ANTONIO SEGURA
Antonio Segura é roteirista, com contador de histórias por vocação e, felizmente para nós leitores, um profissional. Em seus vinte anos de carreira, criou algumas das séries mais importantes dos quadrinhos europeus das últimas décadas, entre eles HOMBRE, KRAKEN e BURTON & CYB. O artigo que se segue é uma conversa que tivemos em um momento de descanso quando ele estava escrevendo o roteiro de uma história de TEX, o grande clássico italiano, no qual está trabalhando no momento. Se você ainda não o conhece, te apresentamos um grande artista. Este é Antonio Segura.
PERGUNTA (P) - Antonio, como você se envolveu com este negócio?
SEGURA (S) - Tudo começou em meados dos anos 80. Eu escrevia contos de ficção-científica. Sonia nos morros durante a noite na esperança de avistar um disco voador. Devorava livros e mais livros. Me juntava à tripulação do Capitão Ahab e navegava pelos mares seguindo as trilhas deixadas por Moby Dick. Resumindo, era um tempo em que eu vivia sonhando. Mas aquela espécie de loucura deu frutos. Depois fui convidado a participar como roteirista de uma revista que estava para ser lançada. Aceitei encantado e fui apresentado a José Ortiz, Luis Bermejo e Leopoldo Sanchez, três desenhistas da primeira divisão que procuravam iniciar a aventura de criar sua própria obra autoral e para isso necessitavam de um roteirista amador, um bárbaro com criatividade não contaminada pelos "vícios" do mercado. Sugeri a eles uma revista que funcionaria como reflexão sobre três etapas históricas da humanidade, criando três personagens que eram seus veículos criativos: HOMBRE, onde a terra sofria um colapso total, retornando a uma espécie de idade média, quando diferentes guerras e a falta de energia arrasaram nossa civilização. Em BOOGEY, reconstruída uma nova civilização, conquistamos as estrelas ao mesmo tempo em que começamos a cometer os mesmos erros que haviam nos destruído no passado. E em ORKA, uma humanidade espalhada por centenas de universos luta para sobreviver à ditadura da Companhia (uma multinacional em sua máxima extensão de poder). Orka, um judeu, um Anjo da Morte, os ajuda em sua rebelião contra a Companhia.
Já havia uma história pronta de HOMBRE e a apresentamos ao Grande Senhor dos Editores Espanhois daquela época, Josep Toutain, o qual, depois de lê-la, declarou com voz profunda, "É o pior roteiro que já lí em minha carreira profissional". Eu e Ortiz não nos entregamos, pelo contrário, deduzimos que se o editor mais importante da Espanha havia demonstrado tal horror por nossa história, era porque havíamos criado algo novo, revolucionário. Em poucos meses Hombre, Nogey e Orka foram publicados na Espanha através de outro grande editor, Rafael Martinez, da Norma Editorial. E em poucos anos Hombre e Bogey passaram por diversas publicações do mundo inteiro. Qual foi nossa pequena e ingênua revolução? Na Espanha, naqueles anos, grandes desenhistas, potenciais roteiristas, para poder faturar no fim do mês, se viam obrigados a criar histórias infantis, dedicadas ao mercado anglo-saxão. Hombre e Boogie quebraram o muro de contensão e rapidamente Manfred Sommer, Jordi Bernet e Sanchez Abuli com seu genial Torpedo e muitos outros, começaram a contar verdadeiras histórias para adultos, sem esquecer que os meninos são também adultos mal informados e que precisam ser informados. O que todos nós, "rompedores", fizemos foi espalhar o quadrinho espanhol por toda a Europa.
P - Continuemos falando um pouco mais da história, já que você mencionou uma série de autores como Ortiz, Leopoldo, Bert, Sommer... como vocês se reuniram na revista Metropole ainda mais, quais eram as pretensões dessa revista?
