quarta-feira, março 12, 2008


OS QUADRINHOS DA E.C.: FICÇÃO-CIENTÍFICA, CRIMES E HORROR

A REVOLUÇÃO E.C. E A NOVA TENDÊNCIA DOS “COMIC BOOKS”

Por Dennis Wepman

(Tradução: PC Castilho)


No início dos anos 50, William M. Gaines assumiu em precárias condições a editora de “comic books” (quadrinhos) de seu pai e a elevou para a primeira posição no gênero porque soube captar corretamente as tendências da juventude da época. Ao fazer a troca dos quadrinhos educativos pelos de entretenimento, Gaines modelou toda uma geração e fez uma abordagem duradoura na cultura popular produzindo os quadrinhos mais originais e criativos que jamais haviam sido produzidos. Este artigo narra o auge e a queda desta nova tendência dos quadrinhos.

Quando em 1947 morreu o pioneiro dos quadrinhos Max C. Gaines, ele deixou para seu filho William um milhão de dólares e um negócio que não ia bem. Max foi um dos responsáveis pelo surgimento do mercado de quadrinhos. Para dizer a verdade, ele se considerava o pai da indústria. Tentou parar em 1945, mas não lhe foi possível. Depois de vender todos os seus títulos de aventuras, ficou com outros tão edificantes como “Pictures Stories From The Bible” e “Tiny Tots”, todos educativos, moralistas e culturais. Mas estava decidido a reconstruir seus negócios e, como tinha formação superior, era impulsionado por ideais que eram benéficos para a juventude. Deu para a sua nova editora o nome Educational Comics e passou os dois últimos anos de sua vida aplicando-lhe respiração artificial. Antes de morrer, conseguiu que sua empresa adquirisse uma dívida de cem mil dólares.

Seu filho William estava cursando Pedagogia na Universidade de Nova Iorque quando, sem nunca imaginar, estava sentado na cadeira de diretor da editora do pai. Com muito cuidado foi abrindo espaços na indústria, desenvolvendo pouco a pouco os títulos de seu pai e tentando a sorte com os seus próprios. Durante os primeiros anos apareceram e desapareceram dezenas de séries: algumas eram imitações das de seu pai, como é o caso de “Animated Comics”, da qual apenas um número foi editado em 1948 e apresentava fantasias infantis com títulos como “Bouncy Bunny in the Friendly”; outros eram esforços heroicamente torpes na tentativa de criar coisas mais fortes, como o que apareceu em 1947 com o inacreditável título de “Blackstone the Magician Detective Fight Crime”, o qual também saiu apenas um número. Algumas séries românticas como “Modern Love” (1945-1950), duraram um pouco mais. Mas os quadrinhos eram coisas de crianças e a idade que eles atraiam girava em torno de 12 anos. William Gaines e seu gerente começaram a ver com crescente claridade que os garotos de 12 anos do pós-guerra estavam em busca de materiais mais fortes. Não estavam em busca de histórias românticas, nem tampouco de histórias bíblicas, para não falar de “Bouncy Bunny”. Era óbvio que a Educational Comics precisava cancelar seus títulos de romance, bonita e sobretudo educativas.

Os títulos mudavam com uma freqüência desconcertante – sinal claro de problemas nas vendas – durante aqueles anos e requer o talento de um biógrafo capacitado para desemaranhar semelhante labirinto de números e nomes. O serviço de Correios dos Estados Unidos exigia um depósito de dois mil dólares em troca de uma licença de franquia de segunda classe para uma nova revista, motivo pelo qual os novos títulos continuavam com a numeração dos antigos, que haviam sido cancelados. Quando tentava convencer as autoridades postais de que um título novo era o mesmo que havia sido cancelado, as vezes Gaines mantinha alguns elementos do título velho no novo e desta forma aproveitava o depósito original. Com isto surgiu alguns novos frutos, títulos raros e juntou certos elementos de “suspense” na compra de uma revista. A coleção de faroeste “Saddle Justice” (1948-1949), por exemplo, cedeu a isto, no fim de seis edições, a uma revista de romance que, para conservar a aparência de continuidade, recebeu o estranho título “Saddle Romances” (1949-1950). Seguindo o mesmo principio, “Internacional Comics” virou “International Crime Patrol” durante seis números publicados em 1948 e logo, até 1950, somente “Crime Patrol”. Mais um novo espírito começava a despertar na E.C. na medida em que os anos 40 iam terminando; nas histórias policiais, os crimes aumentavam de forma cada vez mais grotesca, os argumentos se tornavam mais sangrentos. Nas últimas edições de “Crime Patrol”, publicados na primavera de 1950, surgiu um truque narrativo: as histórias eram contadas por um personagem horrível chamado Crypt-Creeper. Na edição de abril a transformação ficou completa; a mariposa saiu de seu casulo transformada em uma borboleta completamente formada. “Crime Patrol” se transformou em “Crypt of Terror” (duas edições depois voltou a mudar, ligeiramente, passando a chamar-se “Tales From The Crypt”, título que conservou até 1955, quando deu seu último suspiro). Educational Comics havia morrido para todos os efeitos e a sigla E.C. passou a representar, sem dúvidas e orgulhosamente, Entertaining Comics.

