essa sobrecarga adicional pra comer esse bocado do nosso fluxo de caixa, nós sofremos uma queda nas vendas no mercado de revistas. Isso acontece no nosso negócio, e você espera até que ele retorne; mas os dois eventos acontecendo ao mesmo tempo nos feriu demais. Essas pressões eram enormes. Hoje em dia eles chamam de "downsizing" (diminuir as dimensões), mas nós chamamos pelo seu nome real: Corte de Pessoal pra Sobreviver. Não podíamos nos dar o luxo de pagar aos artistas $35 por página. Sobretudo, trocamos de distribuidores, o que significou problemas adicionais de fluxo de caixa. Então eu editei Creepy e Eerie por um período até que encontrei alguém que pudesse assumir o controle. O corte de pessoal foi até o osso. Eu assumi como editor de todas as revistas, escolhendo os textos, atribuindo a arte, e fazendo toda a produção. Eu não tinha um homem da produção ou uma equipe de edição. Estava trabalhando 20 horas por dia, sete dias por semana. No fim eu encontrei o Bill Parente e o John Cochran, cada um entrando para um período de alguns poucos anos como editor de Creepy, Eerie e Vampirella. Se eu não tivesse encontrado esses dois grandes caras, eu teria sucumbido. Esses dois homens merecem crédito por me ajudar a salvar a companhia. Foi um pesadelo que durou de 1968 a 1970. Nunca trabalhei tão duro na minha vida.



Durante aquele período tivemos de nos apoiar em reimpressão de capas e conteúdos, as revistas ficaram com 48 páginas, e eu estava envergonhado do produto. Era horrível. Havia erros de digitação, não dávamos crédito para as pessoas certas pelas histórias, e às vezes não havia nenhum crédito. Era o inferno - pra mim e pros nossos leitores.

Além disso tudo, eu estava recebendo ofertas de outras editoras para ir trabalhar com eles por $50,000 ao ano.



Jon: Mas você ficou. Você atravessou um período severo de qualidade, até na contagem de páginas, mas no meio dessa crise, você saiu com a personagem mais reconhecível pela qual você será provavelmente mais conhecido.

Jim: Vampirella. Aprendi essa com o meu pai: Ele disse, "Quando você está pra baixo e fora, e realmente no seu pior, é hora de ir pra Lua. É hora de arriscar o jogo, não bater na trave." E foi o que a companhia fez. Era a pior hora pra fazer isso. Não tínhamos dinheiro, nem linha de crédito, nada, nem alguma coisinha... exceto a ideia para uma personagem feminina na minha cabeça, esboços no meu caderno, Frank Frazetta, Forry Ackerman e Trina Robbins (que estava no meu escritório na hora certa) - e tinha sobrado energia o bastante pra arriscar o jogo e ganhar.


Jim Warren fazendo ligações telefônicas de seu apartamento de cobertura em Nova Iorque, aproximadamente em 1972. Cortesia de Jim Warren.

De todos os escritores a escolher pra fazer a "Vampirella", escolhi o Forry. O Forry não era interessado particularmente por quadrinhos - Ficção científica é seu primeiro amor. Ele nunca tinha feito nada pelos quadrinhos e nem mesmo os lia. (As únicas tirinhas que eu acho que ele tinha lido era Flash Gordon e Buck Rogers porque eram ficção científica). Eu disse, "Forry, eu sei que você consegue fazer isso." Nós dois tínhamos visto o filme Barbarella juntos e tínhamos adorado. Eu cuidadosamente tracei exatamente o que eu queria: Um entardecer moderno mas com um quê da mística dos vampiros, Transilvânia; algo de lendário - e nasceu a Vampirella. Eu disse, "Forry, eu sei exatamente a aparência dela; não se preocupe com isso. Suas cores vão ser vermelho vibrante de excitação e preto piche de mistério. Só me dê algo pra trabalhar." E ele deu - mas não era o que eu queria; era superficial demais, leve demais, satírico demais - e o único artista que eu poderia contratar no momento era Tom Sutton. Em retrospectiva, o estilo de desenho do Tom não era o certo para Vampi, assim como o estilo de texto do Forry não estava alcançando o tom que eu queria. A primeira publicação foi horrível - e a a segunda foi tão ruim quanto; simplesmente não era o que eu queria. Lutei com diversos roteiristas e artistas durante muitas publicações. De repente ela veio à vida na 12° publicação com o Archie escrevendo inteiramente uma nova origem. No momento em que eu coloquei os olhos no trabalho de arte do Pepe Gonzales, eu sabia que era isso! Sobrevivemos a 12 edições, mas lá estava. Era isso que eu queria para a primeira edição e não tinha conseguido juntar as peças. Agora se pelo menos houvesse uma maneira de varrer as primeiras 11 publicações e apagar tudo da memória! De qualquer forma, naquele momento nós já estávamos de pé financeiramente e pisando chão sólido de novo, prontos pra ir em frente.