S - Já havia passado alguns anos. Ganhávamos dinheiro mas continuávamos trabalhando para os grandes editores. Decidimos então voltar a tentar criar nosso próprio Paraíso Terrestre, nossa própria revista, a Metropol. Ela retomava a filosofia do nosso primeiro projeto. Mas desta vez não falariamos do futuro, mas de um presente mais imediato. Inventei/inventamos uma cidade, Metropole a revista narrava através de diferentes histórias o que acontecia nela. Metropol era uma espécie de diário jornalistico de uma cidade inexistente, onde as histórias de seus personagens (Morgan, Kraken, Vito, El Justiciero Enmascarado, etc) eram posteriormente referendados por noticias de jornais, artigos, anúncios que faziam reais suas aventuras. Com Metropol criamos uma cidade irreal, que gerava notícias tão reais como Paris, Londres ou Nova Iorque. Metropol foi, na sua medida, como Necronomicon de H.P. Lovecraft, um livro negro e tenebroso que os universitários americanos pediam nas bibliotecas. Na Espanha, alguns ingênuos me perguntavam onde ficava Metropol. Eu sempre respondia: "Nos seus piores e melhores sonhos". Fracassamos nas vendas e nos arruinamos... um terremoto atingiu Metropol. Por quê? Porque as distribuidoras, alertadas pelos outros de que só lançávamos uma única revista no mercado, decidiram distribuí-la sem muito interesse, dando mais atenção aos grande editores, que colocavam no mercado três ou quatro revistas e uma boa quantidade de álbuns. Essa experiencia nefasta também aconteceu com a revista RAMBLA, cujos editores eram, iguais a nós, desenhistas e roteiristas. A Metropol foi um fracasso? Fracassou por causa de seu conteúdo? Não. Neste momento a revista Metropol, na Espanha, é uma revista cultuada. Copio a minha coleção umas cem vezes por ano para os amantes dos quadrinhos que me pedem cópia. Ainda mais, quando a Metropol foi "enterrada", Morgan e Kraken sobreviveram e fizeram sucesso novamente na praia de outras grandes editoras, onde duplicaram suas aventuras. Em poucos anos, Morgan e Kraken foram publicados em toda Europa.
P - De onde você tirou a idéia de Kraken?
S - Kraken havia sido impregnado em minha mente através de dois filmes, uma novela e um quadrinho. O primeiro filme corresponde à minha infância, "O Terceiro Homem", a perseguição quase onírica de Orson Welles pelos esgotos de Viena. O segundo filme foi "To Russia with love", onde 007 descobre os ratos que habitam os imensos esgotos de Istambul. A novela era de Ernesto Sábato, "Informe Sobre Cegos", uma viagem ao submundo da alma humana às suas mais retorcidas formas. Eu já tinha feito, ou estava fazendo com Jordi Bernet a série Starvan, e estava me doendo na consciência que como roteirista não estava permitindo que Jordi desfrutasse completamente o seu trabalho. Por isso lhe mostrei Kraken, uma história que acontece quase que o tempo todo nos esgotos de uma cidade grande, Metropol. O "truque" de Kraken era que sintetizava no cenário tudo aquilo que fosse fundamental para a história. Não havia paisagem rural ou urbana, só esgotos, paredes cobertas por fungos, um ambiente claustrofóbico, tubulações e águas fétidas por todos os lados, um cenário de podridão nunca visto, um universo de luzes e sombras onde Jordi podia expressar todos os conceitos gráficos que herdou do cinema gótico alemão. Além disso, Kraken oferecia outra novidade. Com a ausência de cenários, com um mínimo de detalhes no fundo, os protagonistas humanos eram ressaltados, sua solidão, violência, seu trágico destino. Kraken é, talvez, meu melhor trabalho, foi feito à nossa imagem e semelhança, ele nos devora.
P - Eva Medusa foi uma de suas obras que mais surpreendeu quando foi publicada. Você ainda se lembra de como surgiu a idéia de criar a história para Ana Miralles?
S - Anteriormente eu havia criado uma série, Mamba, com Pepe Gonzalez, que não deu certo. Suas ações aconteciam em terras amazônicas e fiquei apaixonado pelos lugares e pelos personagens. Acabara de concluir com Ana Miralles nossa primeira colaboração. Marruecos Mi Amor, e descobri que Ana não se sentia a vontade com histórias que aconteciam na atualidade. Seu estilo pedia a gritos um ambiente romântico e mágico, onde o concreto de nossas cidades fosse substituído pelo verde da selva. Assim pensamos em cada detalhe de uma série que faria sucesso no mercado da França. Tinha que ser um roteiro bem documentado, em um lugar exótico (novamente a Amazônia), e uma vez que os franceses gostam de histórias sutilmente retorcidas, que escandalizam sua alma burguesa, fortes e densas, com muito romance, criei Eva Medusa. Eva é prazer total. Qualquer homem que a possua não pode mais fazer amor com uma mulher normal, fica impotente, porque Eva é sexualmente o equivalente a droga mais forte e pura. Seus amantes se transformam automaticamente em seus escravos, a odeiam e a desejam com a mesm intensidade e sobre este eixo narrativo fizemos três álbuns que funcionaram muito bem.