Anos antes, Sheldon Mayer, o diretor da época de Max Gaines, havia redigido uma lista de regras para todos os roteiristas e desenhistas. As proibições, que deveriam ser cumpridas por todos com rigor, proibiam mostrar alguém sendo morto a tiros ou facadas, cenas de torturas, amputações de órgãos e caixões. Eram os mandamentos essenciais do bom gosto e da segurança psicológica da época, os quais eram respeitados religiosamente mas nos finais de 1950 parecia que William Maxwell Gaines, o arquiteto das mudanças da E.C., havia aberto uma brecha nos “mandamentos” com o desenho do Carniceiro, que virou símbolo da editora. Em 1950 a editora se proclamou “Entertaining Comics – a New Trend in Comic Books”. Gaines foi o arquiteto, mas seu mestre de obras foi Albert B. Feldstein (1925), que desenhou e escreveu muitas das primeiras histórias. Os desenhos de Feldstein eram estáticos e um tanto estilizados, o que caia bem no caso de alguns títulos góticos, mas não tanto em outros gêneros ao ponto de sua carreira como diretor e roteirista anular a sua de desenhista; em pouco tempo passou a ser o principal roteirista de Gaines e o responsável pela redação e adaptações de vários títulos da E.C. daquele período. Sua produção foi prodigiosa: durante cinco anos criou pelo menos uma história completa por dia para a editora. No decorrer dos cinco anos seguintes a nova tendência produziria algumas dos melhores “comic books” de todos os tempos e, também, os mais polêmicos. Os títulos velhos desapareceriam completamente e seriam substituídos por outros novos, verdadeiramente novos, uma vez que a narrativa e a parte gráfica se tornariam modelo para a indústria toda.

Em maio de 1950 apareceram dois títulos inovadores: “Weird Science” e “Weird Fantasy”; ambos continuaram sendo publicados até 1953 e em março de 1954 fundiram-se em um só título: “Weird Science-Fantasy”, que circulou até 1955. Esses dois títulos, que eram os preferidos do editor, não alcançaram sucesso comercial; a E.C. os manteve vivos porque eram o orgulho deles e porque seus seguidores protestariam caso fossem cancelados. “Weird Science” e “Weird Fantasy” não foram os primeiros títulos desse gênero, mas sim os primeiros a adaptar grandes contos da literatura, abrindo uma nova dimensão gráfica ao gênero. Superaram os clichês e foram em grande parte responsáveis pelo renascimento da ficção. As revistas de ficção-científica e fantasia dos anos 20 e 30 estavam praticamente esquecidas até que a E.C. ressuscitou e renovou suas histórias com um vigor e estilo visual que raramente se via fora dos museus. A história principal do N° 1 de “Weird Science” – “Lost in the Microcosm” (Mai/Jun 1950) -, obra de autoria de Feldstein, que também fez a capa, serviu como modelo para os três anos que duraria a revista. Era a adaptação de uma novela publicada no número de agosto de 1936 de “Amazing Stories”. “He Who Shrak”, de Henry Hasse, é a história de um cientista que se expôs acidentalmente a uma solução química que lhe fez encolher. Na história original o herói se oferecia voluntariamente para testar um novo soro porque estava morrendo de câncer, mas nem mesmo a E.C. estava preparada para isto. O cientista foi reduzido para menor que um átomo e descobre que as partículas sub-atômicas são planetas habitados por suas próprias sociedades. Ele passa por vários universos, enfrentando novos perigos em cada um deles. No final, chega a um mundo onde pode narrar a história que você está lendo e nós entendemos que se trata do planeta Terra, e que nós nos encontramos em uma série infinita de universos.