A arte de Tom Sutton em Vampirella

Jon: Você combinou terror com sexo. Era essa a fórmula?

Jim: Pense em Bram Stoker e no que ele fez com Drácula: Terror e sexo.

Jon: Era sexo! O bom sexo americano! Havia essa gata sexy na capa, em pé...!

Jim: Eu não queria a Mulher Maravilha. Não queria um tipo super heroína. Eu desejava um cenário mais moderno. Sexy, mas não nua ou de seios de fora.

Jon: Você originalmente tinha a intenção de usar outra pintura para a capa do primeiro Vampirella que não era do Frazetta.



Barbara (Vampirella de carne e osso) e Forry Arckeman

Jim: Foi feita por um artista francês incrível chamado Aslan. Tinha ficado definido usar aquela pintura para a primeira capa mas então me ocorreu que seria melhor utilizarmos o dom que Deus deu ao Frank. Quando o Frank retrata uma mulher que ele injeta uma certa mística em sua representação. Eu queria a minha Vampirella com a mesma mística. Harvey Kurtzman disse isso antes de mim: "Como alguém consegue fazer algo assim?" (Frank trabalhava em "Little Annie Fanny", e Harvey ficou boquiaberto com o que o Frank conseguia fazer com um pincel...  e o Harvey estava exposto a todo grande talento do mundo!) Eu sabia que além de ser um excelente técnico, Frank também podia inserir algo numa personagem que lhe adicionaria uma certa dimensão; uma estranheza, um mistério. Você já viu as mulheres do Frank. Todas têm uma história atrás de si, um mistério típico de H. Rider Haggard (Sir Henry Rider Haggard, escritor britânico, escreveu obras como As minas do rei Salomão, entre outras, geralmente protagonizadas por exploradores ingleses), que você fica louco pra descobrir!


 A estréia de Pepe Gonzales


Jon: Em 1970, a Marvel Comics surgiu com a primeira publicação Savage Tales, uma revista em quadrinhos preto e branco. Em poucos anos a Marvel inundou o mercado com as revistas preto e branco. Anteriormente, você chegou a fazer algum acordo com o Martin Goodman, editor da Marvel, para ambos não invadirem o nicho um do outro?

Jim: Eu nunca encontrei ou falei com Martin Goodman na minha vida.

Jon: a DC fez uma tentativa imprecisa naqueles dias no mesmo campo com o Spirit World de Jack Kirby e In the Days of the Mob, que só duraram uma edição cada.

Jim: A história que eu ouvi foi que a National, DC e a Marvel viram que estávamos fazendo incursões mercado delas. Elas eram a Ford e a General Motors, e aqui vinha esse pequeno cara Volkswagen, o Warren, e ele estava capturando uma parte de seu mercado e criando alguma empolgação. Eles sempre disseram, "Esquece! Isso não é nada; ele nunca vai vender além de um número limitado de cópias. Nada com o que se preocupar." De repente eles deram outra olhada e disseram, "Ei, esse cara está se dando bem. Talvez a gente devesse entrar nesse negócio. Nós temos as bancas de jornais, o poder e a reputação, e se o Warren pode te suprimir, você vai acabar desperdiçando sua energia no seu rival ao invés de usá-la para criar novas coisas pra ele roubar.