P - Você e Ortiz chegaram a algum momento a estarem cansados de Hombre?
S - Sim. Paradoxalmente, o próprio sucesso de Hombre nos criou um problema. A série estava sendo vendida em seis ou dez países e seus respectivos editores pediam novos episódios. Nunca imaginei que Hombre pudesse durar muito tempo depois de contar suas histórias básicas, as que davam credibilidade ao personagem. Insistir no tema, escrever novas histórias que não se ajustavam ao espírito original da série nos parecia traição. Hombre era uma espécie de rebelião contra as séries nascidas nos EUA que narravam como os sobreviventes de uma catástrofe nuclear se comportavam como heróis invencíveis e felizes, em um mundo devastado, mas cheio de aventuras, sexo e emoção, onde página após página, o herói aniquilava um bando de mutantes sem titubear jamais ao vazio do mundo que havia perdido, o nosso. Por outro lado, Hombre contava as tristes peripécias de um ser prematuramente envelhecido, calvo, feio, egoísta, sem capacidade de amar ou ser amado. Um anti-herói, um sobrevivente a seu próprio instinto que dizia: "Basta, quero morrer. Não quero continuar nesse mundo". Porque essa era a mensagem da série: se permitimos a destruição de nossa civilização, os sobreviventes só conhecerão e viverão a dor e o desespero.
P - Tudo isso explica um pouco a personagem Átila?
S - A aparição de Átila foi o canto do cisne de Hombre. Ele estava ficando triste e desesperado, mais cansado do que nunca, mas também mais humano, e o havíamos envelhecido graficamente. Tinha 55 anos e se sentia um fóssil humano ambulante, uma testemunha do desaparecimento traumático de seu mundo, nosso mundo. Átila, pelo contrário, tem 18 anos, é a encarnação do "bom selvagem" que vive sem complexos nem amarguras. Átila não conheceu o mundo de Hombre e portanto não sente falta, é da nova geração. Hombre já podia morrer, seu ciclo de existência na história havia se completado, porque igual ao personagem do conto de ficção científica de Richard Matherson que descobre que em um mundo habitado por mutantes, ele, sendo um humano, é um monstro. Hombre, ao conhecer Átila, chega a mesma conclusão: seu tempo pasou.
P - Um de seus primeiros trabalhos e de Ortiz para a Itália foi a série Ozono. Minha opinião é que, como já havia acontecido com Hombre, novamente a série se adiantou ao seu tempo. Você acha que aconteceu isso?
S - Ozono é um bom exemplo de nossa inata capacidade de complicar as coisas. Naquela época os grupos ecológicos começavam a proliferar, ao mesmo tempo começávamos a tomar consciência da escalada de degradação que estávamos submetendo a terra. Ozono é uma organização igual a Interpol, cuja finalidade é combater qualquer tipo de delito ecológico. Para escrever a série, eu lia o maior número possível de jornais, até encontar uma notícia referente ao tema e escrevia o meu roteiro. Em alguns casos recorria à ficção, criava uma história original e posteriormente me assustava ao ler nos jornais que meus piores sonhos haviam se tornado realidade, por exemplo, o assassinato de meninos do Terceiro Mundo para vender seus órgãos aos países desenvolvidos. A história causou polêmica na Itália e criou debates. Muitos leitores me chamaram de oportunista. Outros concordaram com minha atuação: os quadrinhos podiam e deviam atuar como veículo de denúncia ante os atos terroristas contra a natureza e o próprio ser humano. Nenhuma organização ecológica nos deu uma medalha, nem nos indicou para o prêmio Nobel, e eu os desculpo, eles não leem quadrinhos, mas os jovens sim, e nos deram seus apoio no debate.
P - Durante esses últimos anos você tem trabalhado quase que exclusivamente para a Bonelli Comics na Itália. Não te assusta ser o primeiro roteirista não italiano a escrever roteiros de Tex?