Na verdade, “Weird Fantasy” não era diferente de sua publicação irmã da E.C. . Nunca levaram muito a sério a linha que separa a ficção-científica da fantasia, linha que por si só já não é clara e “Weird Fantasy” tomava coisas emprestadas dos clássicos de ficção-científica com tanta liberdade como as tomava também “Weird Science”. Tanto H. G. Wells como Julio Verne se encontravam representados no primeiro número de “Weird Fantasy e Ray Bradbury também fez aparições freqüentes na revista. As duas séries compartilhavam escritores e desenhistas: Al Feldstein desenhava e escrevia para ambas, como fizeram também Harvey Kurtzman, Wallace Wood, Jack Kamen, Joe Orlando e Al Williamson. Ambas as revistas abordavam o mesmo tema que preocupava os fãs de ficção-científica: o perigo da tecnologia, os abusos a que submetemos a ecologia, a arrogância dos seres humanos, a desumanidade do homem com os semelhantes, etc. Exemplo típico disto foi “Enemies of the Colony”, de Wallace Wood (1927-1981), publicado no N° 8 de “Weird Fantasy” (Jul/Ago 1951). Trata-se de uma história que descreve uma colônia de terráqueos em um planeta estranho; os humanos encontram ali alguns animais com aparência inofensiva e, seguros de sua superioridade, não tomaram nenhuma precaução contra eles. Vale dizer que, como qualquer leitor de ficção adivinhará, os pequenos animais comeram os humanos. Nessas histórias sempre saímos perdendo.

As histórias sobre crimes, que apareciam em revistas como “Crime SuspenStories” e “Shock SuspenStories” (1952-1954) eram mais duras e faziam com que algumas pessoas se sentissem incomodadas. Entre outras coisas, estas histórias não garantiam um final feliz, nem sequer um final justo. Neste sentido eram verdadeiramente inovadoras. Geralmente, as histórias de “Shock SuspenStories” eram ainda mais fortes. O sangue fluía livremente nas histórias e o cenário era pouco agradável. Raramente era feita a justiça; nem sequer o destino a fazia. Em “Crime SuspenStories” a vingança ocupa um lugar de destaque: havia sempre maridos assassinando suas esposas ou vice-versa e, como regra geral, a vítima tinha o que merecia. Mas, enquanto nas histórias de crime o assassino só caia nas mãos da lei devido algum incidente irônico, em “Shock SuspenStories” o mal ficava sempre impune. Em “Under Cover” (N° 6, Dezembro de 1952), por exemplo, Wallace Wood nos oferece uma visão aterradora de um grupo racista de uma pequena cidade que assassina uma mulher e em seguida um jornalista que viu o crime. Esta visão do mundo é freqüente.

As histórias de ficção-científica e fantasia foram triunfos artísticos, mas foram as de terror que definiram a nova tendência para a maioria dos leitores. Foram, os títulos de terror os verdadeiros causadores de todo aquele furor, todo o amor, toda a devoção, todos os problemas. As revistas de quadrinhos de terror fez com que a E.C. chegasse ao posto de Rei, mas também destronaram a editora.

Três títulos de terror permitiram que a E. C. alcançasse o ponto mais alto do sucesso popular, cada uma com suas características próprias mas, na verdade, todas eram a mesma coisa. Havia um intercambio entre os desenhistas e os roteiristas faziam o mesmo. Todas começaram em 1950 e todos foram em grande parte criações de Gaines e Feldstein.

O primeiro aviso real do que estava por vir foi “Crypt of Terror” (que logo se chamaria “Tales From the Crypt”), série que introduziu as histórias de terror no estilo da E. C. assim como a idéia de um narrador que ia comentando jocosamente as ações, com o qual ajudava o leitor a aliviar a angustia que as histórias podiam criar, e dando ao leitor juvenil o prazer de participar da criação dos mesmos. A resposta entusiástica que obtiveram as histórias de “Crypt” assim como o repulsivo andrógeno que as apresentava, incentivaram a E. C. a lançar outros dois títulos parecidos: “The Vault of Horror”, também em maio e apresentado pelo não menos repulsivo “Vault-Keeper” (Guardião da Tumba); e em junho, “The Haunt of Fear”, apresentado por uma velha bruxa chamada Old Witch (Bruxa Velha). Tanto “Tales From The Crypt” como “The Vault of Horror” duraram até 1955; “The Haunt of Fear” morreu um ano antes.