Um dos artefatos mais curiosos de Warren é On The Scene Presents Freak-Out, U.S.A., a tentativa de Jim de entrar para o mercado de revista de música. 2001 Warren Publishing.

Jon: Em Web of Horror, um número de criadores importantes estavam tendo bastante sucesso antes de irem pra você. Ao mesmo tempo, suas taxas de página eram baixas e você trouxe novos talentos, incluindo o Billy Graham.
Jim: O bom e velho Billy!

Jon: O Billy conseguiu chegar ao cargo de diretor de arte bem depressa.

Jim: Não tão depressa. Levou mais de suas semanas! Eu senti que o Billy tinha habilidade pra lidar com isso; alguns escritores e artistas são fantásticos, mas eles não conseguem sair de suas especialidades e fazer algo mais. O Billy conseguia. Então eu disse: "Billy, agora você é diretor de arte! Goste você, ou não." Agora, você tem que entender que tudo o que o Billy queria fazer em toda sua vida era somente ser o Jack Kirby. Eu disse: "Você será o Jack Kirby negro, mas não hoje! Hoje você é o diretor de arte da Warren Publishing." Mas ele falou: "Eu não posso dirigir arte!" E eu falei: "Eu vou te mostrar como. Aqui está o seu escritório; você agora tem um trabalho em tempo integral. Pagamento toda sexta. Aceita?" E ele respondeu: "'Cê tá é certo!" E eu o ensinei a dirigir arte durante os períodos mais parados, e só levou um par de publicações - e ele estava se dando muito bem (ainda que eu tenha lhe dado um colapso nervoso).

Jon: O Billy acabou indo trabalhar na concorrente (no caso dele, a Marvel), junto com um número de criadores que trabalhavam pra você. Isso te aborrecia?

Jim: Pode apostar que sim - mas eu não deixava eles notarem. De qualquer forma, no fim eles se mancaram pelo jeito que eu os olhava, pelos meus modos, e o mal humor dissimulado, os insultos sutis que eu lhes atirava. Quando alguém ia anunciar que fulano de tal estava ali, eu falava bem alto: "Ah, aquele bastardo podre filho de uma puta traidor que dorme com o inimigo? Mande entrar [risos] Não deixe ele tomar nosso café; manda ele tomar café da Skywald ou na Marvel!" Hoje eu entendo que esses homens tinham que ganhar a vida e eu não podia cercear sua partida. Eu só queria ter conseguido lhes dar o suficiente para os manter conosco.


Mike Ploog


Jon: Você também publicou o primeiro livro em quadrinhos principal para o Mike  Ploog. Como ele era?

Jim: Não convencional e lindo. Ele tem um estilo que é único. Mike como pessoa é exatamente igual ao seu trabalho sobre o papel - divertido. Você pode imaginar o Mike Ploog exatamente em uma de suas tiras. É um espírito livre com uma mente criativa de primeira linha.

Jon: Você se lembra dos comentários de Will Eisner a você quando o Mike começou a trabalhar pra você?

Jim: E aqui está Will Eisner - meu ídolo - um homem que eu reverencio como a Deus, me dizendo que eu sou um filho da puta porque roubei o Mike Ploog dele. Eu acho que eu murmurei alguma coisa: "Bem, se eu tenho que roubar, Sr. Eisner, então vou roubar do melhor. Ele é o tipo do cara que pode me chamar me filho de uma puta e me fazer adorar isso. Você não consegue ficar ressentido.



A arte de Ploog

Jon: Nada estimula tanto a competição quanto o sucesso e você tinha muita competição com o material de Creepy e Eerie. Especificamente, havia alguns mistérios excelentes por lá, por exemplo Myron e Irving Fass. Você por acaso se lembra deles? Myron era editor de Horror Tales, Weird, Witches Tales... Na verdade revistas de segunda linha. Irving era irmão de seu diretor de arte.