S - Certo. Muito medo e muito respeito. O personagem de Tex nasceu em 1948, criado por Gian Luigi Bonelli, um homem com incrível força de vontade perpetuada em seu personagem, que acabou por se tornar parte da cultura italiana por méritos próprios. Gian Luigi Bonelli e seu filho Sergio criaram um império de quadrinhos populares em seu país, um exemplo de profissionalidade e caráter, que infelizmente não existe na Espanha. Em meados dos anos 90, Sergio Bonelli resolveu convidar os mais prestigiados desenhistas para realizarem um Tex Especial. Nesses especiais as histórias eram escritas pelos "homens da casa": Bonelli, Claudio Nizzi, Decio Canzio, que conhecem a perfeição estrutural do personagem e seus companheiros até os mínimos detalhes... em resumo, a fórmula do sucesso que tem permitido a Tex sobreviver com vigor desde o ano de 1948. Entre os convidados espanhois a realizar um Tex Especial figuram, Victor de La Fuente, Jordi Bernet, Alfonso Font e José Ortiz. Isso me parte a alma. Sabendo o amor que Ortiz nutre ao universo do faroeste, e sua indiscutível genialidade, vou ficar sem o meu companheiro. Meu instinto me diz que Ortiz ficará para sempre como desenhista da Bonelli Comics. Em um determinado momento nos convidaram (desenhista e roteirista) a participar da Feira de Quadrinhos de Lucca. Em nossa viagem visitamos Milão e tivemos a oportunidade de falar com Sergio Bonelli. José Ortiz com seu contrato no bolso para a história de Tex e eu tremendo como vara verde. Quando José termina de falar de seus assuntos profissionais com Bonelli, chega a hora de eu me oferecer. Propus a Bonelli que eu escrevesse sem compromisso um roteiro de Tex. Se minha idéia agradasse, eu continuaria. Se não ficasse bom, desistiria. Bonelli, depois de meditar por um instante, sorriu e disse (é o que me lembro, juro que foram essas palavras): "Antonio, aqui na Itália te admiramos muito, mas como você vai contar uma história de Tex que ainda não contamos?". Insisti e Bonelli aceitou minha proposta. Eu escreveria o resumo de uma história e ele o iria ler e dar sua decisão. Durante a viagem de volta à Espanha, traço as linhas de meu roteiro. Eu acabara de ler uma novela que narrava a história de um grupo de paleontólogos que estavam extraindo fósseis de dinossauros em um local próximo de onde Custer e a Sétima Cavalaria haviam sido massacrados (nota do editor: bravamente massacrados) por Cavalo Louco e Touro Sentado. Tex, em meu roteiro, ajuda um paleontólogo a resgatar os restos de um grande dino, e enfrenta os índios, que viam aqueles ossos como restos dos antepassados dos bisontes. Ossos sagrados. O roteiro se chamaria "Os Caçadores de Fósseis". Eu o enviei e fiquei aguardando. Um dia, Bonelli me chamou. Minha idéia o havia agradado. Eu teria que escrever um roteiro de 350 páginas. Quando eu estava na página de número 200 de minha primeira história de Tex, que estava sendo desenhada por José Ortiz, Bonelli me convidou a fazer um segundo roteiro que seria desenhado por um argentino, Miguel Angel Repetto. Meses depois e graças ao sucesso das vendas do álbum "Os Caçadores de Fósseis", comecei um novo roteiro que seria desenhado novamente por José Ortiz (a equipe estava funcionando), de 330 páginas chamada "O Ouro do Sul". No momento, estou trabalhando em um novo roteiro de 330 páginas, mais uma vez desenhado por Ortiz e com o título "O Trem Fantasma". Conclusão: imaginem se Harold Foster tivesse me dado sua confiança para continuar os roteiros de Principe Valente. Imaginem o que esse roteirista, depois de escrever mil roteiros, como por exemplo, Kraken e convertê-lo em um clássico (como Tex), escolhersse você para continuar suas histórias. É isso que sinto em respeito a Tex. Ser o primeiro roteirista não italiano é uma grande responsabilidade e ao mesmo tempo um infinito prazer. Com certeza, minha dedicação não é total para a Itália. Agora mesmo acabei de terminar seis capítulos de 25 minutos para uma série de desenhos animados (Fantaghiro). Tem rendido um bom dinheiro, mas para mim, a verdadeira satisfação como roteirista está nos quadrinhos. Me eduquei com os quadrinhos e perpetuo com minha obra esse grande favor.