O sobrenatural tem sido sempre elemento especial de leitura popular, mas a E.C. adicionou algo novo ao tema, como em suas histórias de crimes, utilizou uma grande dose de suspense: o leitor nunca sabia se a virtude iria triunfar ou se o mal receberia seu castigo. Em segundo lugar, utilizou a peculiar mistura de sangue e medo, que tanto gostavam os leitores – os narradores nunca paravam de fazer terríveis jogos de palavras, usando um linguajar vulgar para se dirigir aos leitores e, geralmente, recusavam a levar a sério os horrores que contavam -. Finalmente, estavam os excelentes desenhos livres de todas as restrições que impunha o “código de censura”, os desenhistas cativavam os olhos e seduziam as mentes.

Os desenhistas de terror da E.C. eram casos insólitos no ramo porque tinham seus estilos próprios. Filmaram seus nomes e tornaram-se celebridades com muitos e apaixonados seguidores. “Tales From The Crypt” era o território de Jack Davis (1926), que também desenhava para revistas de crimes e de guerra, com um estilo mais para o lado dos ‘cartoons’; John Craig (1926) presidia “The Vault of Horror”. Escritor consagrado, além de mestre nos desenhos, Craig era responsável por todos os aspectos de suas próprias histórias e foi o editor da revista durante os cinco últimos números da mesma (36-40, 1955). Uma das criações características de Craig é “Two of a Kind” (N° 26 de “Vault”, ago/set de 1952), onde uma atraente atriz, que secretamente é uma vampira, e um suposto ator que secretamente é um demônio necrófago são namorados. Ilhados por causa de uma forte nevasca, cada um faz um sacrifício extremo pelo outro: ela bebe seu próprio sangue até a última gota e ele come a sua própria carne.

Quem sabe o mais popular dos três desenhistas seja Graham Ingels (1915), que assinava com o pseudônimo “Ghastly” (Horrível) e dirigia “The Haunt of Fear”. Ingels era um mestre do macabro, o Hieronymus Bosch dos quadrinhos. Seu estilo obsessivo, invocador, desperta todos os temores primordiais dos homens.

A popularidade deste trio continuou crescendo, mas em 1954 as ‘sombras’ começaram a surgir e o próprio Gaines entendeu que os dias da nova tendência estavam contados. “Se continuar publicando suas revistas de terror”, disse um amigo dele, “sua editora irá falir logo. Odeio a censura, mas até eu me sinto incomodado quando leio uma história onde um homem come um cadáver de sua noiva”.

A liberdade civil dos americanos se via ameaçada por muitos lados e estava claro que a indústria dos quadrinhos, que naquele momento estava no auge, não ia se livrar da ameaça. Crescia a desaprovação dos pais diante do material horripilante das revistas em quadrinhos e Gaines inevitavelmente, receberia sua parte de tal reprovação.

Na primeira metade de 1954 um psiquiatra austríaco, Frederich Wertham, publicou um livro que condenava as revistas em quadrinhos. Seu livro sensacionalista “The Seduction of the Innocent” atribuiu a violência dos quadrinhos como culpa de grande parte dos problemas da sociedade. As mães da América, apoiadas pela augusta voz da ciência européia, finalmente levaram as coisas até o ponto de pedir uma investigação por um comitê do Senado sobre a delinquência juvenil. Presidia o comitê Estes Kefauver, que aspirava a Presidência da nação. Wertham e outros psiquiatras testemunharam contra os quadrinhos em geral e, em especial, contra os quadrinhos de crimes e terror; Gaines decidiu falar em favor dos mesmos. “Eu fui o primeiro editor nos Estados Unidos que publicou quadrinhos de terror. Sou o responsável, eu comecei com eles.”, afirmou ao iniciar sua declaração. Defendeu-se heroicamente como um Davi lutando pela liberdade da expressão contra o Golias da censura, mas ele fez um franco favor à sua própria causa. A disputa se concentrou mais na questão do gosto do que na lei e a mais famosa troca de palavras do público foi entre Gaines e Kefauver sobre uma capa de John Craig na qual aparecia “um homem com um macaco ensangüentado na mão e a cabeça de uma mulher separada de seu corpo. Você acha que isso é de bom gosto?”, perguntou Kefauver. “Sim, eu acho... para uma capa de uma revista de horror”, replicou Gaines.