Jim: As revistas do Myron não eram de segunda linha de jeito nenhum. Elas eram de terceira linha. E eu espero que ele nunca leia essa entrevista. Sua empresa se chamava Countrywide Publications, e seu parceiro era um homem chamado Stanley Harris. Esse nome te diz alguma coisa? Myron dizia, "Bem, eu vou encomendar esse material horroroso, fazer uma impressão barata, e competir com o Warren." Pensando no número de árvores que precisaram ser cortadas pra fazer o papel pra tanto lixo me faz chorar.

Jon: Ele teve certa longevidade de qualquer forma, publicando de 1966 a 1976.

Jim: Strom Thurman teve longevidade também, mas eu não teria vontade de jantar com ele. Na verdade eu encontrei o Myron em um par de ocasiões. Havia uma coisa chamada Conselho dos Publicadores, um grupo empresarial. Todo editor de revista barata pertencia a ele. Chip Goodman, filho do Martin, foi às reuniões, assim como Myron Fass, eu e talvez outros oito ou dez. Praticamente nem falei com o Myron, mas por alguma razão eu achei difícil não gostar dele. Primeiro porque ele carregava um revólver [risos]. Ele tinha porte de arma de verdade. Ouvi dizer que uma vez ele deu um tiro no próprio pé enquanto fazia uma demonstração de como sacar rápido. John Wayne é que ele não era.



Carl Burgos

Jon: Ele tinha o Carl Burgos, criador do Tocha Humana, como editor?

Jim: Acredito que o Carl Burgos - que não me lembro de ter encontrado um dia - trabalhava pro Myron Fass. E por falar nisso, eu adorava o Tocha Humana e o Namor... que tinha as orelhas do Spock.

Jon: Você ficava de olho na competição? Você realmente os pegava nas bancas?

Jim: Eu os observava com uma lupa. Eu conseguia os números de suas vendas antes deles.

Jon: Como você fazia isso?

Jim: Eu gosto de pensar que eu fazia [risinhos].  Eu fazia a ronda das bancas de jornal, perguntava como iam nossas vendas, como iam as vendas deles, quantas cópias da competição você pegou, quantas vendeu? A competição me aborrecia porque eles estavam roubando minhas ideias. Eu não fiquei exatamente eletrizado com o Stan Lee quando ele apareceu com sua linha de terror em P&B. Eu falei pro Stan do meu desgosto, mas ele preferiu ignorar. O que você espera de um cara que recebe o Bill Clinton pro jantar?


Um momento raro de Warren se jogando numa tendência de única chance de adoração bizarra dos anos 60 ao tardio tocador de ukelele que cantava "Tiptoe Through the Tulips". 2001 Warren Publications.

Jon: Você conheceu o Israel Waldman da Skywald Publications?

Jim: Não me lembro de ter encontrado ou mesmo falado com ele. Só sei que ele era nosso concorrente.

Jon: E quanto ao Sol Brodsky?

Jim: Eu devo ter falado com o Sol. Não tenho certeza. Eu não confraternizava fácil com o inimigo. Eles podiam estar carregando revólveres.

Jon: [risos] Você conheceu o Richard Sproul, editor da revista Cracked e da Web of Horror que durou tão pouco?