P - Você já escreveu três MAXI TEX, uma série da qual você é o único roteirista. O terceiro foi ilustrado pelo argentino Miguel Angel Repetto, que segundo creio, realiza uma homenagem a Arturo Del Castillo, não é mesmo?
ORTIZ - CINCO HISTÓRIAS
S - É uma pergunta que o próprio Repetto teria que responder. Minha experiência ao trabalhar com ele é que é um grande profissional, que tem sabido entender e interpretar com perfeição os meus roteiros. Se você tem o álbum que ele desenhou, poderá notar que em poucas ocasiões um desenhista soube expressar nos rostos dos protagonistas tal carga de intencionalidade. Os personagens de Repetto expressam seus sentimentos através de seus rostos, atuam como eficazes artistas, até os mínimos detalhes do roteiro, interpretando com perfeição seu papel. Repetto desenha, para mim, mais com o coração do que com a técnica dos profissionais e por isso sua obra, seus personagens são humanos e verídicos.
P - Suponho que depois de trabalhar durante tantos anos em histórias de 10 ou 12 páginas, você está gostando de escrever roteiros com 330/350 páginas...
S - Uma história curta é igual a um telegrama, tem que dizer o correto, o imprescindível para que a mensagem seja compreensível:'Mamãe morta, vem no trem'. Um roteiro com 10-12 páginas é como uma aquarela diminuta comparada com um quadro a óleo de dez metros por quatro. A aquarela tem que ser perfeita. Em sua difícil simplicidade, sua mensagem visual tem que ser compreendida muito antes de ser analisada. 330 páginas te permite contar a história. Dez páginas são sempre o extrato de uma história.

P - Então, como é que Ortiz e você fizeram "Juan El Largo" em histórias curtas, se iam sair em um álbum?

S - Tudo é política. Um editor espanhol teme a possibilidade de ter que pagar um álbum de 46 páginas, já que quando ele o oferecer a um editor, por exemplo Francês, corre o risco de receber um não. Assim, como são muito espertos, te pedem para fazer várias histórias curtas que reunidas podem formar um álbum de 46 páginas. Deste modo, sempre há a possibilidade, se não vende o álbum completo, pode vender algumas de suas histórias. Em resumo, durante anos, os editores espanhois tem sido o nosso grupo de suporte e paradoxalmente tem sido os editores espanhóis, ao solicitar histórias de 46 páginas de séries que funcionam muito bem em seu mercado, os que tem nos dado a oportunidade de entrar no mundo dos álbuns. Por isso, sempre que começava uma nova série, mesmo que me pedissem capítulos curtos, eu tratava de combiná-los para que funcionassem como álbum. Por isso, sempre que começava uma nova série, mesmo que me pedissem capítulos curtos, eu tratava de combiná-los para que funcionassem como álbum. Burton e Cyb, por exemplo teriam sido perfeitos para uma história longa de 46 páginas. Não foi possível e me vi na obrigação de forçar o cérebro e contar em 8-10 páginas uma trama tão complexa, que é uma coisa muito estafante. Por isso, admiro Jordi Bernett e Abuli, que realizando histórias curtas, conseguiram chegar a perfeição com Torpedo.

P - Você se arrepende de alguma coisa relacionada a sua vida profissional como roteirista?

A - Sim. E é um conselho para os futuros roteiristas. Durante esses anos criei as séries Hombre, Bogey, Sarvan, El Justiciero Enmascarado, Vito en la Mili, Kraken, Morgan, Ozono, Juan el Largo, Burton & Cyb, Desierto de Arena, Mamba, Eva Medusa, Marruecos Mi Amor, But O'Brien el Guardaespaldas, Jack El Distripador, El Nuevo Necromicon e algumas outras que me fogem da memória. Qualquer uma delas, insistindo em sua continuação, poderiam se transformar em um clássico (é por isso que admiro Bonelli). Entretanto, acho que alguns de meus personagens passaram para a memória coletiva, mas sempre como obras menores. Por isso, meu conselho é que quando você, amigo desenhista, ou equipe de desenhista e roteirista, encontrarem "o personagem perfeito", aquele com o qual vocês se identificam, não o matem, continuem escrevendo suas histórias mesmo que não as publiquem. Para sobreviver, escrevam e desenhem o que lhes pedem, mas continuem mantendo seu herói de papel, porque juro que no final triunfará e alimentará seus netos. Saudações da Espanha a todos os amigos.