O que estava em jogo era mais que o bom gosto da capa de Craig, era o direito de William M. Gaines de publicar quadrinhos de horror. O assunto atingiu todo o país porque tocou na essência da questão da liberdade de imprensa e o direito de uma geração jovem e cada vez mais agressiva, de se divertir a sua maneira. As implicações psicológicas das teses de Wertham no sentido de que a exposição a violência pelos meios de entretenimento prejudicava os jovens foram profundamente significativas. Tanto os pais, educadores e editores ficaram de olho nos conteúdos. Gaines foi quem ficou com mais atenção, uma vez que do resultado dependia o seu sustento.

Feldstein

O Senado não tomou nenhuma medida, mas as industrias dos quadrinhos se submeteram às pressões para que “purificassem” seus produtos – não citaram nomes – nem mesmo o livro de Wertham citava diretamente o nome da E.C. -, mas todo mundo sabia contra quem eram dirigidos os ataques. Várias semanas depois da entrevista, Gaines reuniu um número de editores com o propósito de formar um grupo de ação para se defenderem da censura. Não obteve os resultados desejados: a primeira coisa que eles fizeram foi tirar as palavras “Horror”, “Terror” e “Crime” de seus títulos. Gaines, contrariado, abandonou o grupo, mas eles permaneceram unidos e em Setembro de 1954 passaram a se chamar “The Comics Magazine Association of América”. A associação outorgou a si mesma o direito de controlar o estilo e conteúdo de tais publicações criando um SELO de “código dos quadrinhos” (Comics Code).

Wallace Wood

Formavam o código diversas regras preventivas e muito conservadoras que, no ponto de vista de muitos, representavam um passo para trás. Ia muito claramente contra muitas coisas que haviam contribuído para o sucesso da E.C.: além da proibição das palavras como “horror” e “terror”, proibia a representação de sangue, violência, luxuria e “cenas e objetos relacionados aos mortos, torturas, vampiros, demônios necrófagos, canibalismo e licantropia”. Proibiam a E.C. da utilização de sua caixa de ferramentas. A maioria não estavam dispostos a distribuir revistas que não tivessem o selo de aprovação do código, e não obedecendo as regras, não tinha como a E.C. obter tal aprovação. A pressão era muito forte e finalmente William Gaines se deu por vencido e cancelou suas séries de terror.

Max C. Gaines

Tentou burlar o selo com uma revista que não provocaria polêmicas. A revista se chamava “New Direction” e abordava assuntos como a aviação, jornalismo, pirataria e até mesmo psicoanálise, mas não conseguiu vender nada. Não levava o selo de aprovação. Por isso, tentou entrar para a associação, mas nada adiantou: os censores “desprezavam as suas histórias”, recordaria mais tarde Gaines. Teve um pouco mais de sorte com umas revistas em preto e branco, que eram vendidas a vinte e cinco centavos e tinham textos na parte superior e inferior dos desenhos e que, consequentemente, tecnicamente não eram quadrinhos, as quais eram deixadas fora do selo de aprovação. Os títulos dessa série eram denominados “Adult Picto-Fiction” - “Terror Illustrated”, “Shock Illustrated”, “Crime Illustrated”, “Confessions Illustrated” (1955) – duraram somente dois números cada. Foram canceladas consumindo os últimos benefícios obtidos com as revistas de terror, deixando a E.C. com uma dívida de cento e dez mil dólares. Não sobrou nada além da revista “MAD”... mas isto é uma outra história (um futuro artigo).

Mas algo sobreviveu – e sobrevive daqueles dias turbulentos. Foi escrito um capítulo da história cultural popular americana, quem sabe um capítulo tão importante e apaixonante como qualquer outro que tenhamos conhecido. Gerações foram influenciadas de maneira imperceptível e indefinida e os efeitos perduram.

Ninguém que nasceu naquela época pôde esquecer os quadrinhos da E.C. (PCC)