Jim: Não conheci o Richard Sproul mas eu me lembro sim da Web of Horror. Infelizmente, eu também me lembro de um incidente envolvendo a revista Cracked que é muito doloroso. Já faz uns 25 anos e eu só parei de pensar nisso ontem. Foi assim: Cracked estava à venda do meio para o fim da década de 70. Creio que foi devido ao falecimento do dono, ou um dos donos. Do que eu me lembre, tinha uma viúva envolvida que queria vender a propriedade. O presidente da nossa gráfica, a World Color Press, me telefonou pra perguntar se eu estava interessado em comprar a Cracked. Eu não tinha no que pensar- eu falei na hora: "Absolutamente." O valor pedido estava na casa dos milhões. Eu achava que a revista seria perfeita para a companhia. Eu poderia facilmente agregar os talentos pra fazer a qualidade subir num pulo ou dois. Eu mesmo seria o editor.  Seria um trabalho divertido! Na época, Cracked tinha 48 páginas mais as capas. Nós adicionaríamos mais 16 páginas e preenchê-las com nossos anúncios da Captain Company. Ao mesmo tempo, eu melhorava o conteúdo editorial. Não podíamos competir de igual pra igual com a Mad porque a Mad tinha uma classificação única. Com talentos como Sergio Aragonés, Mort Drucker, Dave Berg, etc., eu não poderia suplantar a Mad. Mas eu concluí que poderíamos levantar um produto respeitável - e faria barulho! A desvantagem seria ter que competir com o Bill Gaines - de quem eu gostava e tinha amizade.

Fui ao nosso banco, nossa gráfica e nosso distribuidor, e contei que ia comprar a revista se eles me concedessem o empréstimo para metade da aquisição, sabendo que os três seriam beneficiados com o acordo. Eu também estava cofiando que iria conseguir baixar o preço em uns 25%. Porém duas coisas aconteceram: Eles não baixaram o preço, e meu distribuidor não me apresentou termos que fossem aceitáveis para nós. O tempo se esgotou. O acordo se desfez.

Mais tarde eu caí em mim que eu devia ter sido mais agressivo, mesmo se significasse pagar o preço inteiro. Teria sido uma boa soma pra nossa família de títulos. Eu teria feito funcionar. Eu devia ter feito acontecer. Ao invés disso, outra pessoa no fim a adquiriu. Essa foi a desvantagem. A vantagem? Bill Gaines e eu continuamos amigos. E eu não tive que passar pelo trauma de possuir uma revista que jamais seria mais que a segunda melhor.

Jon: Pelo menos publicamente, Stan Lee e Carmine Infantino raramente reclamavam de sua competição, mas você era lendário por abater concorrentes. Era a diferença entre ambas as atitudes respectivas na direção dos concorrentes por eles terem um imenso número de concorrentes enquanto você tinha esculpido um nicho pra si mesmo - virtualmente criando o mercado de revistas em quadrinhos preto e branco onde nenhuma tinha existido antes realmente (exceto, discutivelmente, pela tira EC Picto-Fiction que teve vida curta)?



Jim: Minha atitude contra os concorrentes começou com Famous Monsters. Eu declarei guerra mentalmente contra o primeiro imitador e todo concorrente posterior que veio depois de mim, simplesmente porque não havia espaço suficiente em Dodge City pra todos nós. Ex empregados começaram a lançar revistas de monstros depois de deixarem minha companhia. Eu devia desejar tudo de bom pra eles? Por outro lado, os empregados da Warren Publishing não conseguiam originar esse ódio, o que é provavelmente uma coisa boa porque isso os manteve civilizados. Sei que o ódio é destrutivo. Ele devora a pessoa que o nutre. Mas eu não conseguia evitar. Eu tinha uma paixão profunda pelo que nós criávamos. Era nosso filho, e alguém lá fora estava roubando a comida da boca dele. Era mentalmente necessário pra mim ir à guerra.

Jon: Você chegou a ver as vendas de suas revistas oscilarem quando um novo concorrente entrava em cena?

Jim: O tempo todo. Era impossível não acontecer. Eles vinham com suas primeiras edições, e todo mundo comprava porque era coisa nova. Você via isso imediatamente porque os ganhos que nossos jovens leitores podiam gastar era em geral a mesada que ganhavam de seus pais. A garotada não era assalariada. Se seu leitor tinha um dólar de mesada ele iria gastar 50 centavos em bala e sorvete. Com os 50 centavos restantes ele não podia comprar duas revistas, a menos que tivesse dinheiro extra. Nós víamos a coisa afundando. E quando a competição parava, podíamos ver a diferença imediatamente.


Jon: Com Creepy, Eerie e Blazing Combat, você não teve o campo todo só pra si durante muito tempo. Só por um par de anos.

Jim: Creepy saiu em '64. Eerie seguiu um ano depois. A competição começou relativamente rápido. Mas a maioria das revistas não tinham material novo, só velhas reedições. O material do Myron Fass era reedição.

Jon: Não, alguns eram coisa inédita do CChic Stone, Dick Ayers...

Jim: Por que eu pensei que essas coisas fossem relançamentos?

Jon: Porque um monte de coisa era. Você considerou fazer uma revista de ficção científica nos anos 60? Parecia ser companhia natural aos livros de terror e guerra.




Jim: Na minha opinião, ficção científica estava na mesma vizinhança especializada de terror e guerra, mas não na mesma rua. Forry Ackerman queria que eu publicasse uma revista de texto de ficção científica chamada Wonderama. Ele tinha outra ideia pra uma revista com um nome esquisito chamada Sci-Fi. Esse foi outro erro lindo! Pense na popularidade dessa frase incrível hoje! Estudei o campo da ficção-científica na época e foi horroroso, terrível. A menos que você fosse o John Campbell ou Isaac Asimov e pudesse ter aquelas revistas de ficção científica mensais do tamanho da Seleções devidamente distribuídas. Eles não estavam ganhando dinheiro nenhum. A maioria era marginal. Não havia nada graficamente excitante nelas, só tinha texto dentro. Eu não tinha a paixão necessária por ficção científica como o Forry tinha. Quem tem? Por dois anos eu fiz experimentos publicando alguns protótipos. Eu não gostei. Eles não eram bons o bastante. Eu não conseguia achar a fórmula certa. Algumas coisas não funcionam, não importa o quão excelentes os elementos sejam. Você pode ter um editor fantástico, artistas fantásticos, textos fantásticos, tudo fantástico, e ser um fracasso. Ninguém sabe o porquê. Eu simplesmente não consegui fazer dar certo, então saí desse campo.

Jon: Mas você pensou em uma revista em quadrinhos de ficção científica?

Jim: Não, nunca como quadrinhos. Não pensei em quadrinhos de ficção científica até muito, muito tempo depois.

Jon: O que aconteceu com Teen Love Stories?

Jim: Estou chocado! Chocado por descobrir que você sabe da Teen Love Stories! Eu pensei que tinha enterrado todos os vestígios dessa revista. É igual perguntar pro Warren Beatty e Dustin Hoffman sobre o filme Ishtar. Na verdade, Teen Love Stories foi muito pior que Ishtar.

Foi explicar rápido: na Inglaterra, conheci uma série de quadrinhos de romance de produção britânica para meninas adolescentes. O trabalho de arte era bom. As histórias não eram chatas. As vendas em bancas britânicas era astronômicas. Sempre tinha me incomodado que nosso público na Warren Publishing fosse totalmente masculino. As meninas simplesmente não eram atraídas pelo nosso assunto. O mercado de produtos para as adolescentes era muito forte na América. Poderíamos produzir quadrinhos para meninas que pudessem ser artística e comercialmente bons? Essa era uma forma de descobrir. Comprei os direitos americanos para uma série daqueles quadrinhos de romance britânicos. Publicamos como uma revista em quadrinhos chamada Teen Love Stories, e o resto é história. Ela afundou mais rápido que o Titanic. O grande experimento falou. Por que? Acho que porque meu coração não estava nele. Eu não conseguia devotar horas a cada página. O experimento morreu de morte merecida. O que eu tinha feito foi pegar o trabalho de outra pessoa e reeditar sob a bandeira Warren, e eu não devia ter feito isso. Era exatamente o que nossos concorrentes de Creepy e Eerie haviam feito anos antes. Eu devia me envergonhar, nessa.


(Continuará)

2 comentários:

  1. Excelente matéria. Parabéns. Aguardo sequência. Abraços.

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  2. òtima entrevista. Obrigado por trazê-la aqui.

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